Todas as épocas tem suas plantas e remédios milagrosos. Eu mesmo sou testemunha e prova de que elas existem e a minha vida dependeu em algum momento delas. Começarei com o milagre de minha vida. Imaginem um piazito magricelo e raquítico com um ano e meio pesando menos de 10 quilogramas, dengoso e que se alimentava mal. Vivia perambulando por aí procurando problemas até que um dia foi cortar uma varinha e se encontrou com o senhor escorpião, tudo colaborava com a hipótese geral que ele não resistiria a picada pelo seu tamanho e histórico. No entanto, sempre tem um no entanto, um mago, o vovô Bôrtolo, que tinha em casa sempre prontas poções mágicas de uso geral fazendo uso de poção de álcool com Guaçatonga(ou guaxatumba) e álcool com Guiné, conseguiu a façanha de manter vivo o piá. Não sei se foi uma boa ideia porque mais tarde ele daria muito trabalho em função da rebeldia. Acho que o único efeito que permaneceu foi que até hoje ele é meio jiribiado ou fora-da-casinha com querem alguns. Assim se pode dizer que a primeira erva milagrosa que contribuiu para minha vida foram duas: a guaçatonga e o guiné, o álcool era apenas um coadjuvante. Putz! Esta foi forte, a primeira foram duas…
Depois, muito, mas muito mais tarde, não é que eu resolvi estudar biologia.Lá tinha um professor o padre Clemente Stefens que estudava plantas medicinais. Mas antes muito antes disso tinha os raizeiros e curandeiros costuradores de costelas e um monte de seres milagrosos, que de uma ou outra forma usavam plantas milagrosas para realizar seus prodígios. Vai ser meio difícil falar na ordem cronológica, mas vamos lá. Vou começar pelo seu Nézio, pelo que me consta era arquiteto e bioquímico argentino que veio fugido para o Brasil, totalmente louco. Acreditava em Deus, nos Anjos, nas Anjas, nos Santos e nas Santas. Tinha casa onde moravam a esposa e filhos mas ele vivia no mato onde tinha umas cascas escoradas numa árvore onde dormia com meia duzia de cachorros. Com ele aprendi muito de ervas medicinais, ele vinha lá em casa e ficava colecionando um galho de cada planta dizendo sempre isso é remédio… e desfiava uma lista de usos da tal planta. Isso também é remédio e catava um galho de outra e lá vinha a lista de mais uma duzia de curas milagrosas possíveis. Terminava o dia com um feixe de ervas milagrosas. Se tinha mais gente aí ele se arriscava a fazer previsão do tempo, levantava o dedo para o alto pedindo silencio absoluto e depois deitava no chão com o ouvido direito colado na terra para ouvir o tropel dos cavalos celestes.Depois fazia as previsões de quanto choveria, de que lado viria a chuva e quando. E chupava limão como se fosse bergamota. Mas este é outro assunto.
Por falar em louco tinha o Mimoso louco (Mozo), uma versão local do véio do saco. Que também vivia no mato com toda a família e milagrosamente nunca adoecia. Ele chegava lá em casa e beijava os santos, o Sagrado coração de Jesus e de Maria, e depois ficava falando das ervas boas para comer, um precursor dos estudiosos das PANCs. Não tinha erva milagrosa, acreditava em tudo e em todas. Já o Florinal, que era domador e acreditava somente em Deus Nosso Senhor mas tinha um quadro de são Jorge, o padroeiro dos cavaleiros, tinha sua erva milagrosa o mentruz ou mastruço que usava para as machucaduras dos tombos de cavalo. E a figueirilha que curava todos os males quando fumada no palheiro. Tinha a dona Ambrozina e a dona Leila que benzia e acreditava na arruda. A Loca (Jandaraira) irmã da Branca (Dejanira)que acreditava no alecrim e na tansagem. E por aí vai…
O segundo milagre de erva que aconteceu comigo foi quando tive um principio de tétano por ter cravado um prego enferrujado no pé. Já tinha uns sete anos, mas continuava magricelo e feio. (Hoje sou bonito porque dizem que crianças feiinhas ficam adultos bonitos.) Ai fui salvo pela quina-do-mato que acabou com a minha febre. Cheguei a ficar mais de uma semana delirando na cama.
Agora só vou falar das que me tocaram diretamente ou indiretamente, senão fico três dias escrevendo. Acho que o próximo foi o agrião com mel. Agrião a gente buscava na fontinha do potreiro do seu Pedro, aí a mãe fazia um xarope com mel para os problemas respiratórios e resfriados de inverno. Nesta época eu já estava mais resistente, abri um dedo pelo meio, que tenho cicatriz até hoje e não infeccionou, apesar da sujeira. Isto é outra história. No entanto eu continuava magricelo até que a mãe fez o famoso xarope de caruru com vinho. Uns dizem que foi o vinho mas eu juro que foi o caruru, me abriu o apetite e comecei a crescer. Mas nessa época tudo andava de ônibus ou carroça e a comunicação era por carta por isso as plantas milagrosas duravam bastante tempo na sociedade.
Depois vieram a cancorosa, que fazia milagres no estômago, a losna que curava qualquer dor de cabeça, o Ipê-roxo, que curava até câncer, o Confrei, o iodo vegetal, o alecrim voltou, Mas aí veio o telefone e acelerou os processos. Com a internet tudo ficou a jato. Acho que o primeiro desta era foi a farinha de folha de mandioqueira, um superalimento capaz de debelar a fome no país, mas era barato e aí não pegou. veio então o gergelim, uma maravilha de alimédio, isto mesmo alimento remédio, e aí começou a fase dos complementos alimentares. As próximas foram as sementes andinas, aranto, amaranto, as raízes, como a farinha de maca peruana (nabo selvagem para nós, só que este é daqui e por isso não é bom). Neste meio tempo devo ter esquecido uma meia duzia de milagreiros.
Aí vieram as cápsulas, uma maravilha em doses calculadas, pesadas, dosadas e cobradas. Tudo em nome da saúde e da beleza. Remédios que vão e vem de acordo com a dança do mercado. Como por exemplo a pholia-magra em capsulas, importada de não sei onde. Sabem o que é? Guaçatonga ou chá-de-bugre, mas estes dois não tem o mesmo charme. Ou as maravilhosas cápsulas de cenales importado do México, uma das variedades da nossa tansagem. E por aí vai…
Resolvi pesquisar desde quando vem esta febre e para minha surpresa a primeira planta milagrosa considerada na história teve seu auge nos anos 60, isto mesmo nos anos 60 dC, na época de Julio Cesar Imperador Romano. Foi o Sílfio uma planta milagrosa que tinha propriedades desde como afrodisíaco até anticonceptivo, valia mais do que ouro o que levou a planta a ser considerada extinta a partir do ano de 68 dC.
É claro que muito antes disso as plantas curavam e temos vários relatos na Bíblia, mas a deusificação de uma planta começou com o sílfio e vai continuar enquanto houver humanidade…
Existe uma crença entre os bios que: tudo o que precisas para tua alimentação e saúde cresce a menos de cem quilômetros de tua casa.
PS.: Para os que tem medo do comunismo cuidado, a moringa oleifera foi difundida a partir de Cuba.