A tia malvada

Desde a mais tenra infância começamos a classificar as pessoas de acordo com o que elas representam na nossa vida.

Em 1955 minha compreensão de mundo era ainda bastante limitada, há pouco tinha terminado a época de fazer açúcar, acho que era no mês de agosto porque muitas árvores ainda estavam desfolhadas, eu tinha então um ano e seis ou sete meses. A tia Mími, que não era má, estava fazendo carrinhos para as crianças, Léo, Bena, Zeca da tia Rosa, Zeca do tio Luís e outros que não lembro, todos maiores que eu evidentemente, e eu estava enchendo o saco que também queria um. Os ditos carrinhos eram confeccionados com latas de sardinha, rodinhas de carretel cortado ao meio e um eixinho mais ou menos da grossura de um lápis que atravessava a latinha e ligava as rodas. Eu já disse que eu queria um também, mas acho que a tia não estava muito afim de fazer o meu, ela estava fazendo para os maiores primeiro então como desculpa para a demora do meu foi que ela não tinha madeira para o eixinho.

Desde esta época eu já tinha disposição para resolver meus próprios problemas, e é claro, também sempre estive pronto para ajudar, ainda mais quando era para ajudar a fazer meu carrinho de lata de sardinha. Como não tinha eixo a saída era procurar o material, fui então até agaveta dos talheres da cozinha da vó e peguei uma faca de mesa, daquelas com cabo metálico de ponta redonda e bem pesada, pelo menos para meu tamanho era pesada, e fui a cata do material.

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as  tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Saí entre o galpão e os fundos do moinho, passei pelo galpãozinho dos tachos, pelo engenho de moer cana e encontrei uma árvore com as características desejadas atrás do engenho (serraria) perto da passagem de levar a serragem pro outro lado da valeta. A árvore que eu estava tentando cortar, não lembro muito bem só que estava sem folhas. Ao lado de uma pata de vaca que tinha folhas…

… a cena termina aqui. De agora em diante é o que me contaram…

Um dos filhos do tio Antônio que estava na serraria me ouviu gritar e foi em meu socorro, eu fora picado por um bicho venenoso. Me levaram para casa e me acudiram com as poções mágicas que o vovô Bôrtolo sabia muito bem preparar e foram procurar o animal que tinha me picado. Acharam nas imediações um escorpião que foi o acusado da tragédia. Fui medicado e graças aos cuidados com as ervas e misturas milagrosas sobrevivi, apesar de dizerem que um escorpião é capaz de matar uma criança do meu tamanho.

… passaram mais alguns dias e minha memória está de volta…

Estou no colo da nona Rosa, minha bisavó, que fazia questão de andar pra lá e pra cá comigo no colo. Eu não consigo dormir por causa da dor no polegar direito, enormemente inchado. Não bastasse a dor, meu polegar era a minha chupeta e eu até que queria chupar o dedo mas…

A tia malvada, a tia Dona, com a cara mais séria do mundo me alertava.

  • Se tu chupar este dedo envenenado vai morrer.

Eu não tinha nem ideia do que significava morrer, mas certamente seria algo bem pior do que a picada do escorpião. Só sei que foi o meu grande trauma de infância, o medo de morrer e assim cumprir a profecia da tia malvada.

O tempo passou, a tia foi pro Castelinho para ser professora e só deixou de ser malvada quando emprestou o livro manuscrito “Pavão misterioso” uma de minhas primeiras leituras de infância. Depois ela casou e ficou definitivamente morando por lá, vantagem pra tia Mími que continuou sendo a babá da criançada.

Oba nheiro!

Oba nheiro! (Isso mesmo, finalmente um lugar reservado para o banho)

Já falei anteriormente do canal (valeta) que trazia água do lajeado do Moinho desde a Olaria do tio Atílio Zanon, depois do João Roberval, depois do tio Gervásio… e foi passando de mãos, até a Caixa d’água de onde descia em duto de alta pressão (cano) até a usina. Também falei que ela cercava o arvoredo e a horta, dos quais falarei qualquer dia, e tinha umas passagens para pedestres, mas tinha também uma ponte por onde podia se passar de carroça, ficava exatamente onde agora passa o caminho que leva à gruta.

Voltemos atrás na Rua Ipiranga, naquela época rua principal, a única da vila. Partiremos da curva à direita. Onde agora tem a carpintaria tinha a cancha de toras, local onde ficavam as toras de madeira para serrar, à esquerda onde tem a jabuticabeira (conheci ela pequeninha), era o pomar do vô. Um pouco mais a frente ficavam, a esquerda o moinho e a direita a serraria, no inicio tinha duas: a dos Manfio e a dos Trentin, mais tarde ficou só a dos Trentin. Alguns anos depois no lugar da dos Manfio foi construída a oficina que queimou. Descendo à esquerda antes do moinho chegava-se ao terreiro das casas, a primeira da esquerda era a do nono Serafim e da nona Rosa, depois vinha o casarão que tinha a grande sala e os quartos de diversas famílias, a nossa também, e as tias dormiam no sótão, finalmente tinha a casa da vovó com biblioteca, o quarto deles, a sala e a cozinha comunitárias. Aí tinha um caminho que atravessava a valeta até o chiqueiro dos porcos. A direita do caminho atrás do moinho e a esquerda da “estrada da gruta”, como chamávamos, ficava o galpão. Do outro lado da estrada da gruta ainda antes da valeta ficava o coberto, apenas um telhado, dos tachos de fazer açúcar. Um pouco mais adiante, já atrás do “engenho” – serraria – tinha o “torchio” de ferro que servia a quase toda a comunidade. Acho que terei que fazer um mapa disso, pois vai voltar muitas vezes.
Passando a valeta em direção à gruta tinha à esquerda o chiqueiro dos porcos, depois os pés de araticum, à direita, num nível bem mais abaixo, ficava a casa do tanque de lavar roupa e o banheiro. Uma canaleta de madeira a bica, saia da valeta e jogava água no tanque, um caixotão de madeira com tábuas enormes dos dois lados onde podiam lavar roupas umas seis pessoas, três de cada lado. Como o tanque era alto podia-se lavar roupa de pé, posição ergonomicamente muito mais confortável do que de joelhos no lavador do rio. Voltarei mais tarde a falar deste local que também protagonizou muitas histórias.
O assunto de hoje é o banheiro, um quartinho fechado que tinha passando o tanque, fazendo parte do mesmo edifício, eu disse edifício, mas deveria dizer é difícil. Quando alguém queria tomar banho era só encaixar um prolongamento na bica do tanque e a água passava a jorrar dentro do banheiro, água fria é claro, mas com o conforto de ser um edifício fechado. O que mais me arrepiava era ter que tomar banho frio, o que acontecia seguidamente, pois éramos um tanto ativos e isso incluía brincar na serragem, na água do rio, no ladrão (comporta de nivelamento e alívio de excesso de água), nos matos, na cancha de toras e no potreiro. Hoje quase não tenho folego para narrar tudo isso, imaginem na época fazer.
O tanque era o lugar das tias, filhas do vô Bortolo, e das primas delas, filhas do tio Antônio, se reunirem para lavar roupas e contar histórias, alguns maldosos diriam fofocar. De uma forma ou de outra era um lugar de socializar conhecimentos e descobertas. Segunda-feira era o dia de lavar roupa por excelência, pois após o domingo de festa, jogo de prenda, futebol ou outra atividade sempre tinha o que falar, digo sempre tinha roupa para lavar. Mas não era só roupa que se lavava no tanque, antes do almoço lavávamos as mãos na bica do tanque.
Depois a criançada toda ia para a casa da vó onde o almoço esperava. Almoçávamos sempre separados dos adultos e quem nos cuidava era a nona Rosa. Dos almoços não tenho muitas lembranças, mas lembro do café da manhã muito bem, chá-de-mate com leite, pão e chimia, e a nona como um general a comandar “- bevi matto” (tomem o chá-de-mate). Às vezes o vô Bortolo passava e se alguém derrubasse o pão ele logo fazia uma previsão, se o pão caísse com a chimia para baixo o derrubador ia ser pobre, pois “o pão do pobre sempre cai com a manteiga para baixo.”
O vô Bortolo tomava o seu chá-de-mate numa baita xícara, até parecia uma sopeira, com pão torrado, eu achava aquilo o máximo, mas nós nunca ganhávamos pão torrado.
Depois do café o nosso trabalho era brincar o dia inteiro, exceto quando tinha algum trabalho especial para fazer como juntar feijões, esta será a próxima história, eu acho…

Banho de rio

Lá pelos idos de 1957, na Vila Trentin, já tinha energia elétrica, mas ter água encanada ainda não era uma realidade. Há pouco fora cavado o poço que aliviou o trabalho de transporte da água desde a fonte, as caminhadas com baldes foram substituídas pelo girar da manivela do poço. A água para consumo e limpeza estava muito mais fácil, no entanto o banho ainda continuava complicado, era banho de bacia. Para lavar a roupa tinha o rio, com abundância de água, era só procurar um bom lugar para o lavador e pronto. O lugar, no lajeado do Moinho, era acima do passo do seu Facin (Fassini).

O caminho que saía entre a casa da nona e o casarão tinha uma ponte sobre a valeta que levava até o passo (lugar onde o arroio do Moinho podia se atravessado a pé) para ir até o seu Facin. Um pouco acima no arroio tinha um lajeado onde o arroio corria numa camada de água quase laminar que funcionava como um escorregador (hoje chamam isso de toboágua) só que este era proibido para as crianças porque terminava no poço do lavador de roupas, que diziam não ter fundo e ser muito perigoso. Lá sempre tinha um lavador de roupas que servia à comunidade antes de ser feito o tanque comunitário.

Era neste lugar que brincávamos enquanto a mãe ou alguma tia lavavam roupas. Passávamos muito tempo brincando lá, quando vinha a tia Rosa, vinham a Quida, a Zeca e a Meri e “nós” fazíamos companhia. Nós, aqui se refere à tia Mími, às vezes o Catarino, o Leo e eu. Quando vinha a tia Irene as companhias mudavam eram a Bena, a Zeca do tio Luís e o Selito. Às vezes vinha também o Narciso, a Maria Terezinha e a Erotildes, mas as presenças constantes eram a tia Mími, o Leo e eu. Como a gente brincava com a roupa, terminávamos o dia imundos, não raro no final da lavagem de roupa a mãe aproveitava para lavar a roupa molhada e dar banho na gurizada, arrematando o trabalho do dia. Quando não tinha roupa seca tocava os peladinhos pra casa onde eram vestidos.

Eu era um minguadinho curioso que estava sempre enchendo o saco de todo mundo, minha parceira preferida de artes era a Mariazinha, pois tínhamos praticamente a mesma idade e sempre dependíamos de algum dos maiores para participar das brincadeiras.

Cachoeira do moinho

Esta é a Cachoeira do Moinho, enumerada como a primeira da série, cai diretamente dentro de um poço circular de aproximadamente 2 metros de diâmetro e uns 70 cm de profundidade, observem a esquerda da cachoeira a pedra molhada com pouca água, com rio cheio era nosso toboagua.

Se tivesse algum dos maiores para fazer companhia, íamos escorregar na corredeira abaixo do poço do lavador, que descia ao lado da cachoeira do moinho. Lembro que tinha uma enorme madeira (enorme para meus padrões da época), encravada no barranco do rio, fazia parte da estrutura de suporte da roda d’água do antigo moinho, onde o vovô morou nos primeiros anos quando chegou. Quando tinha mais água era uma maravilha escorregar por aquela corredeira. E não tinha perigo de cair em nenhum poço sem fundo, pois ela terminava numa parte plana e rasa do rio.

Quando tinha menos água somente corria pela cachoeira e caia diretamente dentro do poço redondo que nestes casos era incrivelmente divertido brincar nele, pois não era fundo e tinha acachoeira que caia como um chuveiro. Os tios e o pai gostavam de tomar banho neste poço porque era bem prático. Uma banheira com um chuveiro natural, todo esculpido em rocha basáltica, limpinho, sem depósito de terra e sem limo. Já as tias e a mãe não usavam esta facilidade porque ficava muito exposto, era perto do passo e num lugar aberto. Como convinha na época elas usavam o poço e a cachoeira do perau.

É exatamente disso que falarei hoje, concordo que deveria ser muito chato passar a vida toda tomando banho de bacia e por isso, às vezes, a mãe e as tias iam banhar-se no rio, muito bem escondidas, é claro. No entanto um curioso – o bichinho carpinteiro – eu, quando tinha uns três ou quatro anos resolvi ir atrás do grupo que ia para o rio.
Eu não ficava sem companhia feminina, ou ficava com a tia Mími, com a nona ou com a mãe, naquele dia saíram todas e eu não encontrei a nona então resolvi segui-las. Apesar dos protestos, e de elas terem me corrido umas duas ou três vezes, esperei um pouco e fui atrás, elas tinham descido em direção ao seu Facin, fui naquela mesma direção e logo ouvi a algazarra, vindo da direção do poço do perau, era bastante perigoso chegar até lá, como a mãe havia dito – Vamos para um lugar perigoso demais para ti. Eu adorava brincar na água, mas já sabia o significado da palavra “perigoso”.

Cachoeira do perau

Cachoeira e poço do perau, vista de baixo. Esta é a segunda cachoeira do lajeado.

O caminho era bem conhecido, como descer rio abaixo, a partir do passo até chegar ao trecho plano que antecedia a dita cachoeira, lá não brincávamos porque era muito alta. Não lembro como cheguei até a parte de cima da cachoeira do perau, quando me aproximei o suficiente para ver as cabeças delas a mãe me viu e já gritou:
– Para! Não chegue mais perto que é perigoso.
Não me aproximei muito porque a tia Dona me alertou que se eu chegasse mais perto poderia cair e morrer, como morrer para mim significava algo pior do que picada de escorpião e eu nem queria pensar nisso, fiquei chorando lá em cima. Esperei o tempo todo do banho delas até que elas começaram subir a cachoeira e voltar para casa. Então a tia Mími me pegou pela mão e me levou para casa.

poço do perau

Poço do perau, visto de cima da cachoeira. Fotomontagem a partir de várias fotos em computador. Ao fundo onde parece que termina o rio começa a cachoeira dos degraus. Estas três cachoeiras, ficam acima do poço das corvetas e são desconhecidas da maioria dos visitantes da gruta.

Para mim o rio e a água sempre representaram um lugar de brincadeira, embora tenha passado episódios de minha vida onde ela significou perigo, que narrarei qualquer dia. Depois desse episódio, por muitos anos ainda, o banho de rio para se lavar era uma DSC05825abrincadeira de adultos que iam para o rio com sabão e toalha. Somente muitos anos depois, passei a compreender a facilidade que o rio representava, e suas vantagens com relação ao banho de bacia. Muita água vai rolar por estas páginas até antes de esgotar as minhas histórias.

Taquara furada

Muito antes de começarem as importações de bambus lisos, do Oriente, aqui no Rio Grande só tinha os da família das taquaras. Muito comum nos capões e matos do Alto Uruguai eram as Merostachys clausseni – Taquara-mansa, que era ótima para fazer flautas e cestaria por ter a parede dos tubos fina e uniforme, com pouca conicidade no tronco e a Guadua Trinii ou Guadua Tagoara – Taquara-brava, Taquaruçu ou Taquara de espinhos, esta última com as paredes dos tubos mais grossa e apresentando uma maior conicidade no tronco. Ambas têm as paredes bastante ásperas que obriga o artesão a raspar a superfície para fazer trabalhos com melhor acabamento. Outras taquaras nativas também usadas para cestaria eram as criciúmas ou taquaris que apresentam caules bem finos e praticamente maciços.
Apesar de o assunto ser taquaras não é especificamente delas que quero falar hoje, e sim da tecnologia moderna. Atualmente se encontram no mercado inúmeras opções de canos e mangueiras para condução de água, voltemos algum tempo na história e descobriremos os mais primitivos e estranhos objetos usados com a mesma finalidade, folhas de inhames e taiobas, porongos ou cabaças, sacos de couro e balde de madeira dentre algumas das tecnologias usadas desde a época das cavernas, instrumentos para carregar água de um lugar para outro em pequenas quantidades. Já na época do império Romano se destacaram os canais que desviavam verdadeiros rios seguindo curvas de nível e os aquedutos para ligar os canais em nível acima do solo. Estes sistemas permitiam disponibilizar água corrente em lugares mais altos, naturalmente sempre que estivesse disponível uma fonte mais alta. Alguns mecanismos foram desenvolvidos na China e por outros povos orientais para elevar água, em quantidades razoáveis que depois seguiam por canais e aquedutos até seus destinos. Leonardo da Vincci foi grande arquiteto de represas, túneis, canais e aquedutos para irrigação e para disponibilizar água em cidades italianas. Tudo isto eu só descobri muitos anos mais tarde.
Até meus sete anos o que eu conhecia de sistemas hídricos eram os canais (valetas) que conduziam água dos lajeados do Moinho e do Papagaio até a caixa d’água da usina, daí a água descia 40 metros num cano, quase vertical, chegando à usina com altíssima pressão gerando a força para o dínamo. Até aí tudo se comportava logicamente, a água descia pela gravidade ou era conduzida onde fosse necessário sempre seguindo um caminho, do mais alto para o mais baixo, seguido curvas de nível levemente descendentes, no entanto uma coisa me intrigava lá na casa do tio Osvaldo.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão. Em primeiro plano as casas da vila. No meio do mato a churrasqueira da gruta.

A casa ficava uns cinquenta metros abaixo da fonte, que fica atrás da casa atual. Devido à permeabilidade do solo a água da fonte não corria muito e entrava na terra de novo, o que obrigava a buscar água de balde na fonte, como acontecia lá na casa do vovô. Mas lá tinha uma vantagem, a fonte ficava num nível acima da casa, o que possibilitava o transporte por dutos impermeáveis como o cano da usina em menores proporções, é claro. O cano da usina era feito em sua maior parte de sarrafos de madeira, como são feitas as pipas e barris, amarrados por arcos de ferro aparafusados a cada metro no início, e a cada 30 centímetros no final onde a pressão era maior, finalmente um trecho era de ferro para suportar a pressão de 568 libras por polegada ou 40 Kgf por centímetro. Lá no tio Osvaldo não precisava tanta sofisticação, a solução estava nos matos que precisavam ser roçados.
Como os matos eram cheios de taquara, em especial a taquara de espinho ou taquaruçu e estes eram ocos, ficava muito fácil transformá-los em canos para a água, bastava furar os nós. Foi assim que o tio Osvaldo com um trado grande de uns três ou quatro metros de comprimento foi furando os nós das taquaras, uma a uma, para transportar o líquido precioso da fonte até o tanque de lavar roupas ao lado da casa. Funcionava que é uma beleza até a conicidade das taquaras ajudava facilitando o encaixe de uma ponta na outra.

A água e seus comportamentos não me eram estranhos, pois crescemos brincando nos canais, nas comportas de escape e nivelamento, os ladrões, onde montávamos nossos moinhos e na bica do tanque de lavar roupas. Outras vezes estávamos dentro do rio subindo cascatas ou mergulhando nos poços. Nada me era estranho a não ser quando a tia Cacildes pegava um cano, taquara furada, e encostava a ponta naquela que despejava água no tanque, e a água subia do tanque até o secchiaro¹, onde ela lavava a louça com água corrente. O que mais me impressionava não era o fato de lavar louça com água corrente e sim o fato da água subir do tanque até o secchiaro. Confesso que levei muitos anos para entender o que se passava… Acho que terei que fazer um capítulo especial sobre como construí meus conhecimentos.

Secchiaro – Nome em italiano do lugar onde se colocam os baldes, secchios. Espécie de gamela de madeira onde se lavava os pratos, em geral tinha um furo num dos cantos com um canudo de taquara que saia para fora para escoar a água usada, para fechar esta saída de água se usava um torno de madeira, um paninho ou um sabugo de milho.

O radio do vovô

Uma das vantagens de de morar no casarão até meus sete anos era poder conviver com o rádio, principalmente por ver dia após dia o vovô chegando um pouco antes do almoço da serraria ou da marcenaria (oficina) para ouvir o noticiário no rádio.

Walter broda e Pinguinho, humoristas da era do rádio

Walter broda e Pinguinho, humoristas da era do rádio

Outra atividade que me chamava muito a atenção era conviver com a vizinhança que vinha, muitas vezes de longe, para escutar o Walter Broda e o Pinguinho no Rodeio Coringa, nos domingos à noite. Também tinha a música, não lembro o programa, mas lembro que era qua quarta-feira, também vinha gente para ouvir música.
Confesso que eu não entendia quase nada das piadas que o Walter Broda e o Pinguinho contavam, mas me deliciava rindo das risadas dos ouvintes, para mim era divertido ver aquele grupo de pessoas escutando uma caixa falar. Também ficava muito curioso quando o vovô sintonizava a BBC de Londres nos seus programas em português. Sempre achei muito interessante ficar ouvindo o ruído da estática enquanto se procurava a sintonia. É claro que o primeiro rádio que conheci foi o do vô, mas algum tempo mais tarde pude conhecer outros como o do seu Antônio Santi, que era a bateria.
Jamais esquecerei o dínamo que tinha ligado na transmissão do moinho para carregar baterias, muita gente vinha até o moinho só para fazer isso. Mais tarde o tio Argemiro comprou um carregador eletrodinâmico,(um transformador de 220v para 6v com um retificador) que carregava a bateria diretamente da luz, um enorme avanço pois não precisava pôr o moinho a funcionar para carregar as baterias. Era uma caixinha de lata toda furadinha que zumbia e tinha umas luzinhas vermelhas.
Cada duas ou três semanas vinha o tio Valodomiro ou o Albino trazer a bateria para carregar. Nos anos 70, quando eu já começava a aprender eletrônica, transformei o rádio do seu Antonio Santi para funcionar ligado na luz (tomada de 220v).
Para os que não viveram esta época é preciso fazer uma descrição de como funcionava o sistema de transmissão de energia do mionho. Naquela época os motores eletricos não eram estes objetos corriqueiros que temos atualmente onde algumas máquinas tem mais que um motor. Todo o moinho era movimentado por um único motor que ficava no andar térreo dele partia uma correia chata até o porão onde um grande eixo atravessava toda a extensão do prédio, uns seis metros mais ou menos, a transmissão. Neste eixo havia um grande número de pares de polias de todos os tamanhos, diferentes tamanhos davam diferentes rotações para satisfazer as necessidades de cada máquina, os pares sempre tinham uma polia chavetada e outra louca do mesmo tamanho, cada par alimentava um mecanismo ou máquina. O sistema funcionava da seguinte forma, um garfo ligado a uma alavanca posicionava a correia sobre uma polia ou outra, para ligar, a correia era posicionada sobre a polia chavetada, tracionada, e para desligar, sobre a polia louca. Assim quando se ligava o moinho pela manhã o motor era ligado e somente desligado no final da tarde. Eu ficava horas vendo tudo aquilo funcionar.
Assim, o rádio fez parte de minha infância, era a ligação com o mundo até os sete anos, depois, quando fomos para a morada nova, onde não tinha luz e nem rádio a cantoria tomou o lugar das músicas do rádio, especialmente nos dias de lua cheia, mas isso é uma outra história.

Novena de chuva

Numa comunidade religiosa como a da Vila Trentin era natural se fazer novenas com os mais diferentes fins. Hoje vou falar especificamente de uma, no verão do ano de 1962. Uma seca se arrastava por vários dias, já fechava quase um mês sem chuva e tudo começava a refletir o problema. Quem passasse estradas via lavouras e lavouras de milho com as folhas enroladas apontando o céu como a dizer – Oh! chuva vem nos salvar! Os gramados já estavam ficando acinzentados e brilhantes, característicos de grama seca. Isso para gurizada não parecia ser um problema, pois a gente aproveitava as ladeiras gramadas dos potreiros para esquiar. Isso mesmo esquiar, usando capas de cachos de coqueiro como pranchas.
O padrão básico era sentar dentro de uma destas capas segurando com as mãos no cabo que ajudava a guiar inclinando para a esquerda ou direita conforme o trajeto que se queria. Os mais hábeis deslizavam de pé quase como se faz com skate. O potreiro la de casa era bom para iniciantes pois a descida tinha uma inclinação que não permitia muita velocidade e terminava no gramado do banhadinho que não secava nunca e, portanto, freava a prancha no final da pista. O potreiro do vovô não permitia este tipo de atividade porque a parte mais mansa terminava na valeta e a outra parte era muito violenta. A decida mais emocionante era a do tio Osvaldo, nas descidas em direção as lavouras da várzea, começando perto da casa, ou a loucura das loucuras, a trilha que começava perto da fonte, onde foi feita a casa nova, e terminava logo acima da cachoeira grande da gruta.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.   PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Esta foto, de 1955, é muito anterior ao caso. A mãe de pé e eu e o Leo sentados no altar, na frente da gruta original construída pelo vovô, toda cravejada de ametistas.
PS.: no dia da foto também estava começando a chover.

Claro o assunto é a gruta e a novena, pois bem, como não chovia há bastante tempo o povo estava desesperado com a seca e com o calor, logo, o lugar ideal para fazer a “reza da chuva” era a gruta, um lugar onde a natureza proporcionava clima ameno, fresco e úmido. As orações se misturavam ao ruído das cachoeiras e subiam diretamente aos céus, os corações aliviados pela umidade evaporada das cachoeiras reforçavam o poder da fé dos fiéis, sem falar no sacrifício de descer e subir o caminho cansativo.
A novena já se estendia por quase duas semanas, tinha passado dos nove dias e o povo continuava a orar. Se não me engano era uma quinta-feira, o terço estava pela metade quando um barulho diferente do da água fez estremecer o vale, um trovão forte, mas de dentro do vale da gruta não se via nuvem alguma. Alguns segundos depois uma nuvem preta cobriu o céu, parecia que estava anoitecendo e o céu desabou. A chuva pedida enfim chegava e foi aquele corre corre, acho que ninguém estava com muita fé, porque ninguém tinha levado guarda chuva. Um grupo se enfiou na casa da usina, mas não cabia todo mundo, outros correram trilha acima para se abrigar na serraria e no moinho. Eu, como tinha medo de entrar na usina e não corria muito, pois era um magricelo fraquinho, acabei tomando um belo banho de chuva. E o pior de tudo acabava a moleza da lavoura, tinha que voltar a carpir, e os gramados não ofereciam mais condições de fazer “grassboard” como diriam os aficionados do inglês.

O fruto proibido

Dos tempos que morei na casa da vó, o casarão comunitário, onde vivi até meus 7 anos, tenho um bocado de lembranças que merecem uma descrição detalhada, no entanto hoje vou contar uma de três primos: Eu, a Mariazinha e o Selito. Como podem observar os mais cuidadosos com a língua portuguesa devem ter estranhado me colocar em primeiro lugar, aprendi desde pequeno que quando se conta uma coisa boa sempre se coloca os outros em primeiro lugar, mas como neste caso é uma confissão não poderia de me colocar na frente.

Foto tirada por ocasião dos 40 anos de casamento do vô Bortolo e vó Maria, bodas de rubi, sentados de preto no centro. Na fila da frente, eu sou o 5º da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha é a terceira e o Selito o 12º.

Foto tirada por ocasião dos 40 anos de casamento do vô Bortolo e vó Maria, bodas de rubi, sentados  no centro, de preto.
Na fila da frente, eu sou o 5º da esquerda para a direita. Na segunda fila a Mariazinha é a terceira e o Selito o 12º. A foto foi tirada atrás do moinho, vê-se ao fundo a casa do vô.

 

O pátio do Vovô era cheio de frutas, em qualquer época do ano que se chagasse lá sempre tinha alguma para degustar, no entanto, algumas causavam maior euforia entre a criançada. Era um verdadeiro paraíso, e tinha até a árvore do fruto proibido, aliás, até acho que tinha mais que uma deste gênero. Vou começar pela parreira que a gente tinha que passar por baixo para entrar no pomar. Ficava logo depois da casa da Nona (Rosa), imaginem as crianças passando por baixo da parreira com as uvas quase maduras para ir comer pêssegos ou ameixas. É claro que era uma espécie de tortura, no entanto ninguém ousava tocar um único grãozinho de uva enquanto o Vô Bortolo não autorizasse a colheita. Assim fica declarado o fruto proibido do vô: a uva. Os moranguinhos da horta da vó Maria também eram frutos proibidos, mas a gente dava um jeitinho de roubar alguns às vezes.

Tanto os moranguinhos como as uvas depois de algum tempo de proibição, quando estivessem maduros nos os provávamos, mas o fruto proibido que ninguém jamais descobriu o sabor, não era a maçã, como podem estar pensando, era o marmelo. A horta era cercada em parte pela casa, o casarão que tinha a grande sala, os quartos, do tio Miro, o nosso e o das tias mais velhas, as mais novas dormiam no sótão, nós, as crianças raramente tínhamos acesso ao sótão. Vou ter que fazer um capítulo falando da casa, mas não aqui. Sim o casarão fazia parte da cerca da horta, depois tinha uma cerquinha e a casa do vô, composta de quarto, biblioteca, sala e cozinha, estas duas últimas eram comunitárias, Nesta época o tio Gervasio, o tio Luís e o tio Ângelo já moravam em suas próprias casas.

Depois da casa do vô tinha uma cerca com a porteira de entrada, sempre visível da cozinha, que ia até a valeta que fazia uma grande curva indo até o canto do casarão e assim fechando a horta. Eu sei! Tenho que falar do marmeleiro, além de dar umas varas excelentes para delimitar as possibilidades de atuação das crianças, (isto é uma forma politicamente correta de explicar seu uso) também dava umas frutas incrivelmente grandes, douradas com uma casca com textura de camurça, um verdadeiro sonho, com certeza a fruta mais linda que conheci na minha infância. Mas era fruto proibido, jamais alguém nos ofereceu marmelo, eles amadureciam e desapareciam de forma misteriosa, nunca ninguém chegou e nos disse:

– Aqui está um marmelo, provem.

O marmeleiro não ficava no pomar, foi plantado na horta, o reino da vó Maria, que apesar de ter fama de rigorosa com as crianças era menos temida que a autoridade do vô Bortolo, ou da Nona. A Nona é quem cuidava das crianças na hora do café, mesmo morando em suas casas as gurias do tio Ângelo e a gurizada do tio Luís vinham tomar café na casa da vó Maria. – Epa! Epa! Esta é outra história, vai ficar pra outro dia.

Naquele dia, tempo de marmelo maduro, quando estava findando o café nós três  combinamos rapidamente que seria o dia de provar o fruto proibido. Ficamos um pouco mais que os outros na mesa e ao sair a Mariazinha foi até a cozinha da vó e escondeu discretamente uma faca na roupa. O Selito e eu saímos discretamente e fomos até o fundo do engenho (serraria) e pegamos uma costaneira. Fizemos a volta por trás da valeta, passamos pelo chiqueirão dos porcos e perto do pé de araticum improvisamos uma ponte para passar a valeta. A Mariazinha ficou andando distraída pra lá e pra cá entre o galpão e a cerca da horta para dar o alerta caso algum adulto se aproximasse. Passamos a valeta e chegamos no marmeleiro, tinha um dos bem bonitos relativamente baixo e fácil de apanhar, fizemos a colheita e retornamos discretamente e fomos nos encontrar com a vigilante.

Para provar o dito fruto decidimos que íamos nos esconder atrás das pilhas de tábuas perto da caixa d’água da usina. Como já tinha movimento na serraria não podíamos arriscar andar por lá a saída era ir pelo lado de baixo da valeta e usar a ponte da caixa d’água. A valeta vinha dos fundos da olaria do tio Atílio Zanon, passava por trás da casa do tio Antônio, era a divisa natural do pomar do vô, depois da horta e finalmente alinhava pelos fundos do galpão e da serraria até findar no reservatório da usina que chamávamos de caixa d’água. Tinha cinco pontes, entre o pomar e as casas, a ponte do seu Facin (Ângelo Pio Isaias José Fassini). Logo depois da horta tinha a ponte do chiqueirão, por onde se passava para ir tratar os porcos ou colher araticuns, antes de ter o poço era a ponte de ir buscar água na fonte que hoje fornece água para a gruta. Depois do galpão tinha a ponte da gruta, que também levava ao tanque comunitário (terei que escrever também alguma história do tanque). Depois tinha o ladrão, abertura que possibilitava o escoamento do excesso de água para manter o nível. Logo mais adiante tinha a ponte da serragem, onde se passava com os carrinhos de mão e se jogava a serragem perau abaixo. Depois, quase no fim da valeta tinha a ponte da caixa d’água que saia por trás das pilhas de tábuas.

Saímos por trás do galpão atravessamos a ponte da gruta e seguimos rumo ao nosso destino. Chegando lá encontramos uma pilha de tábuas que tinha na parte de baixo, tábuas mais compridas, formando como que uma mesa, o lugar ideal. Não lembro muito bem que operações matemáticas fizemos para dividir em três o fruto dos deuses, lembro que foi uma cerimônia quase como um sacrifício divino, também pudera, aquele magnífico marmelo dourado merecia isto e muito mais. A operação de cortar não foi das mais fáceis, o fruto apresentava uma certa resistência ao ser sacrificado, mas nossa vontade foi maior. Partido o fruto cada um de nós pegou sua parte e como numa cerimônia de degustação fincamos os dentes quase ao mesmo tempo.

Os dentes ficaram grudados, a boca ficou grudenta, era um marmelo de fazer doce. Desapontados jogamos fora os pedaços e fomos brincar de outra coisa…

O sagitariano e o escorpião.

Segundo Pierre Levy, quando desenvolvemos uma tecnologia da inteligência, tecnologia que auxilia nos processos de conhecimento, raciocínio ou memória, passamos a usar as nossas capacidades para outros fins e deixamos às tecnologias o trabalho de arquivar estes dados. Por isso, atualmente é bastante difícil encontrar um jovem que tenha memórias de sua infância anterior ao quarto ou quinto ano. Tudo foi registrado em foto, vídeo ou outra tecnologia e os cérebros deixaram de se preocupar com isso. Da mesma forma a escrita, por cristalizar as histórias, que serão lidas “ad infinitum” estão acabando com os contadores de histórias. Para não deixar morrerem as histórias contadas por nossos tios e avós é que eu me proponho a escrever um pouco de minhas memórias, já bastante fragmentadas, mas que podem ser reacendidas com fragmentos de outras histórias, por isso é que eu peço que aqueles que lembram, não importa que seja de forma fragmentada, me ajudem a compor a história de nossa família, naqueles moldes que eram contadas quando éramos crianças.
Na história da Família Piovesan, relatei há pouco de como meu pai, O “Tio Lino” fazia parte da vida das crianças como eu e muitos primos, e até dos que não eram sobrinhos dele. Não muito diferente foi a participação das tias “Sila”, “Dona” e “Mími”, respectivamente Tarcila Trentin, Donatila Trentin e Ludmila Trentin, sem contar das irmãs mais velhas que não tinham apelidos exceto minha mãe, a “Tia Bides”, Basilides Carolina Trentin Piovesan. A história de hoje tem como protagonista a tia Mimi, lembro com muito carinho dela, e vocês entenderão por que em breve.
Não se precisar a data, anos mais tarde soube que eu tinha ao redor de um ano e meio, então deveria ser o ano de 1955, provavelmente na saída do inverno, pois as árvores andavam meio desfolhadas e os tachos de fazer açúcar ainda estavam instalados. A tia Mími estava fazendo carrinhos para a criançada, cortava um carretel de linha ao meio, obtendo assim duas rodas, furava uma lata de sardinhas em dois lugares na transversal e colocava um palito de madeira como eixo e as duas metades do carretel como rodas. Pronto estava feito um carrinho de transportar terra. Eu observava e esperava que saísse o meu. Só que os maiores sempre eram contemplados antes, eu estava ficando impaciente, deveria estar enchendo o saco. Quando pedi mais uma vez pelo meu carrinho ela alegou que não tinha palito para o eixo.
Como sempre fui um homem decidido, como é comum aos sagitarianos, tomei a iniciativa,

como se faz açucar

Na falta de uma foto dos tachos do tempo do vovô, resolvi ilustrar este post com o trabalho de fazer açúcar com o tio Marcelino, a mãe, o Leonidas, o Leonildo e a Leda ao fundo

peguei uma faca de mesa do “secchiaro” da vó, daquelas com cabo grosso de ferro e ponta redonda, e fui ao mundo procurar um eixo pro meu carro.
Saí entre o moinho e o galpão. Passei pelo forno dos tachos de fazer açúcar, pelo engenho de moer cana e fui até os fundos do engenho de serra, melhor entre o engenho e a valeta que levava água para a usina. Um pouco antes da ponte de passar com a serragem sobre a valeta achei uma arvoreta que, segundo meu julgamento, deveria ser da grossura ideal para fazer o dito eixo. E comecei a cortar…
Alguma coisa aconteceu que não tenho mais nenhuma lembrança depois disso, elas voltam alguns dias mais tarde. A história continua a partir de relatos de terceiros…
Um dos filhos do Tio Antônio Trentin, provavelmente o Érico ouviu gritos de criança perto do monte de serragem e foi prontamente acudir, me encontrou aos berros, ainda com a faca na mão. Imediatamente pensou que eu tivesse me cortado, mas não achou sinal nenhum de corte, foi então que percebeu uma picada de algum bicho na minha mão direita, próximo da base do polegar. Levou-me para casa e começaram os cuidados médicos do Vovô, mas precisava saber do que foi a picada. Lá foram não sei quantos tios e primos, procurar a fera que me picara. Procura daqui, procura dali e lá estava o quase assassino, um escorpião preto, relativamente comum na região, segundo alguns com capacidade de matar um animal pequeno ou uma criança. Felizmente eu tinha um avô que apesar de abstêmio sempre tinha em casa uma cachacinha com guassatonga, com guiné e outras poções mágicas, assim eu fui remediado, mas ainda correndo risco de vida.
Minhas memórias retornam alguns dias mais adiante. Meu dedo polegar direito desmesuradamente inchado, aí entra em cena outra tia, a Tia Donatila me dizendo que eu morreria se chupasse dedo inchado. Eu não usava chupeta e para dormir, chupava o dedo. Imaginem a angustia de não poder chupar o dedo por medo de morrer, e não poder dormir sem chupar o dedo. Eu não tinha ideia do que era morrer, mas imaginava que seria muito pior do que a dor da picada do escorpião, foram dias de pânico. Eu só conseguia dormir uns pingadinhos no colo da Nona Rosa, que fazia questão de ficar comigo no colo quase o dia inteiro.
Sarei, o dedo desinchou e eu fiquei sem sequelas, a não ser o medo de morrer e, por conta disso, quando me disseram que a representação da morte era o esqueleto, passei a ter pavor de esqueleto, a ponto de não querer passar para o terceiro ano na escola só porque tinha a figura de um esqueleto no livro…

Bois políticos

Este post foi publicado originalmente na história dos Piovesan, mas como aconteceu na Vila Trentin e minha mãe é Trentin cabe reproduzir aqui.

Mil novecentos e cinquenta e oito, em meio a grandes transformações políticas, sociais e econômicas algumas práticas e costumes ancestrais ainda resistem na Vila Trentin e arredores como a engorda de gado ou porcos a meia, consistia em pegar os animais de um parente ou vizinho para criar e engordar e depois repartir no dia da carneação.  Esta prática foi trazida pelos italianos que costumavam trabalhar como meeiros para os proprietários de terras na pátria mãe. Os Piovesan, promovidos de “poveri contadini” na Itália para “matando cachorro a grito” no Brasil, não fugiam da regra. Outra prática, restrita aos mais abonados que tinham caminhão, era a de andar com rodado simples na traseira por falta ou para economizar pneus. Ficava engraçado, pois ao usar somente a roda de dentro ficava a ponta de eixo saliente para fora. Eu me lembro bem disso no caminhão do Tio José Rato.

– É claro que uma coisa não tem nada ver com a outra a não ser que o tio Lino entre na história.

Eu chamei meu pai de “tio Lino”, pois era assim que ele ficou conhecido na redondeza. Todo mundo o chamava de tio Lino até o velho Lalo Franco que tinha idade para ser pai dele, na hora oportuna vou contar a história de como este apelido carinhoso começou. Não tenho como precisar a data, mas foi lá por setembro, pelos dias da enchente de são Miguel, como havia chovido muito não dava pra fazer nada na roça e o Tio Atilio Zanon tinha uma leitoada para engordar e tinha terminado o milho da safra velha, aí o Lino que ainda morava com o sogro, o vô Bortolo, que tinha moinho se ofereceu para engordar os porcos à meia, e por isso estava aproveitando aquele dia de chuva para buscar os porcos na casa do tio.

Um passeio destes merecia ter uma companhia, e foi assim que o Léo e o pai começaram a viagem até Jaboticaba. Uma hora e meia de gaiota com o Bonito e o Cruzeiro, bois que compreendiam até os pensamentos do pai, na prática formavam um trio com ele, tal era a compreensão e o respeito mútuos.

– Lá iam os quatro, o pai, o Leo e os bois tranquilos pela estrada barrenta de barro vermelho pegajoso e ao mesmo tempo liso como sabão. Falando em vermelho esta era a cor de um lencinho que o Leo carregava, quando ele me contou a história disse que “lembrava muito bem do lenço, do barro e do caminhão Fargo com rodado simples no eixo traseiro.”  Logo depois que eles atravessaram a picada e entraram na estrada que ia da Esquina Boa Vista para Jaboticaba passou por eles um caminhão cheio de políticos que iam para um comício no Rodeio Bonito. Vendo aquele mundo de gente no caminhão o Léo, então com a inocência de seus seis anos, abanou freneticamente para os passantes, só que tinha um problema, eram políticos da UDN e o vermelho não era a cor deles e foi por isso que pai, filho, bois e tudo mais, ouviram um sem número de desaforos e xingações. No momento o Léo nem se deu conta do acontecido, o pai com toda a calma que lhe era peculiar ouviu tudo calado e seguiu seu caminho. Isso era outra particularidade dele, era praticamente impossível fazê-lo perder a calma, mas outra era a de não perder a oportunidade.

E a oportunidade estava esperando menos de um quilômetro adiante, logo depois da saída da linha São Luís, perto de onde morava o Luiz Marion, numa baixada a água da chuva alagava e formava um grande atoleiro, é claro que o Fargo, com rodado simples atrás, e cheio de políticos estava atolado. O motorista não tinha muita prática em atoleiro, nenhum dos políticos se animava a descer do caminhão para empurrar ou procurar socorro. Mas o socorro vinha de gaiota, passo a passo e tranquilamente, em menos de intermináveis dez minutos apareceram na curva o Bonito e o Cruzeiro, de cabeça erguida como que dizendo, – andamos mais devagar, mas não atolamos. O Léo já antevendo a oportunidade de ver de perto o aquela maravilha da tecnologia, a carroça sem bois, parada cheia de gente e o Lino, que tinha poucos minutos para planejar a vingança dos desaforos que ouvira há pouco.

Passo a passo os bois mostravam sua superioridade puxando a gaiota com tranquilidade e firmeza, até se confrontar e ultrapassar o caminhão atolado na sarjeta da estrada. A carga do caminhão estava silenciosa, podia-se ouvir até o ruído de uma mosca, dava a impressão que cada um daqueles que pesavam sobre o rodado simples do caminhão não queria estar aí, o desespero de estar preso ao ar livre, a inveja do quarteto de gaiota passando tranquilo, a sensação de inferioridade diante daqueles que há poucos minutos foram desprezados, a sensação de impotência… De dentro da cabine, o motorista, desesperado pela impossibilidade de entregar sua carga a tempo, mas o único com alguma sensatez no momento, dirigiu-se ao condutor da gaiota, antevendo a possibilidade de tracionar, com os bois, o caminhão para fora do atoleiro.

Impossível descrever a sensação de alívio tanto do motorista como da carga quando o carreteiro consentiu prontamente a solicitação, estacionou a gaiota um pouco adiante, desceu, desatrelou os bois, posicionou os bois diante do atolado, laçou um correntão no para-choques  engatou na canga e solicitou aos bois que tencionassem o correntão. Estava tudo pronto e os bois ficaram aguardando a ordem para puxar, mas esta não veio…  Aqui é necessário fazer um esclarecimento, nenhum boi sob o comando do Lino fazia qualquer movimento sem seu consentimento, ele e seus bois formavam um conjunto harmônico e perfeitamente integrado. O Bonito e o Cruzeiro pareciam conscientes da missão que os esperava.

Tudo pronto, faltava somente a ordem para puxar, com toda a calma característica e peculiar foi então que o Lino, que até então somente se dirigira ao motorista, se dirigiu aos que estavam na carroceria:

– Preciso esclarecer uma coisinha, meus bois estão muito descontentes com o que ouviram há pouco, pois eles são de outro partido. Eles estão dispostos a desatolar o caminhão somente se vocês gritarem – Viva o Brizola!

Impossível descrever a reação do grupo, parecia que tinham engolido a própria língua. O carreteiro simplório que ouvira calado seus desaforos agora estava no comando da situação, como um maestro agitou a mão para regendo o coro. Saiu um “viva o Brizola” meio chocho que deixou desapontado o maestro e nem chegou aos ouvidos dos bois políticos. Mais uma vez o maestro levantou a mão e desta vez deixou claro: – tem que ser mais forte, com entusiasmo. A um novo comando saiu um “viva o Brizola” bem sonoro enquanto o maestro discretamente deu o comando e os bois que tencionaram o correntão e com firmeza arrastaram o caminhão para fora do atoleiro.

Não tenho como imaginar o que se passou na cabeça daquele grupo de políticos, mas sei que para o tio Lino, ficou a sensação de satisfação de não ter levado desaforo para casa.

Bisneto privilegiado

Família de Serafim e Rosa Trentin quando ainda moravam em linha Base- Nova Palma

Família de Serafim e Rosa Trentin quando ainda moravam em linha Base- Nova Palma

Talvez poucos dos primos saibam, mas eu posso me considerar o bisneto preferido do nono Serafim e da nona Rosa Trentin. Vou explicar, quando o nono faleceu, eu já tinha três anos e lembro bastante coisa da minha vida desde um ano e meio. Vou me limitar aqui a falar do que eu me lembro do nono Serafim, da nona falarei em outra ocasião. Nos últimos anos de sua vida ele viveu numa casinha de dois cômodos que tinha ao lado da casa do vô Bortolo, no caminho que ia para o pátio do arvoredo. Desde que me lembro ele era hipocondríaco e por causa disso não permitia que ninguém entrasse em sua casa exceto a nona, a tia Iria e eu. Na época nós morávamos no casarão do Vô, a nossa família era o Pai (Lino), a Mãe (Bazilides) o Leo e eu. Vários outros tios moravam na mesma casa, mas isto é para outra história, as refeições eram feitas na cozinha da Vó, outra casa que tinha a sala, a biblioteca, a cozinha e o quarto do Vô Bortolo e da Vó Maria. (Mais um monte de histórias para contar). Desta comida era tirada uma parte que ia para o nono Serafim e para a nona Rosa, mas como eu disse antes somente uma pessoa adulta, a tia Iria e uma criança, eu (o Liceo) tinham autorização para entrar na casa então éramos nós que levávamos a comida para eles. Como ele tinha muito medo de morrer sempre esperava que a nona comesse e depois ele comia. Bem agora vocês sabem por que eu me considero o bisneto preferido e podem crer tenho muitas histórias pra contar. E certamente já deduziram que a tia Iria pode ser uma fonte muito interessante de informações. Espero que não fiquem com ciúmes.