{"id":332,"date":"2014-09-08T22:08:25","date_gmt":"2014-09-09T01:08:25","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=332"},"modified":"2014-09-08T22:12:38","modified_gmt":"2014-09-09T01:12:38","slug":"a-enchente-de-1984","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=332","title":{"rendered":"A enchente de 1984"},"content":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria baseada nas mem\u00f3rias da Silvia<\/p>\n<p>Maio em geral foi o m\u00eas dos grandes eventos da fam\u00edlia, por diversas raz\u00f5es os grandes milagres tamb\u00e9m aconteceram neste m\u00eas. Exatamente no ano do centen\u00e1rio da imigra\u00e7\u00e3o italiana na quarta col\u00f4nia, quando a euforia pela saga dos italianos na regi\u00e3o atingia seu auge o tempo se desenrolava com caracter\u00edsticas peculiares. O ano prometia ser chuvoso, e maio em especial come\u00e7ou mostrando um comportamento peculiar. Muita coisa acontecia nos dias de chuva, a chuva era, por assim dizer, uma ben\u00e7\u00e3o, irriga as planta\u00e7\u00f5es, abastece as fontes, e autoriza um dia de folga ou pescaria conforme j\u00e1 vimos ou veremos em eventos da fam\u00edlia.\u00a0Mas nosso assunto, neste momento, \u00e9 a chuva de maio de 1984, o ano do centen\u00e1rio da imigra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA chuva j\u00e1 cai por mais de uma semana sobre as terras do Bom Retiro, de Nova Palma, da regi\u00e3o, do estado e do sul do pa\u00eds. Para os que vivem nas cidades, mesmo em Nova Palma, isso n\u00e3o muda muito a rotina de trabalho, a semana segue seu curso preestabelecido, no entanto para os agricultores significa uma quebra radical da rotina. No primeiro dia deixa chover, aproveita-se para fazer um dia de descanso para os que trabalham na lavoura, \u00e9 claro, os guris Abel, Cl\u00e1udio, In\u00e1cio e Bernardo. As meninas, S\u00edlvia, Alice, Ver\u00f4nica e Let\u00edcia aproveitam para fazer uma grande faxina e organiza\u00e7\u00e3o da casa, com a ajuda da m\u00e3e e da nona. O segundo dia, se der uma estiada \u00e9 prop\u00edcio para uma pescaria, vai pescar quem estiver de folga, alguem tem que ficar em casa pra fazer a comida. No terceiro dia&#8230; Bem! A partir do terceiro dia n\u00e3o tem mais nada pra fazer, o tempo come\u00e7a passar muito devagar, \u00e9 preciso encontrar alguma coisa pra fazer tipo, jogar trissete entre os homens e escutar a Ver\u00f4nica lendo as hist\u00f3rias do Naneto Pipeta. Quarto\u2026 quinto\u2026. sexto\u2026 o tempo passa cada vez mais devagar\u2026 A chuva n\u00e3o passa, a medida que o tempo passa, as \u00e1guas atingem o m\u00e1ximo que a terra pode absorver e come\u00e7am a formar a enxurrada, atingem os rios e arroios e se precipitam em dire\u00e7\u00e3o ao oceano, um dos caminhos \u00e9 o Soturno.<br \/>\nO Soturno contorna quase toda a terra da fam\u00edlia, come\u00e7a a subir e, se continuar, vai deixar a fam\u00edlia Piovesan ilhada. J\u00e1 \u00e9 o oitavo dia consecutivo de chuva todo o sul do pa\u00eds j\u00e1 apresenta sinais de enchente, milhares de desabrigados e desalojados desfilam nas imagens dos telejornais, as defesas civis dos munic\u00edpios trabalham sem cessar, enquanto isso na casa de nossos personagens a rotina \u00e9 outra. As meninas, S\u00edlvia Alice e Let\u00edcia, continuam ouvindo as hist\u00f3rias do Naneto Pipeta, os guris e o pai jogam trissete, uma partida depois da outra.<br \/>\nO mundo l\u00e1 fora, o da TV n\u00e3o existe para a fam\u00edlia, n\u00e3o tem televis\u00e3o, logo o mundo la fora \u00e9 a chuva, o barulho da chuva e quando cai a noite\u2026 O Soturno <em>\u201cscumicia a rudare\u201d<\/em>, &#8211; diz a nona &#8211; (come\u00e7a a roncar) o n\u00edvel da \u00e1gua sobe assustadoramente. O chiqueiro \u00e9 inundado e os porcos devem ser soltos para n\u00e3o morrerem afogados. As galinhas e frangos s\u00e3o levados para a casa velha. Pela experi\u00eancia de anos anteriores a tens\u00e3o come\u00e7a a aumentar, o perigo de ficarem ilhados j\u00e1 \u00e9 uma realidade. A \u00e1gua come\u00e7a a subir pela estrada a barragem n\u00e3o d\u00e1 mais passagem.<br \/>\nO ent\u00e3o patriarca Abel, com toda sua calma e previsibilidade ordena as medidas para a noite de vig\u00edlia. Engatar o reboque no trator e carregar os pertences b\u00e1sicos caso seja necess\u00e1rio deixar a casa e deixar o reboque em lugar estrat\u00e9gico. A fam\u00edlia se abrigar\u00e1 na escola, sem saber est\u00e3o fazendo como em todo o sul do pa\u00eds. Todos permanecer\u00e3o acordados, os meninos jogando com ele e as meninas ouvindo a Ver\u00f4nica ler hist\u00f3rias. A m\u00e3e (Alzira) ao lado do fog\u00e3o, pois faz muito frio, esfrega as m\u00e3os de nervosa e a m\u00e3e, (nona Isa) no quarto reza um ter\u00e7o ap\u00f3s o outro, quando cansa de ficar ajoelhada no quarto d\u00e1 uma volta nervosa pela casa com a corona (ter\u00e7o) na m\u00e3o. Todos os outros devem manter a calma como conv\u00e9m aos Piovesan.<br \/>\nCai a noite e o ru\u00eddo da \u00e1gua do Soturno parece gritar espantando as pessoas e animais para que se afastem em vista do perigo que se aproxima. Na casa o sil\u00eancio \u00e9 quebrado pela voz mon\u00f3tona e cadenciada da leitura de Naneto Pipeta. Vez por outra uma \u00e1rvore que desce rio abaixo vem quebrando galhos e fazendo sons diferenciados. Os animais silenciosos aguardam apreensivos o desenrolar dos fatos. A chuva mansa canta uma can\u00e7\u00e3o assustadora, cadenciada pelo troar dos canh\u00f5es dos raios e iluminada pelos flashes dos rel\u00e2mpagos intermitentes. O Soturno ronca contra as pedras e barrancas com um som grave,carregado, sombrio, taciturno, tristonho, infunde pavor, parece fazer honrarias ao pr\u00f3prio nome. Dentro de casa fam\u00edlia aguarda apreensiva, a m\u00e3e de vez em quando coloca mais uma acha de lenha no fog\u00e3o para manter o fogo e a casa aquecida, os guris jogam com o pai e a nona reza. Os porcos assustados perambulam pela propriedade n\u00e3o entendendo o porque desta liberdade, que ao mesmo tempo amplia seus dom\u00ednios, mas afasta-os de sua casa, agora tomada pela \u00e1gua. As galinhas, e frangos, que ocupam a casa velha sentem a situa\u00e7\u00e3o como uma honraria estranha, os ru\u00eddos da noite n\u00e3o s\u00e3o de nenhum predador, mas mesmo assim assustam. A chuva acalma, j\u00e1 se assemelha a uma cantiga de ninar, no entanto o troar dos trov\u00f5es e o ronco do rio destoam.<\/p>\n<p>&#8211; Vou ver o n\u00edvel da \u00e1gua na estrada &#8211; disse o pai. E l\u00e1 se foi ele seguido pelos guris e pelas meninas mais curiosas. A \u00e1gua corria depressa pelo leito do rio e formava ondas que subiam pela estrada, a cada onda avan\u00e7ava um pouco mais evidenciando que o n\u00edvel subia, e isso assustava. O pai resolveu ent\u00e3o tomar uma decis\u00e3o, demarcar o limite para sa\u00edrem de casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_333\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-333\" class=\"size-large wp-image-333\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro-600x418.jpg\" alt=\"Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa hist\u00f3ria.\" width=\"600\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro-600x418.jpg 600w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro-150x104.jpg 150w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro-300x209.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Barragem-Bom-Retiro.jpg 1400w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-333\" class=\"wp-caption-text\">Barragem do Soturno no Bom Retiro, foto feita de cima da pinguela em maio de 1979, cinco anos antes da nossa hist\u00f3ria.<\/p><\/div>\n<p>&#8211;<em> Questo sasso<\/em>. &#8211; Esta pedra \u00e9 o limite, se a \u00e1gua passar dela temos que sair de casa sen\u00e3o ficaremos ilhados. Os guris continuam jogando cartas e ao fim de cada partida um vai at\u00e9 a estrada ver o n\u00edvel da \u00e1gua. A m\u00e3e continua perto do fog\u00e3o esfregando as m\u00e3os, as meninas ouvem a leitura da Ver\u00f4nica, enquanto a nona continua no quarto a rezar. J\u00e1 foi um ter\u00e7o, dois, um inteiro (ros\u00e1rio), mais um e a rotina continua. A m\u00e3e \u00e9 intimada a ir descansar, os outros continuar\u00e3o a vig\u00edlia. J\u00e1 \u00e9 madrugada e de repente um estrondo sinistro e assustador seguido de um aumento do volume dos sons do rio.<br \/>\n&#8211; <em>Maria Vergine!<\/em> &#8211; gritou a nona &#8211; o que foi isso?<br \/>\nUm ru\u00eddo de \u00e1rvores arrastadas se aproxima da casa, o rio come\u00e7a a roncar aliviado como se uma barreira tivesse sido eliminada. E foi\u2026 a pinguela que retinha galhos de \u00e1rvores e at\u00e9 \u00e1rvores inteiras, fazia uma barreira que dificultava o curso da \u00e1gua, at\u00e9 que ela, demonstrando sua for\u00e7a, rompeu os cabos de a\u00e7o e levou abaixo aquele estorvo. Secretamente j\u00e1 havia levado a barragem da estrada, e levava abaixo tudo o que poderia dificultar seu caminho. Foi a pinguela, mas est\u00e1 escuro, n\u00e3o d\u00e1 pra ver os detalhes o observador da pedra limite com guarda chuva e lanterna observa a \u00e1gua chegando, cent\u00edmetro ap\u00f3s cent\u00edmetro conquistados pela \u00e1gua a cada onda. A \u00e1gua chega na pedra, algumas ondas j\u00e1 ultrapassam, mas a pedra ainda n\u00e3o est\u00e1 coberta. Alguma onda cobre a pedra, a tens\u00e3o aumenta, as cartas ficam de lado e os observadores se juntam ao redor da pedra, as palavras do pai ecoam nas mentes.<br \/>\n&#8211; Se a \u00e1gua passar da pedra temos que sair de casa.<br \/>\nUma onda um pouco maior cobre a pedra por completo e recua, outra onda avan\u00e7a e recua, as ondas passam a determinar o ritmo da respira\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Os avan\u00e7os e recuos come\u00e7am a ficar assim\u00e9tricos, a \u00e1gua come\u00e7a a recuar lentamente, come\u00e7a a se distanciar, j\u00e1 n\u00e3o atinge mais a pedra. Todos respiram aliviados, as ora\u00e7\u00f5es da nona alcan\u00e7aram mais um milagre, como tantos outros na fam\u00edlia, agora poderiam se recolher para a cama. J\u00e1 \u00e9 madrugada est\u00e1 quase na hora do galo cantar, mas o grupo familiar exausto se recolhe para a cama\u2026<br \/>\nO ru\u00eddo da \u00e1gua ainda alta no rio, mas agora correndo tranquila e baixando lentamente embala o sono da fam\u00edlia, que n\u00e3o dura muito. S\u00e3o despertados ainda de madrugada, l\u00e1 pelas 10 da madrugada, pelos gritos e assobios do Tarc\u00edsio e do Hor\u00e1cio, enviados especiais do tio Pio para ver como estava a m\u00e3e, o irm\u00e3o e a fam\u00edlia. Os dois foram direto para a pinguela, que n\u00e3o estava mais l\u00e1.<br \/>\n&#8211; Meu Deus! O tio e a nona est\u00e3o ilhados. &#8211; fala o Hor\u00e1cio.<br \/>\n&#8211; Bem, Bem\u2026 mas eles tem o nosso ca\u00edque que esta guardado no galponeto deles &#8211; completou o Tarc\u00edsio.<br \/>\n&#8211; Mas parece que n\u00e3o tem ningu\u00e9m em casa. Acho que foram se abrigar na escola.<br \/>\n&#8211; Acho que n\u00e3o. O trator ainda t\u00e1 com o reboque na frente da casa\u2026<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o vamos gritar pra ver se acordamos eles\u2026<br \/>\nE foi o que fizeram. N\u00e3o tardou muito a turma come\u00e7ou a acordar com o gritedo. A\u00ed eles disseram do ca\u00edque, e souberam que todos estavam bem. O ca\u00edque foi largamente utilizado pela comunidade como meio de passagem do rio por algum tempo j\u00e1 que a barragem e a pinguela tinham ido agua abaixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria baseada nas mem\u00f3rias da Silvia Maio em geral foi o m\u00eas dos grandes eventos da fam\u00edlia, por diversas raz\u00f5es os grandes milagres tamb\u00e9m aconteceram neste m\u00eas. 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