{"id":247,"date":"2014-05-26T01:42:32","date_gmt":"2014-05-26T01:42:32","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=247"},"modified":"2018-03-20T21:14:58","modified_gmt":"2018-03-21T00:14:58","slug":"a-versao-do-perdedor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=247","title":{"rendered":"A vers\u00e3o do perdedor&#8230; ou Um santo na fam\u00edlia."},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria, diz-se que sempre \u00e9 escrita do ponto de vista dos vencedores. Esta \u00e9 a minha vers\u00e3o, da vers\u00e3o da Silvia, da vers\u00e3o do Caco, do epis\u00f3dio em que ele perdeu seu &#8220;canivete artesanal&#8221;. Portanto esta \u00e9 uma vers\u00e3o dos perdedores&#8230;<\/p>\n<p>Numa fam\u00edlia religiosa como a dos Piovesan, muitas coisas, que os outros nem imaginam, podem e s\u00e3o consideradas sagradas, como por exemplo, a sesta do <a title=\"5. Abel\" href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?page_id=102\">tio Abel<\/a>. Um homem religioso que, alguns anos depois deste epis\u00f3dio, foi consagrado di\u00e1cono.\u00a0Ele sempre reservava uma horinha depois do almo\u00e7o para uma sestazinha, tempo para recuperar o corpo e, com certeza, fazia bem para a alma tamb\u00e9m. Mesmo nos fins de semana quando o trabalho n\u00e3o era muito pesado a sesta era sagrada. Numa hora sagrada qualquer barulho, que pudesse atrapalhar o sacrossanto soninho, estava proibido. N\u00e3o poderia ser diferente naquele s\u00e1bado. A Maristela, a Bernadete e a tia Alzira faziam a limpeza semanal da casa com o maior cuidado para n\u00e3o tumultuar aquela hora sagrada.<br \/>\nOutra caracter\u00edstica marcante na fam\u00edlia \u00e9 a capacidade inventiva e criativa, e isso \u00e9 caracter\u00edstica mais ou menos generalizada, como exemplo citarei a fabrica\u00e7\u00e3o caseira de instrumentos e ferramentas, como o \u201ccanivete artesanal\u201d do Caco. Tendo herdado a inventividade do av\u00f4, o Cl\u00e1udio\u00a0p\u00f4s em pr\u00e1tica todos os conhecimentos de ferraria, marcenaria, f\u00edsica e qu\u00edmica que conhecia e confeccionou um bel\u00edssimo canivete artesanal de m\u00faltiplas utilidades que o acompanhou por muito tempo. Outros objetos tradicionalmente feitos de forma artesanal eram os espetos de madeira, usados para assar carne. Estes, por\u00e9m, de dura\u00e7\u00e3o mais ef\u00eamera, eram usados uma \u00fanica vez e depois descartados como espetos, continuando \u00fateis para outras atividades, como por exemplo, briga de irm\u00e3os.<br \/>\nA fam\u00edlia era sagrada e os seus la\u00e7os venerados, no entanto, em alguns casos at\u00e9 podia haver pequenos desentendimentos comuns quando irm\u00e3os divergem opini\u00f5es ou prefer\u00eancias. Nada que a interven\u00e7\u00e3o do pai, da m\u00e3e ou at\u00e9 mesmo de um irm\u00e3o mais velho n\u00e3o possa resolver.<\/p>\n<div id=\"attachment_248\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-248\" class=\"size-medium wp-image-248\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos-300x197.jpg\" alt=\"Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedica\u00e7\u00e3o a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na \u00e9poca da hist\u00f3ria narrada.\" width=\"300\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos-300x197.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos-150x98.jpg 150w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos-600x395.jpg 600w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/thereza-e-sobrinhos.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-248\" class=\"wp-caption-text\">Tia Thereza, hoje religiosa conhecida pela sua dedica\u00e7\u00e3o a causa do bem, cercada dos filhos do tio Abel, mais ou menos na \u00e9poca da hist\u00f3ria narrada.<\/p><\/div>\n<p>Voltemos ao nosso s\u00e1bado: a m\u00e3e e as irm\u00e3s, tia Alzira, Bernadete e Maristela, est\u00e3o fazendo limpeza no templo da sagrada fam\u00edlia, a casa. O patriarca pratica a cerimonial sesta, enquanto os meninos, neste caso o grande inventor Cl\u00e1udio Piovesan\u00a0e seu irm\u00e3o In\u00e1cio, brincam silenciosamente atr\u00e1s da casa.<br \/>\nSegundo o Caco: para mostrar suas habilidades amea\u00e7ou, inocentemente, de brincadeira o irm\u00e3o com o \u201ccanivete artesanal\u201d, produto de seu suor e inventividade e foi mal interpretado.<br \/>\nSegundo o In\u00e1cio: ele amea\u00e7ou porque tinha ci\u00fames da desenvoltura e habilidades do irm\u00e3o mais velho, ele no caso. De qualquer forma estava criado um desentendimento familiar. Na falta de uma irm\u00e3 mais velha, da m\u00e3e ou do pai para mediar o conflito a solu\u00e7\u00e3o era cada um mostrar suas habilidades, e foi o que o In\u00e1cio fez, mostrou sua habilidade de \u201clan\u00e7amento de espeto em giro livre\u201d, basicamente atirou contra o irm\u00e3o portador do \u201ccanivete artesanal\u201d, um espeto usado, girando em movimento livre horizontal.<br \/>\nComo a trajet\u00f3ria de espeto girat\u00f3rio \u00e9 muito imprevis\u00edvel o dito atingiu o pesco\u00e7o do galo de terreiro e depois a parede. Galo de terreiro normalmente \u00e9 um galo de muito boa qualidade e bonito, escolhido no quintal de um vizinho para melhoramento da qualidade gen\u00e9tica do plantel de galin\u00e1ceos na propriedade. Como \u00e9 um galo especial, chefe supremo da popula\u00e7\u00e3o galin\u00e1cea local, porta uma bagagem gen\u00e9tica diferenciada, canta pela manh\u00e3 para acordar toda a popula\u00e7\u00e3o da propriedade e foi valorizado na compra ou troca com o vizinho, por isso, n\u00e3o tem pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Fal\u00e1vamos do lan\u00e7amento de espeto que colidiu com\u00a0o pesco\u00e7o do galin\u00e1ceo e atingiu a parede, isto causou dois contratempos: o galin\u00e1ceo em quest\u00e3o caiu esticado no ch\u00e3o e o patriarca que dormia esticado na cama p\u00f4s-se de p\u00e9. Com isso foi quebrada uma regra sagrada, que \u00e9 a de n\u00e3o acordar quem est\u00e1 sesteando.<br \/>\nCom o ru\u00eddo provocado pelo espeto rotador contra a parede da casa, o tio Abel acordou mais que irritado, o que era raro acontecer com ele, e foi verificar o que acontecera. Indagou do ocorrido e ficou a par do lan\u00e7amento de espeto e do motivo que ocasionou a a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstendeu a m\u00e3o para o Caco\u00a0e disse com voz firme e decidida:<br \/>\n<em>&#8211; Dame qua sto trapelo.<\/em> Sem op\u00e7\u00e3o o artes\u00e3o alcan\u00e7ou ao pai o \u201ccanivete artesanal\u201d que foi usado para a pr\u00e1tica do esporte de \u201clan\u00e7amento de canivete ao mato\u201d cujo objetivo \u00e9 jogar o canivete de algu\u00e9m, o mais distante poss\u00edvel, em dire\u00e7\u00e3o a um lugar onde crescem \u00e1rvores e arbustos, de forma que o propriet\u00e1rio, praticamente, n\u00e3o tenha chance de encontr\u00e1-lo. E assim foi. Segundo o propriet\u00e1rio, agora Sr. Cl\u00e1udio\u00a0Piovesan, passados mais de trinta anos ele ainda n\u00e3o o encontrou.<br \/>\nVoltando-se para o lan\u00e7ador de espeto, o In\u00e1cio, pouco mais que um pirralho, o pai foi mais enf\u00e1tico e prolixo:<br \/>\n<em>&#8211; Pega este galo, ferve \u00e1gua e depena, depois limpa e prepara ele para o domingo, mas fa\u00e7a tudo isso sozinho, n\u00e3o quero saber de ningu\u00e9m te ajudando. Soube matar, saiba preparar.<\/em><br \/>\nSem outra op\u00e7\u00e3o o menino pegou o galo pelas pernas e foi-se em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cozinha, nesta altura as irm\u00e3s j\u00e1 festejavam aquele enorme galo assado para o domingo, coisa que estava um tanto rara naquela \u00e9poca de crise.<\/p>\n<p>Ato n\u00famero um, o In\u00e1cio foi acender o fogo para p\u00f4r a\u00a0panela de \u00e1gua a ferver. A \u00e1gua fervente ajuda a soltar as penas, \u00e9 uma pr\u00e1tica bastante difundida entre os preparadores de aves. Um probleminha \u00e9 que no fog\u00e3o a lenha a \u00e1gua demora bastante para aquecer, e neste dia o tempo parecia n\u00e3o passar para o menino, que ficou na espera andando de c\u00e1 pra l\u00e1 ou de l\u00e1 pra c\u00e1, com o galo morto de cabe\u00e7a para baixo pego pelas pernas. Este tempo foi de penit\u00eancia e arrependimento, tempo para refletir e meditar sobre a quebra de regras sagradas da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia temos pessoas que se destacaram por sua religiosidade, f\u00e9 e pr\u00e1tica da caridade, um exemplo \u00e9 frei Benedetto Piovesan, irm\u00e3o de nosso tatarav\u00f4, que tem fama de santo na It\u00e1lia, mas cujo processo de beatifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o andou porque a fam\u00edlia nunca teve dinheiro para come\u00e7ar o processo.<\/p>\n<p>Voltemos ao nosso inocente menino, arrependido de seus atos mal\u00e9ficos de ficar raivoso com o irm\u00e3o, matar o galo e acordar o pai. Tr\u00eas pecados em um \u00fanico gesto. Andando de um lado para outro segurando o galo morto pelas pernas de cabe\u00e7a para baixo. Certamente orou e pediu aos c\u00e9us perd\u00e3o por seus atos e&#8230;<br \/>\nDe repente o galo come\u00e7ou a se debater freneticamente, livrou-se das m\u00e3os do seu algoz e saiu correndo terreiro a fora&#8230;<\/p>\n<p>Ep\u00edlogo.<\/p>\n<p>Para o In\u00e1cio, o al\u00edvio da tarefa que antevia pela frente que n\u00e3o sabia bem como realizar.<\/p>\n<p>Para as meninas, carne a menos no almo\u00e7o do domingo.<\/p>\n<p>Para o Caco, para ele nada, ele est\u00e1 ainda procurando o \u201ccanivete artesanal\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Para o galo, mais uns anos de vida comandando o har\u00e9m galin\u00e1ceo, mesmo com o pesco\u00e7o torto e o canto rouco, o que n\u00e3o prejudicou a sua gen\u00e9tica que era o que importava.<\/p>\n<p>Para os adultos da fam\u00edlia, mais um acontecimento corriqueiro.<\/p>\n<p>Para mim, muitos e muitos anos depois quando tomei conhecimento do ocorrido, a evid\u00eancia de mais um santo na fam\u00edlia. No entanto quando comecei a busca de dados para iniciar o processo de beatifica\u00e7\u00e3o do primo pelo seu primeiro milagre, tropecei em dois problemas comuns aos Piovesan: a falta de dinheiro e a falta de provas documentais do milagre. Assim s\u00f3 me resta contar a hist\u00f3ria para que outros continuem venerando o nome e a santidade da fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria, diz-se que sempre \u00e9 escrita do ponto de vista dos vencedores. Esta \u00e9 a minha vers\u00e3o, da vers\u00e3o da Silvia, da vers\u00e3o do Caco, do epis\u00f3dio em que ele perdeu seu &#8220;canivete artesanal&#8221;. 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