Tardes no paiol (galpão)

Em dias de tempo meio enfarruscado como hoje, e nos dias que a chuvinha primaveril não pára o dia todo, para o trabalhador da terra é quase feriado e cada um aproveita o dia da melhor forma possível. O tio Lino gostava de aproveitar para dormir, mas a gurizada ia pro galpão separar o milho, porque era preciso organizar o que ainda tinha da colheita para durar até vir o milho novo. As espigas bem fechadas e maiores iam para um canto enquanto os restolhos e as abertas para o outro lado. Os restolhos eram as pequenas, granadas pela metade, e as abertas, aquelas que a espiga ia além da palha, corriam oi risco de carunchar por isso tinham que ser usadas primeiro. Assim o dia de trabalho também era um dia de diversão, porque ao mexer na montanha de milho se desacomodava os ratos que tinham entrado no paiol e a cachorrada ficava atenta a qualquer movimento para iniciar a caçada. Tem tanta história relacionada a isso que dava pra escrever um livro com uma centena de capítulos. A separação do milho, a descascação, brincar sobre, as máquinas de debulhar, o ‘sventolon’, as brigas, as casinhas de sabugo, a preparação do milho de semente (sim já naquela época se fazia seleção genética), desfiar palha para os colchões (paion), tirar palhas mais finas para os palheiros, Nossa! Acho que dava dois livros. Talvez um dia meus leitores me incentivem a escrever sobre isso.

Hoje vou recordar apenas dois episódios, de ainda quando morávamos na vila, um deles tenho uma vaga lembrança e recordo de apenas uns detalhes era a competição de quem descascava mais milho. Já sei! Alguém vai dizer isso é moleza, mas não é bem assim e principalmente quando os competidores eram o Catarino e o tio Argemiro.

O galpão do vovô ficava atras do moinho, entre a estrada que descia pra gruta e pro tanque e a estrada que ia para o chiqueirão dos porcos, e pros pés de araticum, e pra fonte de buscar água, aquela que agora a água desce para a gruta. Tá aí outra história o encanamento da fonte, mas não é o propósito de hoje. Outra forma de descrever seria o galpão que ficava depois da horta, e que tinha depois os tachos, e o engenho de moer cana e a ponte da serragem, perto de onde fui picado pelo escorpião, a história da tia malvada. Quem lembra de brincar na serragem? E das rodas d’água no ladrão da valeta? Nossa mais histórias! Acho que vou parar de trabalhar só pra ficar contando histórias. E a competição?

Vamos lá então! O galpão não tinha forro e por isso as tesouras do telhado ficavam aparecendo. Não! Eles não subiam nas tesouras para descascar milho. O que eu não me lembro é como eles faziam para ficarem dependurados pelas pernas, com a cabeça quase encostando no milho e aí um juiz, que não me lembro quem era, dava o Vai! e eles começavam a descascar milho de cabeça para baixo e depois de um tempo o juiz contava as espigas e declarava o vencedor. Nossa! Fiz tudo esta enrolação pra contar isso… Bem! mas eu lembro que do meu lado tinha o Léo. Esta é a outra história só que essa aconteceu num dia de sol. Estávamos os dois no paiol quando de repente o Léo disse que estava morto. Tentem imaginar qual foi o meu desespero, pois eu tinha medo de morrer desde a picada do escorpião, que podem ler acima. Caído deitado sobre as espigas de milho e eu desesperado, levantava um braço e o braço desmoronava, puxava uma perna e nada, sacudia, tentava abrir os olhos dele e estavam virados. Chamava gritava e nada, simplesmente eu também começava a ficar paralisado de medo, cheguei a pensar em chamar alguém, mas não tinha coragem de deixá-lo lá. Sacudia a cabeça dele, puxava o topete e ele não reagia tentei até fazer cócegas mas nada aconteceu. Aí ei peguei uma espiga de milho das grandes e bati na cabeça dele. Pois e não é que o morto ressuscitou e me deu uma das maiores surras que levei na minha vida. Só não foi maior porque uma das tias ouviu meus gritos e acudiu.

Quem sabe dizer o que era chupar a ‘bestia’ quando a gente fazia chimia? Mais uma história…

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