{"id":161,"date":"2018-04-11T19:14:14","date_gmt":"2018-04-11T19:14:14","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=161"},"modified":"2018-04-11T20:10:40","modified_gmt":"2018-04-11T20:10:40","slug":"maos-magicas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/?p=161","title":{"rendered":"M\u00e3os m\u00e1gicas"},"content":{"rendered":"<p>Janeiro j\u00e1 estava quase findando, como todos os anos, eu e a minha fam\u00edlia est\u00e1vamos perambulando de casa em casa em Jaboticaba e na Vila Trentin. Porque perambular? &#8211; diriam alguns &#8211; Muito simples &#8211; responderia eu. Porque temos pouco tempo e queremos dar pelo menos uma passadinha em casa de cada tio.<\/p>\n<p>Este costume de visitar os mais velhos j\u00e1 vem de alguns anos, esta pr\u00e1tica refor\u00e7a o conte\u00fado da mem\u00f3ria, reaviva hist\u00f3rias e cria link novos, desta forma me mantenho ligado ao passado que me constituiu como pessoa. E o melhor, muitas vezes alguma hist\u00f3ria ouvida de um ancestral reaviva imagens esquecidas no c\u00e9rebro recriando um caminho de aceso a mem\u00f3rias perdidas, n\u00e3o poucas vezes alguma palavra foi capaz de trazer de volta bel\u00edssimas hist\u00f3rias perdidas nos labirintos da mem\u00f3ria. Outras vezes a gra\u00e7a e a riqueza de detalhes de uma hist\u00f3ria possibilitam compreender as pr\u00e1ticas e os pequenos milagres das tecnologias ancestrais ou retomar pr\u00e1ticas perdidas no tempo.<\/p>\n<p>Um dia destes eu queria aprender como se fazem as tran\u00e7as de palha de trigo, n\u00e3o s\u00f3 aquelas tradicionais, mas tamb\u00e9m aquelas de bico que se colocavam na borda do chap\u00e9u como enfeite. Quem era a professora? A tia Angelina. J\u00e1 passados de longe os 80, fala mansa mas muito animada, ela ia mostrando passo a passo como se faz cada tipo de tran\u00e7a enquanto a Lic\u00e9ia com a c\u00e2mara ia registrando os detalhes em v\u00eddeo. Eu feito um babaca escutava as hist\u00f3rias que flu\u00edam da sua boca. As m\u00e3os \u00e1geis tran\u00e7avam freneticamente, mas com precis\u00e3o, de quando em quando ela olhava para a Lic\u00e9ia e explicava algum detalhe da tran\u00e7a e depois, sem olhar o que as m\u00e3os faziam, continuava a me encantar com suas palavras. Era muito dif\u00edcil de compreender como aquelas m\u00e3os funcionavam de forma m\u00e1gica\u00a0enquanto a boca me contava as hist\u00f3rias de parteira, j\u00e1 passados cinquenta anos ou mais dos eventos relatados.<\/p>\n<p>Eu nunca estive na casa do tio Garibaldi e da tia Angelina, ela visitava, as vezes, o vov\u00f4 Bortolo, no entanto todas as vezes que a gente ia visitar o tio Aquiles, ou ia no Mario Schiavinato via a casa do outro lado do vale um pouco acima da do Jo\u00e3o Aires. Esta foi a refer\u00eancia que sobrou em minha mem\u00f3ria. Depois fiquei muitos anos fora, teve at\u00e9 um tempo que o Dega foi colega de semin\u00e1rio mas isto passou e finalmente, j\u00e1 com minha fam\u00edlia um pouco crescida comecei a voltar \u00e0s ra\u00edzes e cada vez que ia para a vila de f\u00e9rias ou mesmo num passeio de fim de semana fazia quest\u00e3o de visitar os tios e tias mais velhos para ouvir um pouco do passado e tentar descobrir alguma imagem que estava adormecida nos por\u00f5es empoeirados do c\u00e9rebro. Assim foi naquele fim de ver\u00e3o de 2004, se n\u00e3o me engano. Eu estava como aquele que tenta chupar cana e assobiar ao mesmo tempo.<\/p>\n<div id=\"attachment_164\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/trentin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-164\" class=\"wp-image-164 size-thumbnail\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/trentin\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/trentin-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-164\" class=\"wp-caption-text\">Eu sei que ela est\u00e1 nesta foto, mas n\u00e3o saberia identific\u00e1-la<\/p><\/div>\n<p>Um par de m\u00e3os me encantavam com a precis\u00e3o dos movimentos ritmados na confec\u00e7\u00e3o da tran\u00e7a, de quando em quando uma palha nova ia at\u00e9 a boca para ser umedecida e entrava no ritmo do trabalho. A boca ia desfilando hist\u00f3rias das andan\u00e7as de parteira pela regi\u00e3o quando de repente uma frase marcou, o ritmo mudou.<br \/>\n<em>&#8211; Nunca uma crian\u00e7a faleceu em munhas m\u00e3os, \u00e9 claro que fiz partos de crian\u00e7as que j\u00e1 estavam mortas, mas as vivas vieram ao mundo vivas.<\/em><br \/>\nA Catia que ouvia tudo encantada, como eu, n\u00e3o resistiu uma pergunta:<br \/>\n<em>&#8211; Mas&#8230; houve algum parto onde a senhora realmente teve medo de n\u00e3o conseguir?\u00a0<\/em><br \/>\n<em>&#8211; Sim! Eu tinha ficado dois dias fora de casa atendendo partos pras bandas do Rodeio Bonito. J\u00e1 bastante cansada e sem dormir estava chegando em casa mais cansada que o cavalo, que me carregava por tudo e que estava quase dois dias sem parar. Quando vi a casa estava o Garibaldi e um outro homem me esperando com dois cavalos selados. Passou um filme pela minha cabe\u00e7a, n\u00e3o era a primeira vez que eu chegava e tinha que sair imediatamente para atender outra parturiente, s\u00f3\u00a0tomava um banho, comia alguma coisa e saia de novo. Quando parei o cavalo na frente de casa o Garibaldi chegou e disse:\u00a0&#8211; Troca de cavalo que o teu deve estar cansado, \u00e9 um caso urgente, a dona esta em trabalho de parto desde ontem \u00e1 noite. &#8211; Eles tinham preparado um lanche de p\u00e3o e salame para que eu pudesse comer durante a viagem. Sa\u00edmos\u00a0imediatamente nem vi os filhos, na \u00e9poca tinha dois. O pai da crian\u00e7a que me acompanhava chorava, mas com a voz entrecortada foi me contando a situa\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e tinha as contra\u00e7\u00f5es, parecia tudo normal mas a crian\u00e7a estava fora de posi\u00e7\u00e3o, vinha nascendo sentada. Uma vizinha tentou ajudar mas n\u00e3o tinha pr\u00e1tica, a\u00ed ela ficou cuidando da m\u00e3e enquanto o pai foi buscar recurso, a casa deles ficava perto do Varej\u00e3o, uns vinte quil\u00f4metros\u00a0quase. Ouvindo a hist\u00f3ria insisti que dever\u00edamos\u00a0apressar os cavalos pois cada minuto \u00e9 precioso num parto. J\u00e1 caia a tarde quando chegamos, a m\u00e3e estava quase desfalecida e a vizinha apavorada. Examinei a crian\u00e7a e ainda estava viva, mas a \u00e1gua da bolsa tinha sa\u00eddo\u00a0toda, um parto seco com a crian\u00e7a na posi\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, imagine com a crian\u00e7a sentada, pedi banha morninha para lubrificar e tentei ajeitar a crian\u00e7a, n\u00e3o tinha como, ela estava encaixada demais. &#8211; Rezei. Rezei\u00a0 muito para ter uma luz. Com muito jeito consegui enroscar meus dedos m\u00e9dios na virilha do nen\u00ea, mas n\u00e3o tinha for\u00e7a para puxar. Pedi ajuda para o pai da crian\u00e7a que me segurou por baixo dos bra\u00e7os para ajudar no esfor\u00e7o, enquanto a vizinha segurava a m\u00e3e, foram uns minutos eternos, consegui retirar o corpo e ai vinha a pior parte, tinha que tirar a cabe\u00e7a sem puxar, pois corria o risco de desnucar a crian\u00e7a, e se demorasse ia faltar oxig\u00eanio\u00a0pois o cord\u00e3o\u00a0umbilical\u00a0estava esmagado. Felizmente tenho os dedos compridos e finos s\u00f3 que algo estava errado com minha m\u00e3o esquerda, no esfor\u00e7o tinha quebrado o dedo m\u00e9dio. Mas naquela hora n\u00e3o tinha tempo para para a dor tinha que salvar aquela crian\u00e7a. Mais alguns minutos o gurizinho chorou! Felizmente n\u00e3o era uma crian\u00e7a muito grande e a m\u00e3e era corpulenta o que ajudou muito. Terminado o parto ca\u00ed exausta quase desmaiada como a m\u00e3e, felizmente outras pessoas fizeram o resto do trabalho. Este foi um parto dos que eu chamo dif\u00edcil &#8211; arrematou ela.<\/em><\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o reparei melhor nas m\u00e3os que n\u00e3o tinham parado de tran\u00e7ar palhas o dedo dedo torto das m\u00e3os m\u00e1gicas continuava l\u00e1 agora fazendo uma magia muito mais simples, tecendo palha para encantar os olhos de um sobrinho-neto e sua filha que queriam aprender a fazer\u00a0 chap\u00e9us de palha.<\/p>\n<p>Tenho o v\u00eddeo da cena, mas est\u00e1 em fita magn\u00e9tica, pode ser que um dia destes eu digitalize.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janeiro j\u00e1 estava quase findando, como todos os anos, eu e a minha fam\u00edlia est\u00e1vamos perambulando de casa em casa em Jaboticaba e na Vila Trentin. Porque perambular? &#8211; diriam alguns &#8211; Muito simples &#8211; responderia eu. 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