{"id":400,"date":"2017-03-22T21:57:33","date_gmt":"2017-03-23T00:57:33","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=400"},"modified":"2022-04-16T19:35:30","modified_gmt":"2022-04-16T22:35:30","slug":"o-soque-do-antoninho-frikes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=400","title":{"rendered":"O soque do Antoninho Frikes"},"content":{"rendered":"<p>Passando um pouco do erval, uma trilha a direita costeava a cerca do potreiro e depois serpenteava por entre as touceiras de branquilhos chegando em alguns trechos a ser quase um t\u00fanel verde que desembocava finalmente numa clareira de gramado. Ao norte cercada de branquilhos e ao sul demarcada pela curva do arroio do Papagaio, cortada ao meio por uma valeta que trazia a \u00e1gua em curva de n\u00edvel do passo at\u00e9 a bica da roda d&#8217;\u00e1gua do soque de erva mate do Antoninho.&nbsp;Qual a raz\u00e3o para fazer um soque de erva escondido?<\/p>\n<div id=\"attachment_406\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-406\" class=\"wp-image-406 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono-150x89.jpg\" alt=\"Bella Famiglia - Gra\u00e7as a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.\" width=\"150\" height=\"89\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono-150x89.jpg 150w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono-300x179.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono-768x458.jpg 768w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono-600x358.jpg 600w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/FamLinoNono.jpg 1494w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-406\" class=\"wp-caption-text\">Bella Famiglia &#8211; Gra\u00e7as a kombi do Antoninho pudemos fazer uma visita ao nono e a nona em Nova Palma.<\/p><\/div>\n<p>Em plena \u00e9poca de ditadura qualquer atividade econ\u00f4mica era controlada rigorosamente e o que n\u00e3o estivesse exatamente dentro do que era preconizado pelos detentores do poder&nbsp;era pass\u00edvel de puni\u00e7\u00e3o. O tio Luis tinha na \u00e9poca o moinho da vila mas n\u00e3o podia moer trigo, nem no modelo que era usado at\u00e9 ent\u00e3o em que o agricultor levava o trigo e ele moia ficando com uma porcentagem. Acho que era at\u00e9 proibido moer o trigo em casa no pil\u00e3o. Tinha que mandar tudo pra cooperativa e deixar l\u00e1 reservado uma quantidade de farinha que podia ser retirada mensalmente. Se n\u00e3o me engano esta farinha n\u00e3o podia ser vendida.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Deixa pra l\u00e1! Isto era coisa da ditadura e eu queria falar do soque do Antoninho.<\/p>\n<p>&#8211; O Antoninho Frikes Vaz tinha um armaz\u00e9m, destes tipo boteco mesmo, em frente ao campo de futebol, hoje a pra\u00e7a da igreja da Vila Trentin, tamb\u00e9m tinha um bando de filhos pequenos, bocas pra dar comida, logo tinha que se virar para conseguir sustentar a fam\u00edlia. Se virar em \u00e9poca de vacas magras significava ter que diversificar as atividades ent\u00e3o ele comprou uma kombi velha e come\u00e7ou a fazer uma linha de transporte da vila at\u00e9 Palmeira para levar e trazer passageiros e mercadorias, era l\u00e1 pelos anos setenta, se n\u00e3o me engano. S\u00f3 que esta atividade era considerada ilegal mas ningu\u00e9m denunciava porque o povo dependia dele pra se locomover, mas nem assim &nbsp;ele estava conseguindo por comida nas bocas das crian\u00e7as em quantidade suficiente. Foi a\u00ed que teve a ideia de montar um soque de erva mate. Esta atividade al\u00e9m de ilegal tamb\u00e9m tinha concorrentes que poderiam denunci\u00e1-lo, por isso tinha que ser feita com a maior discri\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como ele chegou at\u00e9 meu pai, mas com certeza chegou no lugar certo pois o pai sempre teve um qu\u00ea de revolucion\u00e1rio, da\u00ed at\u00e9 fazer alguma coisa que contrariasse o regime era um passo. Como j\u00e1 falei antes, na nossa terra tinha o lugar ideal, uma clareira na beira do arroio, toda cercada de mato, o acesso se poderia fazer pelo lado da casa, como&nbsp;isto chamaria a aten\u00e7\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o dos dois foi fazer uma trilha que desembocava no travess\u00e3o, dentro da picada de mato. Depois, a estrada que ia at\u00e9 o soque, era um verdadeiro labirinto aproveitando as trilhas do gado por entre os branquilhos espinhentos.<\/p>\n<p>A \u00e1gua n\u00e3o era muita, mas o desn\u00edvel at\u00e9 o pondo da roda era de uns tr\u00eas metros e oitenta cent\u00edmetros, o que segundo c\u00e1lculos te\u00f3ricos do Tio \u00c2ngelo, o fazedor de rodas d&#8217;\u00e1gua, ia dar uns tr\u00eas cavalos de for\u00e7a, mais que suficiente para movimentar seis m\u00e3os de pil\u00e3o. os dados de c\u00e1lculo ele obteve teoricamente do tio pois ningu\u00e9m podia ficar sabendo da ind\u00fastria, na \u00e9poca tinha espi\u00e3o at\u00e9 dentro da pr\u00f3pria fam\u00edlia. N\u00e3o seria umas grande ind\u00fastria mas daria para abastecer o armaz\u00e9m com erva pr\u00f3pria e mais barata o que aumentava a margem de lucro, ainda mais que alguns clientes da Palmeira come\u00e7avam a aumentar o volume de encomendas, j\u00e1 que era boa e mais barata.<\/p>\n<p>O empreendedor comprava a erva dos produtores que seria beneficiada, seca e mo\u00edda, em algum soque autorizado e depois seria revendida no armaz\u00e9m. \u00c9 claro que uma parte seguia o caminho legal, outra parte ele secava em algum barbaqu\u00e1 escondido e moia no dito soque, isto aumentava enormemente a margem de lucro, hoje dir\u00edamos aumentava o valor agregado.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o sei bem quais as tratativas que fez com o tio&nbsp;Lino, o que lembro \u00e9 que um dia apareceu l\u00e1 em casa com a ideia e pronto para come\u00e7ar a obra. Primeiro tinha que desviar a valeta da roda de bombeamento de \u00e1gua por um canal, valeta, mais acima e ir abrindo a mesma t\u00e9 a clareira onde se somavam mais umas corredeiras e uma cachoeirinha dando os tr\u00eas metros e pouco que precisava de &#8220;caimento&#8221;. Feito isso tinha que preparar a&nbsp;&#8220;cava&#8221; para a roda e aplainar o terreno para a instala\u00e7\u00e3o do cocho de moagem e das cavadeiras. E por cima de tido um galp\u00e3ozinho de prote\u00e7\u00e3o. No dia que foi liberada a \u00e1gua na valeta nova foi uma festa, formou uma bela cachoeira na bica, s\u00f3 que deu um problema, com a \u00e1gua desviada n\u00e3o sobrou quantidade suficiente para bombear \u00e1gua da fonte pra casa. Mais uma obra se fez necess\u00e1ria, refor\u00e7ar a barragem de conten\u00e7\u00e3o, a\u00e7ude, para aproveitar melhor a \u00e1gua do arroio.<\/p>\n<p>Depois foi montada a roda d&#8217;\u00e1gua, o soque, o galp\u00e3o e a ind\u00fastria come\u00e7ou a produzir. Ele vinha de noite trazer erva para socar e carregar a erva, pois o trabalho n\u00e3o podia ser conhecido por terceiros. O soque funcionava o dia inteiro e no cair da noite chegava o Antoninho para descarregar a erva mo\u00edda e reabastecer o cocho.<\/p>\n<p>Terminaram as minhas f\u00e9rias e quando cheguei em casa novamente n\u00e3o tinha mais soque, at\u00e9 hoje n\u00e3o sei o que aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; mas o bom de tudo isso \u00e9 que ale ficou devendo favor pro pai e nas outras f\u00e9rias fizemos uma viagem em fam\u00edlia par Nova Palma, na kombi do Antoninho, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Acho que a viagem d\u00e1 outra hist\u00f3ria qualquer dia&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passando um pouco do erval, uma trilha a direita costeava a cerca do potreiro e depois serpenteava por entre as touceiras de branquilhos chegando em alguns trechos a ser quase um t\u00fanel verde que desembocava finalmente numa clareira de gramado. 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