Tempo de pinhão

Sem dúvida uma das coisas que melhor se aprendeu no seminário foi a disciplina. Tinha tempo e hora pra quase tudo, pois isso além de regrar a vida cria uma regularidade que é saudável para o corpo e para a mente. Assim um dia de semana típico tinha o despertar, com umas palmadas do reitor, não é o que vocês estão pensando não, o reitor não batia em ninguém apenas batia palmas para acordar a molecada. Aí tinha um pouco de liberdade, se podia escolher se ia ao banheiro primeiro, que tinha fila, ou se lavava a cara e escovava os dentes primeiro. Depois tinha missa ou oração da manhã, na época deste episódio era de missa à tarde, depois café, depois a turma da louça lavava a louça e preparava a mesa para o almoço enquanto os outros se preparavam pra aula, os da louça tinham que fazer isso na corrida. Das oito ao meio dia tinha aula no Ginásio Comercial Manoel Braga – GCMB aí a gente voltava, almoçava e tinha recreio até as 14 horas. Um apito recolhia a turma toda para o trabalho que variava desde a limpeza de alguma sala, da capela, dos dormitórios, na horta, na granja, cortar lenha, passar roupa, fazer pão, cuidar abelhas e até consertar bolas. Por ironia do destino eu era o consertador de bolas nesta época, logo um perna de pau como eu. As 16 horas um apito recolhia a turma pro banho e pro lanche depois se estudava até as 18 e tinha a benção do Santíssimo, aquela que se cantava o “Tantum Ergo”, viram como o latim era importante, ou a Missa que já era rezada em português. A janta, mais um recreio e ir para a cama, uma exceção era feita aos grandes que podiam estudar por mais uma hora.

Sair da rotina somente durante os recreios e no domingo, naquela época final de semana era apenas domingo, não era como hoje que começa na santa-feira. Pois bem! Descrita a rotina vamos aos fatos, procurarei me ater ao que conheço pois participei apenas de parte da ação. Para mim a história começou no intervalo do estudo da tarde, lá pelas 17 horas, confesso que eu havia dado por falta do Leonildo e do Dimas no salão de estudos, mas algumas vezes tinha atividades que exigiam interação e falar. No estudo reinava silêncio absoluto, apenas o folhear de livros ou o ruido do lápis escrevendo, então algumas atividades se faziam fora. Mas como eu ia dizendo no intervalo do estudo todo mundo descia aos banheiros e eu fui também. Dentro do vestiário me esperavam os dois. E falando baixinho:

– Você tem a chave da casinha das bolas, não tem?

– Sim, mas por que?

– Precisamos de um saco…

– Tá! Mas afinal o que aconteceu?

Aí o Dimas começou coma maior calma do mundo, que lhe valeu o apelido de tartaruga, o Leonildo nem falava tremendo de medo de ser descoberto e perder pontos no comportamento.

– É o seguinte, nos trabalhamos na horta e fomos buscar terra no mato para adubar os canteiros, aí fomos um pouco mais adiante que os outros e o Leonildo achou um pinheiro e vimos que tinha bastante pinhas. Como tinha uma árvore boa de subir do lado e que encostava nos galhos do pinheiro ele resolveu subir. Aí eu consegui uma taquara e ele derrubou um montão de pinha, nós debulhamos e enfiamos nos sacos que era pra trazer terra de mato e escondemos no canavial. Como demoramos não ouvimos o apito, agora a gente tá enrolado.

Pensei um pouco com meus botões e começamos a planejar o que fazer. Primeiro tinha que trocar os sacos, porque os da horta eram marcados. Pegamos um saco de bolas e saímos pelo arvoredo contornamos o cemitério para chegar ao canavial lá trocamos os pinhões de saco, dava uns sete ou oito quilogramas, o Leonildo devolveu os sacos na casinha da horta, deixamos os pinhões escondidos no meio das canas e voltamos ao estudo.

Como uma atividade bastante concorrida para os recreios, que tirava até alguns craques do futebol era catar pinhões. Na saída do refeitório fomos pedir pro padre para ir catar pinhões.

Quando começava cair pinhões do pinheiro da encruzilhada a turma debandava pro mato para catar pinhão

Felizmente ele não sabia que o termômetro que indicava que os pinhões estavam debulhando era o pinheiro da encruzilhada. Como éramos três, estava tudo nos conformes. Uma regra era nunca sair em menos de três para alguma atividade, se houvesse um acidente um cuidava do acidentado e o outro procurava socorro. Eramos três, pegamos um saco e saímos, os que jogavam na quadra nem derem bola, saímos em direção ao mato do Santo Pazzini, contornamos o cemitério e fomos chupar cana até quase o horário do fim do recreio, quando chegamos de volta nos revezando para carregar o saco de pinhões. Deixamos na cozinha e no outro dia todo mundo comeu pinhão, foi uma festa.

Mas no domingo não sobrou quase ninguém para jogar futebol, tinha umas sete ou oito equipes de catadores de pinhão saindo para todos os lados. Desnecessário é dizer que todos voltaram de saco cheio da atividade e saco vazio de pinhões …

Quem de vocês embarcou nesta agora já sabe porque nos achamos pinhões naquela época.

 

Caçadores de muçum

A vida no seminário do Braga tinha suas dificuldades, mas também proporcionou experiências incríveis, principalmente as que se relacionavam ao futebol, só para os bons de bola (minha posição no time era marrecão), às pescarias, à busca de pinhões ou outras frutas do mato para os aventureiros, os banhos de rio, as caminhadas, os passeios… nossa! isso vai dar um livro. Vou começar com o que eu sei das caçadas de muçum que o Antônio mencionou.

Uma atividade comum de sábados à noite, sempre começava com uma preparação cuidadosa. É bom que se deixe claro aqui que apesar de ser um animal aquático o muçum não se pesca, se caça. Pescar o muçum significa quase sempre perder o anzol ou ter que cortar a linha e refazer o atilho ou empate porque ele engole o anzol, aí complica tudo. Então a saída é caçar, e isso se faz à noite com lanterna (foque ou fox como se dizia na época) e facão. Outro artigo indispensável para uma caçada destas é uma garrafa de cachaça.

– Não! não é para embebedar os muçuns. Segundo a tradição ela dá uma coragenzinha e espanta o frio.

Voltemos aos fatos: facão, lanterna, um saco, roupa de noite, uma garrafa ou mais de cachaça, calçados compatíveis, ah! ia me esquecendo tem que ter um banhado, que por sinal também tem rãs, que podem ser caçadas com a mesma metodologia menos o facão. Banhado ideal era o do Braguinha, o pessoal descobriu isso na época da JIPP-Juventude Interessada Pelo Próximo, o movimento organizado pela irmã Geralda (Alicia) para visitar e ajudar famílias pobres a fazer horta e melhorar de vida. Bah! Isso também vai ter que ser escrito. Até valeu um interrogatório da Alicia pelos militares para terminar com o movimento considerado comunista. Tô divagando mas o foco é a caçada de muçum e o banhado ideal é o do Braguinha. Fica meio longe, mas com lanterna e cachaça se chega lá.

Para comprar os apetrechos necessários tinha que ser um GRANDE pois o Rebelatto não vendia cachaça pra piá. Como eu era baixinho nem pensar em ir comprar os acessórios necessários. Os grandes, dados a estas aventuras, eram o Antônio, o Nordeli, o Gringo entre outros. O segundo passo era convencer o padre Lourenço ou José, dependendo de quem era reitor, que a caçada tinha fins altruístas, tinha que repartir o produto da caçada com os outros.

Parêntesis ( tem também a história dos que estudavam em Três Passos e mataram uma lebre e um cachorro e prepararam pra repartir mas as gurias da cozinha misturaram e ninguém sabe quem comeu o quê, mas esta é outra história.) Fim do parêntesis.

Tudo resolvido a turma saía depois da janta e se lançava à aventura, algumas vezes até que se caçava um bocado. Na volta tinha que limpar os muçuns e as rãs quando se pegasse alguma. A metodologia era simples riscava a barriga do bicho, cortava a cabeça e tirava o couro inteiro puxando, as rãs tinha que enfiar um palito de fosforo na espinha para que não ficassem pulando. Depois se deixava tudo numa bandeja esmaltada na geladeira e é claro, no outro dia tinha carne de caça no almoço. E tinha que repartir com os da mesa, pois não se podia comer guloseima sem oferecer ao vizinho do lado.

Os detalhes das pescarias e caçadas nem sempre eram compartilhados…