{"id":206,"date":"2014-04-17T00:02:50","date_gmt":"2014-04-17T00:02:50","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=206"},"modified":"2014-05-28T00:49:49","modified_gmt":"2014-05-28T00:49:49","slug":"como-se-faz-um-torchio-sem-torno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=206","title":{"rendered":"Como se faz um \u201ctorchio\u201d sem torno"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_208\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-208\" class=\"size-medium wp-image-208\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-2-300x225.jpg\" alt=\"Moenda ou &quot;torchio&quot; feito pelo mestre carpinteiro Ant\u00f4nio Piovesan.\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-2.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-208\" class=\"wp-caption-text\">Moenda ou &#8220;torchio&#8221; feito pelo mestre carpinteiro Ant\u00f4nio Piovesan.<\/p><\/div>\n<p>\u201cTorchio\u201d\u00e9 a palavra em italiano que designa moenda, aqui no Brasil tamb\u00e9m \u00e9 usada a grafia \u201ctorccio\u201d. Este apelido carinhoso foi dado ao meu av\u00f4 por ele ser um ex\u00edmio fabricante deste tipo de moendas ou prensas destinadas a extrair o suco da cana, a garapa, ou guarapa como \u00e9 mais conhecida no sul do Brasil.<br \/>\nComo trabalho com madeira, tentei ficar imaginando como meu av\u00f4 torneava as ma\u00e7as dos <em>torchios<\/em> sem ter um grande torno, dispondo apenas de ferramentas rudimentares, foi a\u00ed que apelei para duas pessoas que trabalhavam com madeira, tamb\u00e9m com ferramentas prec\u00e1rias para tentar entender o processo. O tio \u00c2ngelo Chierentin, construtor de rodas d\u2019agua de madeira e o seu Gen\u00e9sio Bortoluzzi, que tamb\u00e9m fazia <em>torchios<\/em>, mas com tecnologia mais avan\u00e7ada. Eles me ajudaram a compreender como o torneado ficava perfeito, feito tudo a base de machadinha, serrote, enx\u00f3, form\u00e3o, plaina garlopa e outras ferramentas simples. Como os dentes da engrenagem eram feitos um a um e encaixados na ma\u00e7a de madeira, como eram calculados para dar certo, para que a velocidade das ma\u00e7as entre si fosse constante e n\u00e3o houvesse deslizamento. Algum tempo depois pude confirmar passo a passo a tecnologia com a tia Thereza, que quando jovem ajudou-o a fazer muitos torchios.<br \/>\n<strong>A escolha da madeira<\/strong><br \/>\nPrimeiro cortavam tr\u00eas peda\u00e7os de tora, preferencialmente de angico, pela qualidade da madeira. A primeira, mais grossa, e mais comprida, para sobrar uma ponta para o cabe\u00e7alho, as outras duas apenas do comprimento da ma\u00e7a mais o eixo. Fazer o torneado come\u00e7ava sempre pela marca\u00e7\u00e3o do centro da tora de madeira que originaria a ma\u00e7a, e com um compasso rudimentar marcava a grossura do eixo. A partir da\u00ed marcava o comprimento que deveria ter o eixo para encaixar bem no mancal e ent\u00e3o come\u00e7ava a serrar em torno tirando com o form\u00e3o a madeira at\u00e9 chegar no risco que definia o eixo. Este trabalho era o que exigia a maior precis\u00e3o e a confer\u00eancia do esquadro a cada momento.<br \/>\n<strong>O servi\u00e7o de torno<\/strong><br \/>\nEsculpidas as pontas dos eixos tudo ficava mais simples, mas n\u00e3o menos trabalhoso, o bloco de madeira era colocado apoiado pelas pontas de eixos em duas forquilhas cravadas no ch\u00e3o que serviam de mancal, a\u00ed come\u00e7ava o servi\u00e7o de torno. Girando manualmente a tora e desbastando com a plaina at\u00e9 ficar perfeitamente torneada. A defini\u00e7\u00e3o do di\u00e2metro da ma\u00e7a n\u00e3o era cr\u00edtico, no entanto a circunfer\u00eancia devia ter um tamanho m\u00faltiplo do passo dos dentes, este era o segredo para n\u00e3o dar errado. Esta circunfer\u00eancia era definida geralmente em polegadas, j\u00e1 que as medidas das ferramentas na \u00e9poca tamb\u00e9m o eram, se o form\u00e3o era de uma polegada, a soma do dente e o v\u00e3o deveria ser de duas polegadas, assim a circunfer\u00eancia deveria ser definida com um n\u00famero par de polegadas. Em linguagem de engenheiro, a circunfer\u00eancia definia a linha m\u00e9dia da engrenagem.<br \/>\nO pr\u00f3ximo passo era definir o comprimento, a largura dos dentes e a posi\u00e7\u00e3o na ma\u00e7a. Em geral se seguia um padr\u00e3o ao redor de tr\u00eas polegadas do topo da ma\u00e7a, dentes de duas polegadas de largura e duas de comprimento, com passo de duas polegadas. O passo da engrenagem \u00e9 que definia a circunfer\u00eancia, esta podia variar de acordo com o di\u00e2metro da tora, desde que fechasse com o passo, em alguns casos o torchio tinha tr\u00eas ma\u00e7as de di\u00e2metros diferentes. Definida a posi\u00e7\u00e3o dos dentes da engrenagem era torneado um rebaixo na ma\u00e7a com a profundidade da metade do comprimento dos dentes. O servi\u00e7o de torno estava acabado.<br \/>\n<strong>A engrenagem<\/strong><br \/>\nNo rebaixo feito para a engrenagem era feita a marca\u00e7\u00e3o dos dentes e com form\u00e3o eram feitos furos retangulares para encaixar os mesmos. Os dentes eram feitos um a um, a partir de um sarrafo de guajuvira, por ser uma madeira que apresenta grande resist\u00eancia e flexibilidade, com o tamanho exato para encaixar sem soltar dos furos, os dentes eram encaixados nos furos e depois cortados para que ficassem com o comprimento certo, ent\u00e3o era feito o acabamento.<br \/>\n<strong>Os mancais e a base<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_209\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-209\" class=\"size-medium wp-image-209\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-1-300x225.jpg\" alt=\"Nesta foto de 1978 um dos \u00faltimos torchios feito por ele ainda em funcionamento na casa da tia Eul\u00e1lia.\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/torchio-1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-209\" class=\"wp-caption-text\">Nesta foto de 1978 um dos \u00faltimos torchios feito por ele ainda em funcionamento na casa da tia Eul\u00e1lia.<\/p><\/div>\n<p>Na base, em geral feita de uma pe\u00e7a \u00fanica de madeira com a largura um pouco maior que a ma\u00e7a maior, eram feitos os furos, n\u00e3o passantes, que serviriam de mancal inferior para as ma\u00e7as. Tamb\u00e9m na base eram feitos sulcos para recolher a garapa que terminavam numa bica onde era pendurado o balde. O mancal superior, muitas vezes era feito em duas metades, principalmente quando havia escassez de madeira grande, ou para facilitar a montagem. Nas pontas das bases, superior e inferior, eram feitos furos quadrados para encaixar os postes de sustenta\u00e7\u00e3o. Na ponta de eixo superior da ma\u00e7a maior e central, que ficava mais comprido era feito um rebaixo retangular onde se encaixava o cabe\u00e7alho, um galho torto que era furado no ponto de equil\u00edbrio, ficando a ponta mais fina e mais longa voltada para baixo para facilitar o engate dos bois que fariam a tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao ver um destes engenhos atualmente jamais imaginamos quanto esfor\u00e7o, persist\u00eancia, paci\u00eancia e tempo eram gastos neste trabalho.<\/p>\n<p>Da\u00ed podemos concluir que cham\u00e1-lo de &#8220;Toni Torchio&#8221; era o equivalente a chamar de paciencioso e persistente, qualidade que certamente passou \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, tem uns tentando escrever um livro, haja paci\u00eancia e persist\u00eancia pra isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTorchio\u201d\u00e9 a palavra em italiano que designa moenda, aqui no Brasil tamb\u00e9m \u00e9 usada a grafia \u201ctorccio\u201d. 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