{"id":350,"date":"2015-01-22T22:13:00","date_gmt":"2015-01-23T01:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=350"},"modified":"2015-01-23T10:14:13","modified_gmt":"2015-01-23T13:14:13","slug":"se-beber-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=350","title":{"rendered":"Se beber, N\u00c3O!"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ep\u00edlogo<\/strong><\/p>\n<p>O sol j\u00e1 estava quase no seu ocaso, as sombras compridas desenhavam riscos brancos e pretos no ch\u00e3o, no gramado da frente da casa, os palanques das velha cerca com suas sombras formavam um desenho sim\u00e9trico e organizado, enquanto as sombras das \u00e1rvores destoavam um pouco. O filho com a ro\u00e7adeira ia emparelhando e endireitando as sombras que se projetavam sobre o gramado. O pai e a m\u00e3e que sa\u00edram para a vila logo ap\u00f3s o meio dia ainda n\u00e3o voltaram, a espera \u00e9 como todas as outras.\u00a0Um ru\u00eddo um pouco estranho, no entanto, quebra a monotonia daquele entardecer. O velho corcel que vem tossindo lomba acima d\u00e1 seu \u00faltimo suspiro e morre ao subir a rampinha da entrada da morada. O Leonidas deita de lado a ro\u00e7adeira e vai ao encontro do velho corcel ano 1972, parado, que traz em seu interior o pai e a m\u00e3e que retornam da Vila Trentin onde havia missa naquele s\u00e1bado \u00e0 tarde. O pai tenta mais uma vez dar partida, mas a bateria n\u00e3o carregou o suficiente, as luzes ainda ligadas ostentam um brilho amarelado p\u00e1lido e se apagam a cada nova tentativa de partida.<\/p>\n<p>&#8211; Lani d\u00e1 um empurr\u00e3ozinho para fazer pegar no tranco. &#8211; grita o pai com a cabe\u00e7a fora da janela.<\/p>\n<p>O Leonidas se aproxima do carro, olha para dentro, e n\u00e3o vendo a m\u00e3e pergunta?<\/p>\n<p>&#8211; Pai, onde ficou a m\u00e3e?<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o o pai olha para o banco do caroneiro e percebe que a Bazelides n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 e responde:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>O Lani ent\u00e3o espicha o olhar para a estrada que se perde na curva ap\u00f3s o direit\u00e3o do tio Lu\u00eds, e l\u00e1 vem a m\u00e3e, a p\u00e9, j\u00e1 quase de l\u00edngua de fora\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3logo &#8211; \u00e9 o que acontece antes da hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p>Devido a escassez de padres cada par\u00f3quia, e Jaboticaba n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o, s\u00f3 tinha um padre, e como o n\u00famero de capelas \u00e9 grande, o vig\u00e1rio se v\u00ea obrigado a fazer suas visitas pastorais at\u00e9 mesmo fora do dia do Senhor, o domingo. Nestas circunst\u00e2ncias a capela dos Tr\u00eas M\u00e1rtires, exatamente neste dia, tinha sua missa semanal no s\u00e1bado \u00e0 tarde. Para os crist\u00e3os cat\u00f3licos isto n\u00e3o era um problema desde que a obriga\u00e7\u00e3o da missa dominical passou a ser considerada em qualquer dia da semana. E, por conta disso, o casal sa\u00edra ap\u00f3s o meio dia do s\u00e1bado para cumprir a obriga\u00e7\u00e3o dominical.<\/p>\n<p>A missa, independentemente do dia da semana em que era celebrada, tinha uma conota\u00e7\u00e3o religiosa e social, pois estando os filhos de Deus reunidos para a missa n\u00e3o custava ficar mais um pouco ap\u00f3s ela para celebrar o encontro, a vida social. Esta segunda celebra\u00e7\u00e3o podia ser um encontro de comadres para visitar uma amiga enferma, conhecer o nen\u00ea de outra, tomar um chimarr\u00e3o, visitar uma idosa, at\u00e9 algo mais profano como atualizar os assuntos do momento. Entre os marmanjos o mais comum para os mais jovens era jogar um futebolzinho e entre os mais experientes caia sempre bem um carteado, muitas vezes acompanhado de uma ou umas rodadas do liso de purinha, outras vezes de biter amargo com conhaque ou at\u00e9 mesmo de um garraf\u00e3ozinho de vinho, tudo dependia das circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>No nosso s\u00e1bado em quest\u00e3o a missa foi celebrada \u00e0s 13 horas, uma solicita\u00e7\u00e3o da comunidade para possibilitar o conv\u00edvio social no restante da tarde. Depois disso algum tempo de conversa com os amigos, saudar aqueles que chegaram atrasados e partir para a socializa\u00e7\u00e3o. \u00a0O bar do Mauri fica bem perto da capela, \u00e9 f\u00e1cil ir l\u00e1, para os que v\u00eam de carro at\u00e9 d\u00e1 para deixar estacionado no p\u00e1tio da capela, \u00e9 o destino daqueles que praticam o carteado, trissete, cinquilho, bisca, pife ou canastra. E \u00e9 claro, para ser completo com um traguinho pra molhar a garganta. Os mais jovens desaparecem rumo ao campo de futebol e todos os carros cochilam sozinhos a espera de seus condutores no p\u00e1tio da capela. Todos n\u00e3o, o corcel marrom ano 72 est\u00e1 de olhos bem abertos, digo os far\u00f3is acesos.<\/p>\n<p>O seu Lino vai at\u00e9 o bar em companhia do Greg\u00f3rio, do Valdomiro, do Elso e mais uns amigos para umas rodadas de cartas. A Bazelides vai com algumas amigas e primas visitar a tia Santina, assim passa a tarde, depois da missa continua o preceito b\u00edblico, <em>\u201conde dois ou mais estiverem reunidos\u2026\u201d<\/em> O sol j\u00e1 cansado daquele dia comprido de in\u00edcio de ver\u00e3o se esconde, as vezes, por traz das nuvens, mas reaparece de novo mais tarde. Finalmente se escondeu por um tempo por tr\u00e1s das copas dos timb\u00f3s do p\u00e1tio da capela e reapareceu de novo, vermelho de vergonha, por entre os troncos das \u00e1rvores. \u00c9 hora de ir para casa, dona Bazelides se despede das primas e da tia e se dirige ao estacionamento, n\u00e3o sem antes passar pelo bar do Mauri para chamar o \u201cpai\u201d que se entret\u00e9m com o baralho espanhol e um liso de pura.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 obediente a n\u00e3o espera a <em>rainha do lar<\/em> chamar duas vezes, termina a rodada e se levanta, ou melhor se p\u00f5e de p\u00e9, vai at\u00e9 a porta, meio duro <em>\u201cdas cadeiras\u201d<\/em> por ter ficado muito tempo sentado. Pelo menos \u00e9 o que ele diz. Saem os dois abra\u00e7adinhos, que lindeza.<\/p>\n<p>Dali at\u00e9 o carro n\u00e3o \u00e9 muito longe e o ombro da esposa \u00e9 uma escora e tanto para contrabalan\u00e7ar o desequil\u00edbrio da cachacinha sorvida durante o jogo. A \u201cm\u00e3e\u201d abre o carro e ele se aboleta atr\u00e1s da dire\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m embarca \u00e0 direita do \u201cpai\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Guuu, cof, cof! &#8211; diz o corcel quando o motorista tenta dar a partida. Mais uma vez:<br \/>\n&#8211; Guuu, cof, cof! e nada, as luzes ligadas acabaram a bateria.<br \/>\n&#8211; M\u00e3e! D\u00e1 um empurr\u00e3ozinho para fazer pegar no tranco.<\/p>\n<p>A m\u00e3e desce e se p\u00f5e a empurrar o ve\u00edculo ainda bem que \u00e9 meio ladeira.<\/p>\n<p>&#8211; Crank, gruuuu, gruuu, &#8211; diz o corcel desta vez, e se p\u00f5e a caminho de casa.<br \/>\n&#8211; Lino! Liiiino! &#8211; grita a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Nem o corcel nem o Lino ouviram os gritos dela, j\u00e1 est\u00e3o a caminho de casa. Sem alternativa ela se p\u00f5e a caminho, desta vez a p\u00e9, \u00e9 um belo quil\u00f4metro de caminhada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ep\u00edlogo do ep\u00edlogo<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei\u2026 n\u00e3o sei mesmo Lani.<br \/>\n&#8211; Pai tu esqueceu a m\u00e3e la na vila!<br \/>\n&#8211; Ah! Ela foi empurrar o carro pra pegar no tranco e n\u00e3o embarcou depois.<br \/>\n&#8211; Pai, o que \u00e9 isso? Andou bebendo e passou da conta.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! S\u00f3 foi uns traguinhos\u2026<\/p>\n<div id=\"attachment_351\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-351\" class=\"size-thumbnail wp-image-351\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol-150x90.jpg\" alt=\"Casa com o paiol ao fundo.\" width=\"150\" height=\"90\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol-150x90.jpg 150w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol-300x180.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol-600x361.jpg 600w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/casa-e-paiol.jpg 1065w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-351\" class=\"wp-caption-text\">Casa com o paiol ao fundo.<\/p><\/div>\n<p>Nisso a m\u00e3e j\u00e1 est\u00e1 chegando, o Lani d\u00e1 um empurr\u00e3ozinho pro carro pegar e desta vez vai at\u00e9 o meio do p\u00e1tio. O motorista desce, apesar da falta de equil\u00edbrio e desta vez \u00e9 novamente apoiado pela esposa dedicada, s\u00f3 que desta vez n\u00e3o \u00e9 na dire\u00e7\u00e3o da casa\u2026<br \/>\n&#8211; M\u00e3e! Esta \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o errada.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o errada foi quando me deixou l\u00e1 na vila, por causa disso hoje vai dormir no paiol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ep\u00edlogo O sol j\u00e1 estava quase no seu ocaso, as sombras compridas desenhavam riscos brancos e pretos no ch\u00e3o, no gramado da frente da casa, os palanques das velha cerca com suas sombras formavam um desenho sim\u00e9trico e organizado, enquanto as sombras das \u00e1rvores destoavam um pouco. O filho com a ro\u00e7adeira ia emparelhando e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-350","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/350"}],"collection":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=350"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/350\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":356,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/350\/revisions\/356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}