{"id":217,"date":"2014-04-23T01:06:14","date_gmt":"2014-04-23T01:06:14","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=217"},"modified":"2014-05-28T00:20:44","modified_gmt":"2014-05-28T00:20:44","slug":"tio-lino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=217","title":{"rendered":"&#8220;Tio Lino&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Finalmente a hist\u00f3ria que explica o apelido.<\/p>\n<p>Como era de costume cada m\u00eas ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. Quase sempre ia toda a fam\u00edlia e muitas vezes a turma do tio Lu\u00eds e da tia Irene ia junto, eles ficavam no V\u00f4 deles, o Bortolo Schiavinatto, e nos segu\u00edamos um pouco adiante. No final do domingo a gente voltava cansado, mas euf\u00f3rico. O meio de transporte mais usado era a carro\u00e7a do vov\u00f4 Bortolo com os cavalos brancos.\u00a0Como na subida os cavalos n\u00e3o tinham for\u00e7a para puxar toda aquela carga, em geral, a Benildes, a Z\u00e9lia, o Selito e o Dimas mais o Leo e eu, desembarc\u00e1vamos e sub\u00edamos a p\u00e9, depois a gente embarcava e continuava a viagem. Numa destas viagens fomos somente eu e o Leo com o tio Lu\u00eds e fam\u00edlia, a m\u00e3e estava com a Luiza pequena e como era costume ficava em casa esperando a visita das amigas, vizinhas, primas e comadres. O pai tamb\u00e9m ficou em casa para ajudar e atender as visitas.<br \/>\nLogo depois do almo\u00e7o come\u00e7aram a chegar as visitas, as irm\u00e3s, cunhadas e primas que vinham conhecer o nen\u00ea, a Luiza, e fazer a visita de praxe \u00e0 m\u00e3e. As crian\u00e7as vieram de carona, nem tanto pra ver o nen\u00ea quanto para andar de <a title=\"O \u201ccarreto\u201d.\" href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=213\" target=\"_blank\">&#8220;carreto&#8221;<\/a>, aquela maravilha que transformava a estrada numa pista de automobilismo e de aventura, a montanha russa daquele tempo. A estrada de terra vermelha, bem patrolada ficava uma verdadeira pista de corrida, pois o trafego de carro\u00e7as quase que vitrificava os trilhos deixando-os muito duros e lisos, isto diminu\u00eda muito o atrito melhorando o desempenho do carro, inda bem que ele tinha freio.<br \/>\nN\u00e3o demorou muito que a turma percebeu que o carro n\u00e3o tinha motorista, os dois titulares tinham ido viajar. Conversa vai conversa vem e nenhum dos visitantes se animou a dirigir o caminh\u00e3ozinho, apesar do tio Lino, ter tentado formar algum motorista, empurrando o carro pelos gramados. Com a insist\u00eancia cada vez maior da turminha para andar na estrada, o dono da casa cedeu aos apelos, prometendo uma corrida lomba abaixo com a gurizada na carroceria. Um carro de lomba comum n\u00e3o chegava a ganhar velocidade na dita pista, mas o \u201ccarreto\u201d com rolamentos e revestimento de borracha nas rodas se comportava quase como uma bicicleta.<br \/>\nAqui vale um par\u00eantesis: As bicicletas de pau eram muito populares na regi\u00e3o exatamente por isso, tendo um centro de gravidade mais alto, conseguiam ganhar velocidade em declives menos acentuados, muito comuns na regi\u00e3o. L\u00e1 no tio Achiles nem pensar em bicicletas, pois as descidas chegavam a quase 45 graus, seria suic\u00eddio andar de bicicleta, l\u00e1 o ideal era o carro de lomba, feitos com umas bolachas de uma tora como rodas, uma t\u00e1bua que era ao mesmo tempo chassi, acento e apoio, dois sarrafos, um fixo como eixo traseiro e outro m\u00f3vel como eixo dianteiro que se guiava com os p\u00e9s. O caminh\u00e3ozinho tinha as vantagens dos dois, a estabilidade de quatro rodas do carro de lomba e a velocidade da bicicleta, com umas vantagens adicionais como banco para o motorista, dire\u00e7\u00e3o imitando um caminh\u00e3o de verdade e o rodar macio dado pelo revestimento de borracha das rodas.<br \/>\n&#8211; Tio Lino! Desce com a gente no carro de l\u00e1 do Luiz Moreira. &#8211; Gritava a gurizada, e foi tanta insist\u00eancia que o tio cedeu.<br \/>\nEmpurraram o carro at\u00e9 o topo da lomba, subiu toda a gurizada no carro com o tio na dire\u00e7\u00e3o e despencaram lomba abaixo, tudo foi maravilhoso, s\u00f3 que o motorista n\u00e3o desceu a lomba toda, no final da primeira parte tomou o caminho de casa e parou no gramado. Desceram o trecho mais uma ou duas vezes, mas a gurizada queria mais a\u00e7\u00e3o, mais velocidade. Finalmente acabaram convencendo o tio a descer toda a lomba como de costume, at\u00e9 o chatinho do tio Lu\u00eds. Mais uma vez lomba acima, crian\u00e7ada toda na carroceria e o tio espremido na cabine, eu disse espremido porque a cabine foi projetada para um guri e n\u00e3o para um adulto, apesar de caber um adulto dentro os comandos n\u00e3o estavam projetados para tal, n\u00e3o tinha regulagem de banco. Um adulto poderia sentar-se razoavelmente confort\u00e1vel e dirigir, mas n\u00e3o encolher a perna suficientemente para pisar no freio, por exemplo.<br \/>\nPois bem! Eu estava falando que a turminha convenceu o motorista a fazer o trajeto completo e l\u00e1 vinham eles&#8230; Passada a primeira curva acentuou-se a descida, bem carregado o carro ganhou bastante velocidade, e a plateia adrenalina. A euforia ia contagiando a gurizada enquanto a velocidade come\u00e7ava a preocupar o motorista que tentou dar uma beliscadinha no freio, mas n\u00e3o conseguiu encolher a perna suficientemente, a gritaria da sobrinhada aumentava, e o pavor do motorista tamb\u00e9m, se aproximava a segunda curva e depois a descida se acentuava mais ainda, depois vinha o chatinho onde o carro perderia velocidade e pararia, este era o comportamento esperado pela piazada acostumados com o trajeto. No entanto, n\u00e3o era esta a experi\u00eancia do motorista. (para quem n\u00e3o leu, leia o <a title=\"A bicicleta do padre Jo\u00e3o (Epis\u00f3dio2)\" href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=193\">Epis\u00f3dio 2 da bicicleta do Padre Jo\u00e3o<\/a>). O caminh\u00e3ozinho tinha rolamentos, exatamente como a bicicleta, a experi\u00eancia de descer sem freio este trajeto ele tinha feito alguns anos antes, e o chatinho n\u00e3o tinha sido suficiente para perder velocidade. Bateu o pavor, ele nem pensou na possibilidade de frear com a m\u00e3o, mantendo apenas uma no volante. Precisava achar uma sa\u00edda urgentemente, o \u00faltimo trecho da descida estava quase no fim, o b\u00f3lido atingindo a velocidade m\u00e1xima, a crian\u00e7ada fazendo a maior algazarra, a estrada passando numa velocidade assustadora. Chegou o trecho plano aliviou um pouco a tens\u00e3o, mas n\u00e3o diminuiu a velocidade&#8230;<br \/>\n&#8211; Raspar no barranco da estrada, esta seria a solu\u00e7\u00e3o para parar e foi esta a decis\u00e3o do tio. Do lado direito tinha um camale\u00e3o de terra solta, deixado pela patrola que passara h\u00e1 pouco. O tio Lino foi encostando o carro no barranco.<br \/>\n&#8211; Surpresa! O carro saltou o barranco como se nada fosse e se enfiou no matinho de branquilhos que tinha logo abaixo. A turma vibrou nunca tinham experimentado a sensa\u00e7\u00e3o do solavanco de pular o barranco.<br \/>\nO matinho de branquilhos n\u00e3o era muito grande, consistia numa tira de uns vinte metros de largura por uns cinquenta de comprimento margeando a estrada. Os branquilhos n\u00e3o eram muito grandes tinham uns dois metros de altura em m\u00e9dia, eram arvoretas bem galharudas e estavam quase sem folhas, era fim de outono. Outra qualidade deles \u00e9 que todos os galhos terminam em espinhos, s\u00f3 ratos, e o tio Lino de \u201ccarreto\u201d, se arriscam a entrar. A carroceria ficou quase fora do matinho, a turminha pulou fora para a estrada pelo caminho que o carro abriu, s\u00f3 o tio Lino n\u00e3o tinha como sair, era espinho pr\u00e1 todo o lado.<br \/>\nO motorista n\u00e3o podia perder a calma numa hora daquelas, tentou orientar a gurizada para puxar o carro para fora do mato, mas todos juntos n\u00e3o conseguiam nem mexer o caminh\u00e3ozinho. Mandar algum deles pedir socorro era arriscado, n\u00e3o se podia deixar as crian\u00e7as andando sozinhas por a\u00ed, na casa que ficava uns 300 metros de dist\u00e2ncia s\u00f3 tinha mulheres que com certeza n\u00e3o teriam for\u00e7a para puxar e provavelmente nenhuma sabia cangar os bois para fazer o servi\u00e7o.<br \/>\nMas era domingo de tarde, dia que o Lalo Franco, que morava perto do rio Fortaleza, costumava ir para a Vila Trentin tomar um trago e jogar um carteado. No domingo em quest\u00e3o n\u00e3o foi diferente, todo garboso vinha o \u201cSeu Lalo\u201d montando o tostado marchador quando deparou com aquele bando de crian\u00e7as na estrada. Parou o cavalo e tentou ouvir o que as crian\u00e7as queriam, era uma gritaria onde ningu\u00e9m se entendia, ele s\u00f3 entendia tio Lino, tio Lino&#8230; at\u00e9 que pediu calma, e que um deles explicasse o problema.<br \/>\n&#8211; Ajuda para tirar o \u201cTio Lino\u201d do mato. \u2013 explicou o maiorzinho deles. Foi ent\u00e3o que o seu Lalo olhou para onde eles apontavam e viu o caminh\u00e3ozinho. Com seu jeito fanfar\u00e3o achou que era uma brincadeira das crian\u00e7as. N\u00e3o podia acreditar que o \u201cSeu Lino\u201d, veterin\u00e1rio conhecido na regi\u00e3o, estivesse brincando de carro de lomba. A d\u00favida se desfez quando o pr\u00f3prio Lino, enfiou a cabe\u00e7a na janelinha traseira da cabine e pediu ajuda. Seu Lalo amarrou o la\u00e7o no eixo traseiro do carro e na chincha do cavalo e arrastou o carro de volta para a estrada.<\/p>\n<div id=\"attachment_220\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/tiolino.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-220\" class=\"size-medium wp-image-220\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/tiolino-300x216.jpg\" alt=\"Mesmo depois de ter filhos casados ele n\u00e3o perdeu o jeito de guriz\u00e3o.\" width=\"300\" height=\"216\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/tiolino-300x216.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/tiolino-1024x738.jpg 1024w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/tiolino.jpg 1332w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-220\" class=\"wp-caption-text\">Mesmo depois de ter filhos casados ele n\u00e3o perdeu o jeito de guriz\u00e3o.<\/p><\/div>\n<p>O \u201cSeu Lino\u201d e as crian\u00e7as agradeceram efusivamente e Seu Lalo seguiu seu caminho. A turma brincou mais um pouco, mas n\u00e3o desceram mais a lomba at\u00e9 o fim&#8230;<br \/>\nNo final da tarde, depois que as comadres, cunhadas e vizinhas foram embora o Seu Lino saiu, foi buscar os guris na casa do cunhado, e como ficava no caminho deu uma passadinha no bolicho. L\u00e1 estava o Lalo numa mesa de carteado, ele tinha contado a hist\u00f3ria pra todo mundo, fez quest\u00e3o de levantar e pagar um trago para brindar a sa\u00fade do \u2013\u201cTio Lino\u201d \u2013 com ele fez quest\u00e3o de falar. Foi a partir deste epis\u00f3dio que o tratamento mudou de status e ele passou a ser conhecido como \u201cTio Lino\u201d.<br \/>\nPara a crian\u00e7ada, aquele adulto que est\u00e1 presente toda hora, que participa das brincadeiras, que trata todos com carinho. Para os adultos, o guriz\u00e3o que vive a vida que brinca e se diverte sem preconceitos&#8230;<br \/>\nObrigado \u201cSeu Lalo\u201d pelo apelido! Valeu!<br \/>\nAgora voc\u00eas sabem porque at\u00e9 eu me refiro a ele muitas vezes como \u201cTio Lino\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Finalmente a hist\u00f3ria que explica o apelido. Como era de costume cada m\u00eas ou dois a gente ia visitar o tio Achiles e a tia Pierina, era uma festa, brincar de carro de lomba, subir os morros a cata de guabijus, tomar banho no rio entre outras brincadeiras. 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