Caçadores de muçum

A vida no seminário do Braga tinha suas dificuldades, mas também proporcionou experiências incríveis, principalmente as que se relacionavam ao futebol, só para os bons de bola (minha posição no time era marrecão), às pescarias, à busca de pinhões ou outras frutas do mato para os aventureiros, os banhos de rio, as caminhadas, os passeios… nossa! isso vai dar um livro. Vou começar com o que eu sei das caçadas de muçum que o Antônio mencionou.

Uma atividade comum de sábados à noite, sempre começava com uma preparação cuidadosa. É bom que se deixe claro aqui que apesar de ser um animal aquático o muçum não se pesca, se caça. Pescar o muçum significa quase sempre perder o anzol ou ter que cortar a linha e refazer o atilho ou empate porque ele engole o anzol, aí complica tudo. Então a saída é caçar, e isso se faz à noite com lanterna (foque ou fox como se dizia na época) e facão. Outro artigo indispensável para uma caçada destas é uma garrafa de cachaça.

– Não! não é para embebedar os muçuns. Segundo a tradição ela dá uma coragenzinha e espanta o frio.

Voltemos aos fatos: facão, lanterna, um saco, roupa de noite, uma garrafa ou mais de cachaça, calçados compatíveis, ah! ia me esquecendo tem que ter um banhado, que por sinal também tem rãs, que podem ser caçadas com a mesma metodologia menos o facão. Banhado ideal era o do Braguinha, o pessoal descobriu isso na época da JIPP-Juventude Interessada Pelo Próximo, o movimento organizado pela irmã Geralda (Alicia) para visitar e ajudar famílias pobres a fazer horta e melhorar de vida. Bah! Isso também vai ter que ser escrito. Até valeu um interrogatório da Alicia pelos militares para terminar com o movimento considerado comunista. Tô divagando mas o foco é a caçada de muçum e o banhado ideal é o do Braguinha. Fica meio longe, mas com lanterna e cachaça se chega lá.

Para comprar os apetrechos necessários tinha que ser um GRANDE pois o Rebelatto não vendia cachaça pra piá. Como eu era baixinho nem pensar em ir comprar os acessórios necessários. Os grandes, dados a estas aventuras, eram o Antônio, o Nordeli, o Gringo entre outros. O segundo passo era convencer o padre Lourenço ou José, dependendo de quem era reitor, que a caçada tinha fins altruístas, tinha que repartir o produto da caçada com os outros.

Parêntesis ( tem também a história dos que estudavam em Três Passos e mataram uma lebre e um cachorro e prepararam pra repartir mas as gurias da cozinha misturaram e ninguém sabe quem comeu o quê, mas esta é outra história.) Fim do parêntesis.

Tudo resolvido a turma saía depois da janta e se lançava à aventura, algumas vezes até que se caçava um bocado. Na volta tinha que limpar os muçuns e as rãs quando se pegasse alguma. A metodologia era simples riscava a barriga do bicho, cortava a cabeça e tirava o couro inteiro puxando, as rãs tinha que enfiar um palito de fosforo na espinha para que não ficassem pulando. Depois se deixava tudo numa bandeja esmaltada na geladeira e é claro, no outro dia tinha carne de caça no almoço. E tinha que repartir com os da mesa, pois não se podia comer guloseima sem oferecer ao vizinho do lado.

Os detalhes das pescarias e caçadas nem sempre eram compartilhados…

 

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