{"id":254,"date":"2019-11-16T08:07:46","date_gmt":"2019-11-16T11:07:46","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=254"},"modified":"2022-02-19T13:57:16","modified_gmt":"2022-02-19T16:57:16","slug":"a-agua-que-brincava-com-a-gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=254","title":{"rendered":"A \u00e1gua que brincava com a gente"},"content":{"rendered":"\n<p>Na caixa d&#8217;\u00e1gua se juntavam as \u00e1guas dos arroios do Papagaio e do Moinho. As do Papagaio corriam fora do leito por aproximadamente 800 metros e raramente transbordavam no ladr\u00e3o, mas as do Moinho sempre tinham grandes hist\u00f3rias para contar. Perto da ponte da estrada do seu Fassini j\u00e1 se separavam em dois grupos, a mais selvagem n\u00e3o se sujeitava a barragem e saltava por cima para poder alimentar as cachoeiras, era a mais barulhenta mas n\u00e3o a mais curiosa. A \u00e1gua mais d\u00f3cil era a mais curiosa e divertida, saia do leito do rio e andava mansamente por uns 250 metros at\u00e9 a caixa d&#8217;\u00e1gua, mas no caminho tinha muitas tarefas a cumprir, em especial nos \u00faltimos 50 metros onde aquela mais curiosa se espremia numa bica de madeira para cair no tanque onde as tias lavavam a roupa, certamente esta tinha muitas hist\u00f3rias para contar para suas irm\u00e3s que tomavam outros caminhos. Ficava quietinha no tanque ouvindo as fofocas e as hist\u00f3rias de tudo o que acontecia na vila e quando n\u00e3o servia para esta fim pulava pra outra bica e ia at\u00e9 <a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=54\">o banheiro<\/a>. Esta era a \u00e1gua curiosa, mas n\u00e3o era a mais sapeca, a mais sapeca seguia uns 10 metros adiante at\u00e9 o ladr\u00e3o. N\u00e3o! N\u00e3o \u00e9 o que voc\u00eas est\u00e3o pensando, o ladr\u00e3o era uma esp\u00e9cie de controlador de n\u00edvel da caixa d&#8217;\u00e1gua, quando ela vinha em excesso dava um jeito de saltar por a\u00ed. A outra \u00e1gua ia at\u00e9 a caixa onde se juntava com a do Papagaio para se jogar cano abaixo juntando todas as for\u00e7as para fazer a turbina girar e produzir a eletricidade da vila. Vou falar disso qualquer dia. Hoje \u00e9 dia de falar da do ladr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No ladr\u00e3o, perto do monte de serragem, era um lugar de brincar com a \u00e1gua ou dela brincar com a gente. A \u00e1gua do ladr\u00e3o gostava de ver a gente ser xingado, ela molhava nossas roupas, fazia barro para nos sujar, quando era mais frio nos provocava resfriando e a\u00ed nossos pais reclamavam e ela ia embora dando risada. Ah! Ela adorava respingar tudo movimentando as rodas d&#8217;\u00e1gua. Nossas rodas d&#8217;\u00e1gua eram feitas com uma simplicidade franciscana, um tarugo quadrado de madeira com quatro tabuinhas pregadas e dois pregos na ponta servindo de eixo. E tinha o moinho do Catarino, mas este era uma coisa a parte. Tamb\u00e9m era culpa da \u00e1gua do ladr\u00e3o as broncas que a gente levava do v\u00f4 por pegar as ferramentas dele. <\/p>\n\n\n\n<p>A carpintaria do vov\u00f4 era um verdadeiro santu\u00e1rio para um <a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=213\">bichinho carpinteiro<\/a> como eu, l\u00e1 eu me sentia no para\u00edso, mas quando ele estava trabalhando a gente n\u00e3o podia entrar e quando ele n\u00e3o estava a carpintaria ficava fechada. Eu sei! Voc\u00eas est\u00e3o dizendo: Como \u00e9 que voc\u00ea sabe disso se n\u00e3o se entrava l\u00e1? Bem, \u00e9 que para fazer as rodas d&#8217;\u00e1gua a gente precisava de ferramentas, a mais usada era o serrote de costas, um serrote que vivia sempre afiado que \u00e9 uma navalha. E a calha de cortar em \u00e2ngulo, uma calha de madeira com fendas em diversos \u00e2ngulos e no esquadro para fazer esquadrias. O serrote de costas era usado porque ficava sempre reto, era firme, e a calha guiava o corte. Ent\u00e3o a gente pegava uma ripa quadrada e cortava o corpo da roda e depois uma mais fina e fazia as quatro tabuinhas, as p\u00e1s da roda, e pragava em sequ\u00eancia pronto estava feita a roda d&#8217;\u00e1gua. na calha tamb\u00e9m tinha umas marca\u00e7\u00f5es para a gente cortar todas do mesmo tamanho sem precisar medir. No entanto acho que a \u00e1gua gostava mais era do moinho do Catarino. Nesta o principio motor era uma roda como outra qualquer, com uma diferen\u00e7a, o corpo (eixo) da roda era mais longo e arredondado. nele passava a correia que tocava outros eixos e polias com engrenagens de dentes de prego e furos, uma traquitana digna de um engenheiro moderno. A engenhoca ficava longe da \u00e1gua e este distanciamento era dado pela correia, s\u00f3 que a gente n\u00e3o tinha correia. Mais um motivo pra bronca, a gente usava a correia do rebolo do v\u00f4.<\/p>\n\n\n\n<p>O rebolo do v\u00f4 Bortolo era uma maquina digna de nota. Ele precisava das ferramentas sempre afiadas e afiava tamb\u00e9m as facas da cozinha e dos vizinhos. Algum tempo mais tarde esta tarefa na vila passou para o tio Anjo, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria. O rebolo tinha um pedal que tocava uma roda grande, esta por sua vez tinha uma correia que ia at\u00e9 o eixo do rebolo onde tinha uma roda pequena ent\u00e3o o rebolo funcionava com grande velocidade dando melhor fio nas ferramentas em menor tempo, sem contar que o afiador ficava com as duas m\u00e3os livres para segurar a ferramenta. N\u00e3o era como aqueles rebolos que a gente tocava a manivela com uma m\u00e3o e segurava a ferramenta com a outra. S\u00f3 que as vezes a correia fugia e ia brincar com as crian\u00e7as no moinho do ladr\u00e3o. Como acontecia isso? F\u00e1cil! O Catarino levantava o carpinteiro at\u00e9 a altura da janelinha de tr\u00e1s da carpintaria ele se agarrava na bancada de carpinteiro e de l\u00e1 pulava pro ch\u00e3o ia at\u00e9 o rebolo e tirava a correia. Depois usava a caixa de ferramentas como degrau, subia na bancada e descia da janela ajudado pelo usu\u00e1rio da correia emprestada. E l\u00e1 ia todo mundo ver o moinho funcionar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"458\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-1024x458.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-257\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-1024x458.jpg 1024w, https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-300x134.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-768x344.jpg 768w, https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-1536x687.jpg 1536w, https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3-500x224.jpg 500w, https:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/moinho3.jpg 1777w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Para aqueles que n\u00e3o conheceram as maravilhas do moinho aqui vai uma p\u00e1lida ideia da diferen\u00e7a das rodas d&#8217;\u00e1gua convencionais e do moinho. S\u00f3 que no moinho a correia tamb\u00e9m mudava de \u00e2ngulo os eixos, tinha at\u00e9 eixo na vertical imitando as pedras do moinho de verdade. Mais uma hist\u00f3ria para contar. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00f3 o que eu n\u00e3o lembro \u00e9 porque a gente lavava tanta bronca e eu nunca apanhava, quase sempre o rabo-de-bugiu sobrava para outro. E a correia voltava pro seu servi\u00e7o original, que, convenhamos, era muito mais chato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na caixa d&#8217;\u00e1gua se juntavam as \u00e1guas dos arroios do Papagaio e do Moinho. 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