{"id":25,"date":"2014-04-27T23:00:29","date_gmt":"2014-04-27T23:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=25"},"modified":"2020-04-27T19:25:12","modified_gmt":"2020-04-27T22:25:12","slug":"o-fruto-proibido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=25","title":{"rendered":"O fruto proibido"},"content":{"rendered":"<p>Dos tempos que morei na casa da v\u00f3, o casar\u00e3o comunit\u00e1rio, onde vivi at\u00e9 meus sete anos, tenho um bocado de lembran\u00e7as que merecem uma descri\u00e7\u00e3o detalhada, no entanto hoje vou contar uma de tr\u00eas primos: Eu, a Mariazinha e o Selito. Como podem observar os mais cuidadosos com a l\u00edngua portuguesa devem ter estranhado me colocar em primeiro lugar, aprendi desde pequeno que quando se conta uma coisa boa sempre se coloca os outros em primeiro lugar, mas como neste caso \u00e9 uma confiss\u00e3o n\u00e3o poderia deixar de me colocar na frente.<\/p>\n<div id=\"attachment_26\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bodas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-26\" class=\"size-medium wp-image-26\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bodas-300x186.jpg\" alt=\"Foto tirada por ocasi\u00e3o dos 40 anos de casamento do v\u00f4 Bortolo e v\u00f3 Maria, bodas de rubi, sentados de preto no centro. Na fila da frente, eu sou o 5\u00ba da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha \u00e9 a terceira e o Selito o 12\u00ba.\" width=\"300\" height=\"186\" srcset=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bodas-300x186.jpg 300w, http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bodas-1024x636.jpg 1024w, http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bodas.jpg 1682w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-26\" class=\"wp-caption-text\">Foto tirada por ocasi\u00e3o dos 40 anos de casamento do v\u00f4 Bortolo e v\u00f3 Maria, bodas de rubi, sentados \u00a0no centro, de preto.<br \/>Na fila da frente, eu sou o 5\u00ba da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha \u00e9 a terceira e o Selito o 12\u00ba. A foto foi tirada atr\u00e1s do moinho, v\u00ea-se ao fundo a casa do v\u00f4.<\/p><\/div>\n<p>O p\u00e1tio do Vov\u00f4 era cheio de frutas, em qualquer \u00e9poca do ano que se chagasse l\u00e1 sempre tinha alguma para degustar, no entanto, algumas causavam maior euforia entre a crian\u00e7ada. Era um verdadeiro para\u00edso, e tinha at\u00e9 a \u00e1rvore do fruto proibido, ali\u00e1s, at\u00e9 acho que tinha mais que uma deste g\u00eanero. Vou come\u00e7ar pela parreira que a gente tinha que passar por baixo para entrar no pomar. Ficava logo depois da casa da Nona (Rosa), imaginem as crian\u00e7as passando por baixo da parreira com as uvas quase maduras para ir comer p\u00eassegos ou ameixas. \u00c9 claro que era uma esp\u00e9cie de tortura, no entanto ningu\u00e9m ousava tocar um \u00fanico gr\u00e3ozinho de uva enquanto o V\u00f4 Bortolo n\u00e3o autorizasse a colheita. Assim fica declarado o fruto proibido do v\u00f4: a uva. Os moranguinhos da horta da v\u00f3 Maria tamb\u00e9m eram frutos proibidos, mas a gente dava um jeitinho de roubar alguns \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Tanto os moranguinhos como as uvas depois de algum tempo de proibi\u00e7\u00e3o, quando estivessem maduros nos os prov\u00e1vamos, mas o fruto proibido que ningu\u00e9m jamais descobriu o sabor, n\u00e3o era a ma\u00e7\u00e3, como podem estar pensando, era o marmelo. A horta era cercada em parte pela casa, o casar\u00e3o que tinha a grande sala, os quartos, do tio Miro, o nosso e o das tias mais velhas, as mais novas dormiam no s\u00f3t\u00e3o, n\u00f3s, as crian\u00e7as raramente t\u00ednhamos acesso ao s\u00f3t\u00e3o. Vou ter que fazer um cap\u00edtulo falando da casa, mas n\u00e3o aqui. Sim o casar\u00e3o fazia parte da cerca da horta, depois tinha uma cerquinha e a casa do v\u00f4, composta de quarto, biblioteca, sala e cozinha, estas duas \u00faltimas eram comunit\u00e1rias, Nesta \u00e9poca o tio Gervasio, o tio Lu\u00eds e o tio \u00c2ngelo j\u00e1 moravam em suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p>Depois da casa do v\u00f4 tinha uma cerca com a porteira de entrada, sempre vis\u00edvel da cozinha, que ia at\u00e9 a valeta que fazia uma grande curva indo at\u00e9 o canto do casar\u00e3o e assim fechando a horta. Eu sei! Tenho que falar do marmeleiro, al\u00e9m de dar umas varas excelentes para delimitar as possibilidades de atua\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, (isto \u00e9 uma forma politicamente correta de explicar seu uso) tamb\u00e9m dava umas frutas incrivelmente grandes, douradas com uma casca com textura de camur\u00e7a, um verdadeiro sonho, com certeza a fruta mais linda que conheci na minha inf\u00e2ncia. Mas era fruto proibido, jamais algu\u00e9m nos ofereceu marmelo, eles amadureciam e desapareciam de forma misteriosa, nunca ningu\u00e9m chegou e nos disse:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1 um marmelo, provem.<\/p>\n<p>O marmeleiro n\u00e3o ficava no pomar, foi plantado na horta, o reino da v\u00f3 Maria, que apesar de ter fama de rigorosa com as crian\u00e7as era menos temida que a autoridade do v\u00f4 Bortolo, ou da Nona. A Nona \u00e9 quem cuidava das crian\u00e7as na hora do caf\u00e9, mesmo morando em suas casas as gurias do tio \u00c2ngelo e a gurizada do tio Lu\u00eds vinham tomar caf\u00e9 na casa da v\u00f3 Maria. \u2013 Epa! Epa! Esta \u00e9 outra hist\u00f3ria, vai ficar pra outro dia.<\/p>\n<p>Naquele dia, tempo de marmelo maduro, quando estava findando o caf\u00e9 n\u00f3s tr\u00eas \u00a0combinamos rapidamente que seria o dia de provar o fruto proibido. Ficamos um pouco mais que os outros na mesa e ao sair a Mariazinha foi at\u00e9 a cozinha da v\u00f3 e escondeu discretamente uma faca na roupa. O Selito e eu sa\u00edmos discretamente e fomos at\u00e9 o fundo do engenho (serraria) e pegamos uma costaneira. Fizemos a volta por tr\u00e1s da valeta, passamos pelo chiqueir\u00e3o dos porcos e perto do p\u00e9 de araticum improvisamos uma ponte para passar a valeta. A Mariazinha ficou andando distra\u00edda pra l\u00e1 e pra c\u00e1 entre o galp\u00e3o e a cerca da horta para dar o alerta caso algum adulto se aproximasse. Passamos a valeta e chegamos no marmeleiro, tinha um dos bem bonitos relativamente baixo e f\u00e1cil de apanhar, fizemos a colheita e retornamos discretamente e fomos nos encontrar com a vigilante.<\/p>\n<p>Para provar o dito fruto decidimos que \u00edamos nos esconder atr\u00e1s das pilhas de t\u00e1buas perto da caixa d\u2019\u00e1gua da usina. Como j\u00e1 tinha movimento na serraria n\u00e3o pod\u00edamos arriscar andar por l\u00e1 a sa\u00edda era ir pelo lado de baixo da valeta e usar a ponte da caixa d\u2019\u00e1gua. A valeta vinha dos fundos da olaria do tio At\u00edlio Zanon, passava por tr\u00e1s da casa do tio Ant\u00f4nio, era a divisa natural do pomar do v\u00f4, depois da horta e finalmente alinhava pelos fundos do galp\u00e3o e da serraria at\u00e9 findar no reservat\u00f3rio da usina que cham\u00e1vamos de caixa d\u2019\u00e1gua. Tinha cinco pontes, entre o pomar e as casas, a ponte do seu Facin (\u00c2ngelo Pio Isaias Jos\u00e9 Fassini). Logo depois da horta tinha a ponte do chiqueir\u00e3o, por onde se passava para ir tratar os porcos ou colher araticuns, antes de ter o po\u00e7o era a ponte de ir buscar \u00e1gua na fonte que hoje fornece \u00e1gua para a gruta. Depois do galp\u00e3o tinha a ponte da gruta, que tamb\u00e9m levava ao tanque comunit\u00e1rio (terei que escrever tamb\u00e9m alguma hist\u00f3ria do tanque). Depois tinha o ladr\u00e3o, abertura que possibilitava o escoamento do excesso de \u00e1gua para manter o n\u00edvel. Logo mais adiante tinha a ponte da serragem, onde se passava com os carrinhos de m\u00e3o e se jogava a serragem perau abaixo. Depois, quase no fim da valeta tinha a ponte da caixa d\u2019\u00e1gua que saia por tr\u00e1s das pilhas de t\u00e1buas.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos por tr\u00e1s do galp\u00e3o atravessamos a ponte da gruta e seguimos rumo ao nosso destino. Chegando l\u00e1 encontramos uma pilha de t\u00e1buas que tinha na parte de baixo, t\u00e1buas mais compridas, formando como que uma mesa, o lugar ideal. N\u00e3o lembro muito bem que opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas fizemos para dividir em tr\u00eas o fruto dos deuses, lembro que foi uma cerim\u00f4nia quase como um sacrif\u00edcio divino, tamb\u00e9m pudera, aquele magn\u00edfico marmelo dourado merecia isto e muito mais. A opera\u00e7\u00e3o de cortar n\u00e3o foi das mais f\u00e1ceis, o fruto apresentava uma certa resist\u00eancia ao ser sacrificado, mas nossa vontade foi maior. Partido o fruto cada um de n\u00f3s pegou sua parte e como numa cerim\u00f4nia de degusta\u00e7\u00e3o fincamos os dentes quase ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Os dentes ficaram grudados, a boca ficou grudenta, era um marmelo de fazer doce. Desapontados jogamos fora os peda\u00e7os e fomos brincar de outra coisa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos tempos que morei na casa da v\u00f3, o casar\u00e3o comunit\u00e1rio, onde vivi at\u00e9 meus sete anos, tenho um bocado de lembran\u00e7as que merecem uma descri\u00e7\u00e3o detalhada, no entanto hoje vou contar uma de tr\u00eas primos: Eu, a Mariazinha e &hellip; <a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=25\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-25","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=25"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":297,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/25\/revisions\/297"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=25"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=25"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=25"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}