{"id":185,"date":"2019-04-16T16:19:13","date_gmt":"2019-04-16T19:19:13","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=185"},"modified":"2019-04-16T16:20:50","modified_gmt":"2019-04-16T19:20:50","slug":"colhendo-pinhao-de-caminhao-perdidos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=185","title":{"rendered":"Colhendo pinh\u00e3o de caminh\u00e3o &#8211; Perdidos"},"content":{"rendered":"<p>O m\u00eas de junho sempre reservava surpresas para a gurizada muitas atividades divertidas se faziam no inverno. Dentre as mais esperadas tinha a arranca\u00e7\u00e3o da mandioca, pelar cana e a faze\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e chimia, a feitura da farinha de mandioca, a lava\u00e7\u00e3o do polvilho (temas para escrever)&nbsp; e colher pinh\u00f5es no mato da tia Santina, atualmente dos Dalla Nora. Naquele ano foi especial acho que foi no ano de 1959 ou 60, especial porque naquele ano veio o Tio Jos\u00e9 rato de caminh\u00e3o, aproveitando as f\u00e9rias de junho, e trouxe o Evaldo e o Dirceu, e fomos todos juntos colher pinh\u00f5es. Foram juntos tamb\u00e9m o Catarino e, se n\u00e3o me engano, o Tarc\u00edsio e o Narciso do tio Gerv\u00e1sio, o L\u00e9o e eu, \u00e9 claro. Eu era o menorzinho, deixamos o caminh\u00e3o na estrada em cima da lomba pois n\u00e3o tinha arranque e fazer pegar no frio de manivela era dif\u00edcil, e l\u00e1 fomos n\u00f3s. Uns duzentos metros adiante de onde hoje \u00e9 a casa dos Dalla Nora tinha um pinheiro com forquilha, o \u00fanico que conheci, quase na borda do mato. Em poucos minutos os grandes, adultos entraram no mato e voltaram com cip\u00f3s e taquaras para envarar e subir.<\/p>\n<div id=\"attachment_197\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/aires.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-197\" class=\"size-thumbnail wp-image-197\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/aires-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\"><\/a><p id=\"caption-attachment-197\" class=\"wp-caption-text\">Esta foto do Caminh\u00e3o do tio Jos\u00e9 \u00e9 da \u00e9poca. Na cadeira o Aires, que era ainda muito pequeno e n\u00e3o participou da aventura.<\/p><\/div>\n<p>Envarar consiste em atar uma taquara com cip\u00f3 no tronco do pinheiro com ataduras a cada 60 ou 80 cent\u00edmetros de forma que os cip\u00f3s sirvam de apoio para um bast\u00e3o que serve de degrau e a taquara fica como um corrim\u00e3o \u00fanico que facilita a subida. Em poucos minutos o pai j\u00e1 estava l\u00e1 na copa derrubando pinhas com uma taquara. N\u00e3o tenho nem ideia de quantas pinhas foram derrubadas mas sei que dava um monte da minha altura, <em>provavelmente n\u00e3o era grande coisa pois eu era bem baixinho<\/em>. Terminada a derrubada um dos tis come\u00e7ou a quebrar as pinhas dando uma paulada em cada uma e depois n\u00f3s debulh\u00e1vamos e \u00edamos colocando os pinh\u00f5es no saco. Os adultos foram mato adentro procurar outros pinheiros e n\u00f3s ficamos debulhado. Apesar de pequenos t\u00ednhamos pr\u00e1tica de debulhar milho e o trabalho terminou rapidinho, foi a\u00ed que tivemos a ideia de procurar os adultos. Eles entraram no mato e seguiram a dire\u00e7\u00e3o leste, n\u00f3s entramos no mesmo lugar mas pegamos o rumo norte, enquanto eles percorrendo uns trezentos metros atravessavam o mato n\u00f3s fizemos mais de um quilometro mato afora e n\u00e3o os encontramos. Depois de algumas horas de caminhada achamos o outro lado do mato enquanto isso&#8230;<br \/>\n&#8211; Algu\u00e9m busca um saco vazio que este t\u00e1 carregado &#8211; foi o grito que se ouviu de cima do pinheiro.<br \/>\nO tio Luiz voltou e achou os pinh\u00f5es ensacados, os sacos vazios mas cad\u00ea as crian\u00e7as?<br \/>\nVoltou desesperado que as crian\u00e7as tinham se perdido no mato.<\/p>\n<p>Se dividiram de dois em dois e sa\u00edram a nossa procura, esqueceram os pinheiros, pinhas e pinh\u00f5es, era preciso achar as crian\u00e7as. E come\u00e7aram a vasculhar o mato. Umas duas horas de busca e nada.<\/p>\n<p>Neste meio tempo o grupo dos pequenos saia do outro lado do mato ao norte bem longe do ponto de entrada. N\u00e3o muito longe tinha uma casa desconhecida dos meninos, mas era preciso criar coragem e chegar para pedir informa\u00e7\u00f5es, e assim foi feito.<br \/>\nPrimeiro batemos palmas em quantia logo depois apareceu uma senhora:<br \/>\n-Boa tarde,<em>cosa vuto<\/em>?- pediu a senhora.<br \/>\n&#8211; Acho que estamos perdidos &#8211; explicou o Catarino, ela n\u00e3o entendeu nada.<br \/>\nN\u00f3s n\u00e3o conhec\u00edamos a senhora e est\u00e1vamos muito intimidados at\u00e9 que saiu do galp\u00e3o um senhor sorridente que veio pro nosso lado perguntando:<br \/>\n&#8211; Como chegaram aqui <em>tutti soli<\/em>?<br \/>\nEra o seu Luiz Marion, ele conhecia alguns de n\u00f3s e em especial o Catarino que sempre estava la pelo moinho quando ele levava o milho para a moagem.<br \/>\nTentamos explicar que a gente tinha se perdido no mato enquanto estava procurando os tios que foram derrubar pinhas. Neste meio tempo apareceu um gurizote curioso que ficou nos observando e dentro de alguns minutos a senhora voltou:<br \/>\n&#8211; <em>Luiiiigi mi cato que lori ga fame. <\/em>(Luiz eu acho que eles est\u00e3o com fome) &#8211; Pelo sim pelo n\u00e3o ele concordou e nos fez entrar na cozinha onde tinha uma mesa cheia com bolachas e ch\u00e1 de mate com leite.<br \/>\nAt\u00e9 a\u00ed tudo estava saindo melhor que a encomenda, n\u00f3s nem pens\u00e1vamos em um lanche e est\u00e1vamos tomando um &#8220;ch\u00e1 das quatro&#8221; ao estilo da nona Rosa. Enquanto isso o seu Luiz mandou o Tch\u00e9o, o filho, atrelar os cavalos na carro\u00e7a para nos levar de volta pra casa, ou melhor para o caminh\u00e3o. Mais alguns minutos e est\u00e1vamos de barriga cheia e fazendo a maior algazarra na carro\u00e7a com o Tch\u00e9o. A gente ia fazendo piruetas para ver a sombra projetada no barranco da estrada.<\/p>\n<p>O sol j\u00e1 se punha no horizonte deixando as sombras compridas e dentro de poucos instantes ia escurecer. O bando de crian\u00e7as capitaneados pelo Catarino que tinha ent\u00e3o uns 13 ou 14 anos ficaria a merc\u00ea das feras noturnas, jaguatiricas, graxains, cobras, morcegos, corujas, meu Deus ser\u00e1 que v\u00e3o sobreviver? De noite n\u00e3o tem como procurar, eles devem estar famintos e desarmados. Com exce\u00e7\u00e3o do tio Miro todos tinham filhos no grupo e o desespero come\u00e7ou a tomar conta dos grandes.<br \/>\nMais alguns minutos e n\u00e3o seria mais poss\u00edvel procurar, a escurid\u00e3o tomaria conta.<\/p>\n<p>Felizmente ainda estava claro quando chegamos ao caminh\u00e3o e ent\u00e3o, capitaneados pelo Tch\u00e9o, fomos ao encontro dos adultos, primeiro encontramos o tio Miro e o tio Jos\u00e9, que voltavam ao caminh\u00e3o na esperan\u00e7a de fazer pegar e buzinar muito para nos atrair. Fizeram a gente ficar na carroceria do caminh\u00e3o enquanto iam procurar os outros, neste meio tempo dispensaram o carroceiro para voltar pra casa e se foram aos gritos tentando atrair os demais adultos.<\/p>\n<p>O sol se p\u00f4s e come\u00e7ou a esfriar muito, felizmente n\u00e3o demoraram os adultos a chegar j\u00e1 aliviados apesar de terem colhido uma pequena quantia de pinh\u00f5es. Mas a\u00ed \u00e9 que come\u00e7ou a verdadeira hist\u00f3ria ou pelo menos a parte que para n\u00f3s foi a mais divertida.<\/p>\n<p>O caminh\u00e3o tinha ficado na lombinha saindo da Vila em dire\u00e7\u00e3o a Esquina (Boa Vista) um pouco antes da casa do seu Ant\u00f4nio Santi. Como a partida era \u00e0 manivela n\u00e3o dava pra arriscar depender s\u00f3 dela em dia frio, e assim foi feito. O tio Jos\u00e9 fez o contato e come\u00e7aram um a um os adultos a dar manivela, mas o motos s\u00f3 fazia <em>vru<\/em> e parava. A segunda op\u00e7\u00e3o de arranque era fazer pegar no tranco lomba abaixo, era s\u00f3 dar um empurr\u00e3ozinho, pular na carroceria e aguardar o tio soltar a embreagem para o motor pegar. Ai tudo mudou de figura, os adultos empurraram e pularam na carroceria, o caminh\u00e3o pegou velocidade e depois de um tranco ouvimos <em>vru, vruuuuuuuu, p\u00f3f p\u00f3ff <\/em>chegamos ao fim da ladeira e o motor n\u00e3o pegou. Mais umas tentativas de manivela e a decis\u00e3o unanime empurrar de volta lomba acima o caminh\u00e3o para nova tentativa. As crian\u00e7as teriam que descer para aliviar o peso, descemos e fomos a p\u00e9 lomba acima, com a certeza que descer\u00edamos a lomba novamente. N\u00e3o deu outra, embarcamos no caminh\u00e3o que agora estava freado j\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de descer sem o empurr\u00e3ozinho, e na maior algazarra descemos a lomba de novo, o barulho era tanto que nem conseguimos ouvir o<em> vrrrrruuuuuu p\u00f3f p\u00f3f<\/em> de novo, s\u00f3 nos demos conta quando nos mandaram descer de novo para repetir a opera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8230; E repetir a opera\u00e7\u00e3o&#8230; &#8230; E repetir a opera\u00e7\u00e3o&#8230; &#8230; E repetir a opera\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o sei quantas vezes at\u00e9 que o <em>vrruu <\/em>ficou permanente e o caminh\u00e3o abriu os olhos (acendeu as luzes) pois j\u00e1 era noite.<br \/>\nA\u00ed o tio manobrou, e voltamos pela picada, que tinha fama de mal assombrada, da qual tenho que contar algumas hist\u00f3rias. Finalmente chegamos em casa j\u00e1 na hora da polenta&#8230;<\/p>\n<p>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00eas de junho sempre reservava surpresas para a gurizada muitas atividades divertidas se faziam no inverno. 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