{"id":187,"date":"2014-03-20T00:53:13","date_gmt":"2014-03-20T00:53:13","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=187"},"modified":"2024-08-10T19:57:05","modified_gmt":"2024-08-10T22:57:05","slug":"bois-com-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=187","title":{"rendered":"Bois pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<ol>\n<li class=\"mceTemp\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminh\u00e3o-de-300-arrobas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-190\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminh\u00e3o-de-300-arrobas-300x203.jpg\" alt=\"Nesta foto feita pelo tio Lino, aparece um t\u00edpico caminh\u00e3o de 300 arrobas da \u00e9poca. observe que o caminh\u00e3o est\u00e1 com rodado duplo, mas o reboque est\u00e1 simples, no fundo os bois Bonito e Cruzeiro.\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminh\u00e3o-de-300-arrobas-300x203.jpg 300w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminh\u00e3o-de-300-arrobas-1024x694.jpg 1024w, https:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/caminh\u00e3o-de-300-arrobas.jpg 1138w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\n<ol id=\"attachment_190\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 300px;\">Nesta foto, j\u00e1 dos anos 60, feita pelo tio Lino, aparece um t\u00edpico caminh\u00e3o de 300 arrobas da \u00e9poca. observe que o caminh\u00e3o est\u00e1 com rodado duplo, mas o reboque est\u00e1 simples, no fundo os bois Bonito e Cruzeiro.<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Mil novecentos e cinquenta e oito, em meio a grandes transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas algumas pr\u00e1ticas e costumes ancestrais ainda resistem na Vila Trentin e arredores como a engorda de gado ou porcos a meia, consistia em pegar os animais de um parente ou vizinho para criar e engordar e depois repartir no dia da carnea\u00e7\u00e3o. Esta pr\u00e1tica foi trazida pelos italianos que costumavam trabalhar como meeiros para os propriet\u00e1rios de terras na p\u00e1tria m\u00e3e. Os Piovesan, promovidos de \u201cpoveri contadini\u201d na It\u00e1lia para \u201cmatando cachorro a grito\u201d no Brasil, n\u00e3o fugiam da regra. Outra pr\u00e1tica, restrita aos mais abonados que tinham caminh\u00e3o, era a de andar com rodado simples na traseira por falta ou para economizar pneus. Ficava engra\u00e7ado, pois ao usar somente a roda de dentro ficava a ponta de eixo saliente para fora. Eu me lembro bem disso no caminh\u00e3o do Tio Jos\u00e9 Rato.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 claro que uma coisa n\u00e3o tem nada ver com a outra a n\u00e3o ser que o tio Lino entre na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Eu chamei meu pai de \u201ctio Lino\u201d, pois foi assim que ele ficou conhecido na redondeza. Todo mundo o chamava de tio Lino at\u00e9 o velho Lalo Franco que tinha idade para ser pai dele, na hora oportuna vou contar a hist\u00f3ria de como este apelido carinhoso come\u00e7ou. N\u00e3o tenho como precisar a data, mas foi l\u00e1 por setembro, pelos dias da enchente de s\u00e3o Miguel. Como havia chovido muito n\u00e3o dava pra fazer nada na ro\u00e7a e o Tio Atilio Zanon tinha uma leitoada para engordar e tinha terminado o milho da safra velha, a\u00ed o Lino que ainda morava com o sogro, o v\u00f4 Bortolo, que tinha moinho se ofereceu para engordar os porcos \u00e0 meia, e por isso estava aproveitando aquele dia de chuva para buscar os porcos na casa do tio.<\/p>\n<p>Um passeio destes merecia ter uma companhia, e foi assim que o L\u00e9o e o pai come\u00e7aram a viagem at\u00e9 Jaboticaba. Uma hora e meia de gaiota com o Mansinho e o Pintor, bois que compreendiam at\u00e9 os pensamentos do pai, na pr\u00e1tica formavam um trio com ele, tal era a compreens\u00e3o e o respeito m\u00fatuos.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 iam os quatro, o pai, o L\u00e9o e os bois tranquilos pela estrada lamacenta, de barro vermelho pegajoso e ao mesmo tempo liso como sab\u00e3o. Falando em vermelho esta era a cor de um lencinho que o L\u00e9o carregava, quando ele me contou a hist\u00f3ria disse que \u201clembrava muito bem do len\u00e7o, do barro e do caminh\u00e3o Fargo com rodado simples no eixo traseiro.\u201d Ele ainda fez quest\u00e3o de enfatizar &#8211; &#8220;Era um caminh\u00e3o dos de 300 arrobas, o maior que tinha na \u00e9poca.&#8221; Logo depois que eles atravessaram a picada e entraram na estrada que ia da Esquina Boa Vista para Jaboticaba passou por eles o caminh\u00e3o cheio de pol\u00edticos que iam para um com\u00edcio no Rodeio Bonito. Vendo aquele mundo de gente no caminh\u00e3o o L\u00e9o, ent\u00e3o com a inoc\u00eancia de seus seis anos, abanou freneticamente para os passantes, s\u00f3 que tinha um problema, eram pol\u00edticos da UDN e o vermelho n\u00e3o era a cor deles e foi por isso que pai, filho, bois e tudo mais, ouviram um sem n\u00famero de desaforos e xinga\u00e7\u00f5es. No momento o L\u00e9o nem se deu conta do acontecido, o pai com toda a calma que lhe era peculiar ouviu tudo calado e seguiu seu caminho. Isso era outra particularidade dele, era praticamente imposs\u00edvel faz\u00ea-lo perder a calma, mas outra era a de n\u00e3o perder a oportunidade.<\/p>\n<p>E a oportunidade estava esperando menos de um quil\u00f4metro adiante, logo depois da sa\u00edda da linha S\u00e3o Lu\u00eds, perto de onde morava o Luiz Marion, numa baixada a \u00e1gua da chuva alagava e formava um grande atoleiro, \u00e9 claro que o Fargo, com rodado simples atr\u00e1s, e cheio de pol\u00edticos, estava atolado. O motorista n\u00e3o tinha muita pr\u00e1tica em atoleiro, nenhum dos pol\u00edticos se animava a descer do caminh\u00e3o para empurrar ou procurar socorro. Mas o socorro vinha de gaiota, passo a passo e tranquilamente, em menos de intermin\u00e1veis dez minutos apareceram na curva o Mansinho e o Pintor, de cabe\u00e7a erguida como que dizendo, \u2013 andamos mais devagar, mas n\u00e3o atolamos. O L\u00e9o j\u00e1 antevendo a oportunidade de ver de perto o aquela maravilha da tecnologia, capaz de carregar 300 arrobas, a carro\u00e7a sem bois, parada cheia de gente. E o Lino, que tinha poucos minutos para planejar a vingan\u00e7a dos desaforos que ouvira h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>Passo a passo os bois mostravam sua superioridade puxando a gaiota com tranquilidade e firmeza, o condutor assobiava e de quando em quando estalava a assoiteira no ar, n\u00e3o que os bois precisassem deste tipo de incentivo, mas para mostrar que tinha o chicote, at\u00e9 se confrontar e ultrapassar o caminh\u00e3o atolado na sarjeta da estrada. A carga do caminh\u00e3o estava silenciosa, podia-se ouvir at\u00e9 o ru\u00eddo de uma mosca, dava a impress\u00e3o que cada um daqueles que pesavam sobre o rodado simples do caminh\u00e3o n\u00e3o queria estar a\u00ed, um la\u00e7a\u00e7o daquele relho deveria ser deveras dolorido, o desespero de estar preso ao ar livre, a inveja do quarteto de gaiota passando tranquilo, a sensa\u00e7\u00e3o de inferioridade diante daqueles que h\u00e1 poucos minutos foram desprezados, a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia\u2026 De dentro da cabine, o motorista, desesperado pela impossibilidade de entregar sua carga a tempo, mas o \u00fanico com alguma sensatez no momento, dirigiu-se ao condutor da gaiota, antevendo a possibilidade de tracionar, com os bois, o caminh\u00e3o para fora do atoleiro.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel descrever a sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio tanto do motorista como da carga quando o carreteiro consentiu prontamente a solicita\u00e7\u00e3o, estacionou a gaiota um pouco adiante, desceu, desatrelou os bois, posicionou os bois diante do atolado, la\u00e7ou um corrent\u00e3o no para-choques engatou na canga e solicitou aos bois que tencionassem o corrent\u00e3o. Estava tudo pronto e os bois ficaram aguardando a ordem para puxar, mas esta n\u00e3o veio\u2026 Aqui \u00e9 necess\u00e1rio fazer um esclarecimento, nenhum boi sob o comando do Lino fazia qualquer movimento sem seu consentimento, ele e seus bois formavam um conjunto harm\u00f4nico e perfeitamente integrado. O Mansinho e o Pintor pareciam conscientes da miss\u00e3o que os esperava.<\/p>\n<p>Tudo pronto, faltava somente a ordem para puxar, com toda a calma caracter\u00edstica e peculiar foi ent\u00e3o que o Lino, que at\u00e9 ent\u00e3o somente se dirigira ao motorista, se dirigiu aos que estavam na carroceria:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso esclarecer uma coisinha, meus bois est\u00e3o muito descontentes com o que ouviram h\u00e1 pouco, pois eles s\u00e3o de outro partido. Eles est\u00e3o dispostos a desatolar o caminh\u00e3o somente se voc\u00eas gritarem \u2013 Viva o Brizola!<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel descrever a rea\u00e7\u00e3o do grupo, parecia que tinham engolido a pr\u00f3pria l\u00edngua. O carreteiro simpl\u00f3rio que ouvira calado seus desaforos agora estava no comando da situa\u00e7\u00e3o, como um maestro agitou a m\u00e3o como quem est\u00e1 regendo um coro. Saiu um \u201cviva o Brizola\u201d meio chocho que deixou desapontado o maestro e nem chegou aos ouvidos dos bois pol\u00edticos. Mais uma vez o maestro levantou a m\u00e3o e desta vez deixou claro: \u2013 tem que ser mais forte, com entusiasmo. A um novo comando saiu um \u201cviva o Brizola\u201d bem sonoro enquanto o maestro discretamente deu o comando e os bois que tencionaram o corrent\u00e3o e com firmeza arrastaram o caminh\u00e3o para fora do atoleiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho como imaginar o que se passou na cabe\u00e7a daquele grupo de pol\u00edticos, mas sei que para o tio Lino, ficou a sensa\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter levado desaforo para casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta foto, j\u00e1 dos anos 60, feita pelo tio Lino, aparece um t\u00edpico caminh\u00e3o de 300 arrobas da \u00e9poca. observe que o caminh\u00e3o est\u00e1 com rodado duplo, mas o reboque est\u00e1 simples, no fundo os bois Bonito e Cruzeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-187","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-tio-lino"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/187"}],"collection":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=187"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":548,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/187\/revisions\/548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=187"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=187"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=187"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}