{"id":38,"date":"2014-05-05T01:25:36","date_gmt":"2014-05-05T01:25:36","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=38"},"modified":"2014-05-05T01:36:27","modified_gmt":"2014-05-05T01:36:27","slug":"taquara-furada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=38","title":{"rendered":"Taquara furada"},"content":{"rendered":"<p>Muito antes de come\u00e7arem as importa\u00e7\u00f5es de bambus lisos, do Oriente, aqui no Rio Grande s\u00f3 tinha os da fam\u00edlia das taquaras. Muito comum nos cap\u00f5es e matos do Alto Uruguai eram as <em>Merostachys clausseni<\/em>\u00a0&#8211; Taquara-mansa, que era \u00f3tima para fazer flautas e cestaria por ter a parede dos tubos fina e uniforme, com pouca conicidade no tronco e a <em>Guadua Trinii<\/em> ou <em>Guadua Tagoara<\/em>\u00a0&#8211; Taquara-brava, Taquaru\u00e7u ou Taquara de espinhos, esta \u00faltima com as paredes dos tubos mais grossa e apresentando uma maior conicidade no tronco. Ambas t\u00eam as paredes bastante \u00e1speras que obriga o artes\u00e3o a raspar a superf\u00edcie para fazer trabalhos com melhor acabamento. Outras taquaras nativas tamb\u00e9m usadas para cestaria eram as crici\u00famas ou taquaris que apresentam caules bem finos e praticamente maci\u00e7os.<br \/>\nApesar de o assunto ser taquaras n\u00e3o \u00e9 especificamente delas que quero falar hoje, e sim da tecnologia moderna. Atualmente se encontram no mercado in\u00fameras op\u00e7\u00f5es de canos e mangueiras para condu\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, voltemos algum tempo na hist\u00f3ria e descobriremos os mais primitivos e estranhos objetos usados com a mesma finalidade, folhas de inhames e taiobas, porongos ou\u00a0caba\u00e7as, sacos de couro e balde de madeira dentre algumas das tecnologias usadas desde a \u00e9poca das cavernas, instrumentos para carregar \u00e1gua de um lugar para outro em pequenas quantidades. J\u00e1 na \u00e9poca do imp\u00e9rio Romano se destacaram os canais que desviavam verdadeiros rios seguindo curvas de n\u00edvel e os aquedutos para ligar os canais em n\u00edvel acima do solo. Estes sistemas permitiam disponibilizar \u00e1gua corrente em lugares mais altos, naturalmente sempre que estivesse dispon\u00edvel uma fonte mais alta. Alguns mecanismos foram desenvolvidos na China e por outros povos orientais para elevar \u00e1gua, em quantidades razo\u00e1veis que depois seguiam por canais e aquedutos at\u00e9 seus destinos. Leonardo da Vincci foi grande arquiteto de represas, t\u00faneis, canais e aquedutos para irriga\u00e7\u00e3o e para disponibilizar \u00e1gua em cidades italianas. Tudo isto eu s\u00f3 descobri muitos anos mais tarde.<br \/>\nAt\u00e9 meus sete anos o que eu conhecia de sistemas h\u00eddricos eram os canais (valetas) que conduziam \u00e1gua dos lajeados do Moinho e do Papagaio at\u00e9 a caixa d\u2019\u00e1gua da usina, da\u00ed a \u00e1gua descia 40 metros num cano, quase vertical, chegando \u00e0 usina com alt\u00edssima press\u00e3o gerando a for\u00e7a para o d\u00ednamo. At\u00e9 a\u00ed tudo se comportava logicamente, a \u00e1gua descia pela gravidade ou era conduzida onde fosse necess\u00e1rio sempre seguindo um caminho, do mais alto para o mais baixo, seguido curvas de n\u00edvel levemente descendentes, no entanto uma coisa me intrigava l\u00e1 na casa do tio Osvaldo.<\/p>\n<div id=\"attachment_41\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/tosvaldo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-41\" class=\"size-medium wp-image-41\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/tosvaldo-300x170.jpg\" alt=\"Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreens\u00e3o.\" width=\"300\" height=\"170\" srcset=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/tosvaldo-300x170.jpg 300w, http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/tosvaldo.jpg 705w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-41\" class=\"wp-caption-text\">Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreens\u00e3o. Em primeiro plano as casas da vila. No meio do mato a churrasqueira da gruta.<\/p><\/div>\n<p>A casa ficava uns cinquenta metros abaixo da fonte, que fica atr\u00e1s da casa atual. Devido \u00e0 permeabilidade do solo a \u00e1gua da fonte n\u00e3o corria muito e entrava na terra de novo, o que obrigava a buscar \u00e1gua de balde na fonte, como acontecia l\u00e1 na casa do vov\u00f4. Mas l\u00e1 tinha uma vantagem, a fonte ficava num n\u00edvel acima da casa, o que possibilitava o transporte por dutos imperme\u00e1veis como o cano da usina em menores propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 claro. O cano da usina era feito em sua maior parte de sarrafos de madeira, como s\u00e3o feitas as pipas e barris, amarrados por arcos de ferro aparafusados a cada metro no in\u00edcio, e a cada 30 cent\u00edmetros no final onde a press\u00e3o era maior, finalmente um trecho era de ferro para suportar a press\u00e3o de 568 libras por polegada ou 40 Kgf por cent\u00edmetro. L\u00e1 no tio Osvaldo n\u00e3o precisava tanta sofistica\u00e7\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o estava nos matos que precisavam ser ro\u00e7ados.<br \/>\nComo os matos eram cheios de taquara, em especial a taquara de espinho ou taquaru\u00e7u e estes eram ocos, ficava muito f\u00e1cil transform\u00e1-los em canos para a \u00e1gua, bastava furar os n\u00f3s. Foi assim que o tio Osvaldo com um trado grande de uns tr\u00eas ou quatro metros de comprimento foi furando os n\u00f3s das taquaras, uma a uma, para transportar o l\u00edquido precioso da fonte at\u00e9 o tanque de lavar roupas ao lado da casa. Funcionava que \u00e9 uma beleza at\u00e9 a conicidade das taquaras ajudava facilitando o encaixe de uma ponta na outra.<\/p>\n<p>A\u00a0\u00e1gua e seus comportamentos n\u00e3o me eram estranhos, pois crescemos brincando nos canais, nas comportas de escape e nivelamento, os ladr\u00f5es, onde mont\u00e1vamos nossos moinhos e na bica do tanque de lavar roupas.\u00a0Outras vezes est\u00e1vamos dentro do rio subindo cascatas ou mergulhando nos po\u00e7os. Nada me era estranho a n\u00e3o ser quando a tia Cacildes pegava um cano, taquara furada, e encostava a ponta naquela que despejava \u00e1gua no tanque, e a \u00e1gua subia do tanque at\u00e9 o<em> secchiaro\u00b9<\/em>, onde ela lavava a lou\u00e7a com \u00e1gua corrente. O que mais me impressionava n\u00e3o era o fato de lavar lou\u00e7a com \u00e1gua corrente e sim o fato da \u00e1gua subir do tanque at\u00e9 o <em>secchiaro<\/em>. Confesso que levei muitos anos para entender o que se passava&#8230; Acho que terei que fazer um cap\u00edtulo especial sobre como constru\u00ed meus conhecimentos.<\/p>\n<p><em>Secchiaro<\/em> &#8211; Nome em italiano do lugar onde se colocam os baldes, <em>secchios<\/em>. Esp\u00e9cie de gamela de madeira onde se lavava os pratos, em geral tinha um furo num dos cantos com um canudo de taquara que saia para fora para escoar a \u00e1gua usada, para fechar esta sa\u00edda de \u00e1gua se usava um torno de madeira, um paninho ou um sabugo de milho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito antes de come\u00e7arem as importa\u00e7\u00f5es de bambus lisos, do Oriente, aqui no Rio Grande s\u00f3 tinha os da fam\u00edlia das taquaras. 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