{"id":190,"date":"2018-12-08T22:16:33","date_gmt":"2018-12-09T01:16:33","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=190"},"modified":"2018-12-09T07:53:55","modified_gmt":"2018-12-09T10:53:55","slug":"peixe-com-polenta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=190","title":{"rendered":"Peixe com polenta"},"content":{"rendered":"<p>Naquele tempo&#8230; &#8211; Assim come\u00e7ava a leitura do evangelho na missa do padre Guilherme brabo, o alem\u00e3o, que veio rezar a missa da festa da gruta.<br \/>\nBem! naquele tempo a festa da gruta era pouco mais que uma festa familiar dos moradores da Vila Trentin, eu disse familiar porque al\u00e9m dos Trentin, dos Fassini, dos Oliveira, dos Dalbianco e dos Casarin, que tinham cruzamentos de parentesco e casamento com todos entre si s\u00f3 tinha uma ou duas fam\u00edlias como a do Jo\u00e3o Roberval Ramos, o Jo\u00e3o Rube,\u00a0 e os Saul e os Kovalewski que vinham pra festa. O que importa \u00e9 que era uma bela festa, vinha um que outro forasteiro que aproveitava a oportunidade para conhecer as mo\u00e7as e, quem sabe, arranjar um namorado ou namorada. E a crian\u00e7ada se divertia a be\u00e7a pelos matos ao redor da gruta.<\/p>\n<p>Naquele tempo, quer dizer naquele dia, tudo foi mais ou menos igual a todas as outras com uma pequena diferen\u00e7a, normalmente as crian\u00e7as combinavam as aventuras depois da missa, mas como a turma n\u00e3o se separou depois da missa a combina\u00e7\u00e3o ficou para o fim da tarde e o diferencial \u00e9 que dois adultos, acho que d\u00e1 pra chamar assim, iam participar da brincadeira.<\/p>\n<p>Segundo domingo de fevereiro, se n\u00e3o estou errado de 1966, eram as minhas primeiras f\u00e9rias de seminarista e neste tempo o Cl\u00e9sio, o Leonildo, o Dimas e o Tadeu estavam pensando em ir para o semin\u00e1rio, da\u00ed era natural a turma ficar mais unida para saber das novidades. Al\u00e9m de ser fevereiro, quente, tempo bom era dia de lua cheia. Mas chega de enrola\u00e7\u00e3o, vamos a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Neste dia hist\u00f3rico, no final da tarde cinco primos se desgarraram discretamente do bando de primos que estavam na festa. O capit\u00e3o era o mais velho, o L\u00e9o, com os primos Cl\u00e9sio e Dito e os irm\u00e3os Liceo (eu) e o Leonildo. A atividade do fim de tarde arranjar as pedras nas corredeiras do rio em v\u00ea, desde a gruta at\u00e9 a divisa do seu Pedro. N\u00e3o era s\u00f3 brincadeira, era para uma atividade mais do que s\u00e9ria &#8211; Fazer uma mega janta de peixe com polenta na casa do tio Osvaldo e da tia Cacildes. Os pais tinham concordado com a aventura. E iam supervisionar de perto a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesca com o &#8220;juqui\u00e1&#8221; ou &#8220;jequi&#8221; \u00e9 uma tecnologia desenvolvidas pelos ind\u00edgenas, mas na vila n\u00e3o era conhecida, quem trouxe a novidade foi o famoso tio Lino, que praticava esta modalidade quando solteiro no rio Soturno. Ele fez o juqui\u00e1 e passou detalhadamente a t\u00e9cnica para a gurizada de como arrumar as pedras de forma que a corredeira fosse se afunilando e terminasse numa abertura de um passo. Para pescar se usa uma t\u00e9cnica conhecida como &#8220;tropear os peixes&#8221; e fazer com que entrem no brete, o juqui\u00e1 que \u00e9 colocado no canal da corredeira. Tropear os peixes \u00e9 assust\u00e1-los para que tentem fugir rio abaixo e acabem presos na armadilha. A armadilha \u00e9 um cesto comprido, de uns dois ou tr\u00eas metros feita de taquara e cip\u00f3 com uma abertura numa ponta, assim esta ponta \u00e9 colocada na corredeira e os peixes tropeados entram nela e n\u00e3o conseguem voltar pela for\u00e7a da \u00e1gua, como tem frestas relativamente grandes s\u00f3 pega os maiores deixando os filhotes para irem se criando. &#8211; Al\u00e9m de tudo \u00e9 ecol\u00f3gica. &#8211; A\u00ed quando os tropeiros chegam se levanta a armadilha e se tira da \u00e1gua vai at\u00e9 o barranco e despeja os peixes no saco, no nosso caso era uma lata de querosene. Tropear, \u00e9 descer rio abaixo, a noite, com uma tocha acesa e fazendo muito barulho para assustar os peixes.<\/p>\n<p>Preparadas todas as corredeiras pela equipe, os do tio Lino foram pra casa buscar o artefato e os do tio Osvaldo foram preparar as coisas pra janta. A pescaria seria muito r\u00e1pida, o tempo que a tia levaria para fazer a polenta, rodeada dos menores, que protestavam por n\u00e3o poder participara da aventura, seria suficiente para passar pelos cinco pontos de captura. Al\u00e9m da piazada foram os dois adultos, Lino e Osvaldo, pois n\u00e3o era prudente deixar as crian\u00e7as fazer isso a noite sozinhos. O primeiro ponto perto da antiga tafona do seu Facin, teve uma aula de como colocar o juqui\u00e1 e fechar de pedras as laterais para que os peixes n\u00e3o escapassem, com o especialista, o Lino, a armadilha foi instalada com a tocha acesa para ficarem claros os detalhes. Eu fiquei cuidando o juqui\u00e1 e a turma subiu uns 50 metros rio acima e veio fazendo uma alauza de fazer inveja, barulho d&#8217;\u00e1gua, pedras batendo gritos e o clar\u00e3o da tocha. Resultado um bom punhado de peixes pegos e&#8230; vamos pro segundo ponto. Eu era muito fraquinho pra levar o Juqui\u00e1 sozinho por isso precisei de ajuda, o pr\u00f3ximo ponto ficava no inicio do grande po\u00e7o da curva onde a gente tomava banho. Armado o juqui\u00e1 gritamos pros tropeiros e l\u00e1 vieram eles com o cardume rio abaixo, levantado o artefato tinha uns dois quilogramas de peixe, a turma estava entusiasmada, at\u00e9 porque a pr\u00f3xima etapa prometia por ser abaixo do grande po\u00e7o.<br \/>\nO L\u00e9o foi at\u00e9 l\u00e1 com o equipamento, armou e gritou: &#8211; Venham! L\u00e1 \u00edamos n\u00f3s rio abaixo como uns loucos, mas&#8230; o po\u00e7o era fundo, dava acima do joelho, e a gente foi arremangando as cal\u00e7as at\u00e9 n\u00e3o dar mais. O mesmo foram fazendo os dois supervisores at\u00e9 que o Osvaldo arrepiou:<br \/>\n&#8211; Eu vou voltar.<br \/>\nO Lino respondeu:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o volta no escuro porque a tocha vai com n\u00f3is.<br \/>\nMeio apalpando o Osvaldo voltou e saiu do rio, o Lino continuou, s\u00f3 que a \u00e1gua em alguns pontos dava quase pela cintura, acabamos molhando a roupa, mas tudo fazia parte da aventura. No final da tropeada estavam o L\u00e9o e o tio Osvaldo esperando os peixes que\u00a0 de tantos muitos pulavam pela taipa de pedras, mas quando os dois levantaram o juqui\u00e1 a surpresa foi das mais agrad\u00e1veis, quase uma lata de peixes. Da\u00ed por diante s\u00f3 alegria, tinha ainda mais dois pontos e com eles terminamos de encher duas latas de peixes.<br \/>\nParamos pra descansar no finalzinho da v\u00e1rzea antes de voltarmos para casa para fritar os peixes e provar a polenta da tia Cacildes.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que aconteceu a parte mais divertida da noite.<br \/>\nEnquanto junt\u00e1vamos as tralhas de pesca e os peixes o pai (Lino) puxou o fac\u00e3o da cinta, ele sempre andava de fac\u00e3o, e falou:<br \/>\n<em>&#8211; Bem! Bem! Vao farme un cigro&#8230;<\/em> (vou fazer um cigarro), neste caso era um palheiro que se faz com um peda\u00e7o de fumo que \u00e9 picado na hora, com br\u00edtola, aquele canivete em forma de foice que os italianos usam, ou no caso com o fac\u00e3o, e enrolado numa palha de milho.<br \/>\nP\u00f4s a m\u00e3o no bolso pra pegar as palhas e o fumo e&#8230; estava tudo encharcado de \u00e1gua, o fumo virado numa massa golesmenta e grudenta.<br \/>\n<em>&#8211; Porca\u00a0<\/em><i>mis\u00e9ria<\/i>\u00a0&#8211; disse o fumante.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que o tio Osvaldo deu uma gargalhada que chegou a dar eco no perau.<br \/>\nAcho que esta foi uma das pescarias mais divertidas de minha vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele tempo&#8230; &#8211; Assim come\u00e7ava a leitura do evangelho na missa do padre Guilherme brabo, o alem\u00e3o, que veio rezar a missa da festa da gruta. 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