O cinquilho

Um domingo típico na Vila Trentin nos anos 60 incluía um cerimonial bastante complicado, algumas rotinas e muita criatividade.

O banho era tomado no sábado ao fim da tarde. A bacia, apesar de grande, somente comportava um de cada vez o que causava por vezes atritos, gritos e varadas da parte da matriarca. Depois janta, oração da noite e ir dormir. Por vezes o sono demorava, mas era importante para estar pronto para o Domingo, que começava com um chá de mate com leite, para os que ainda não tinham feito a primeira comunhão, os outros iam em jejum para a missa.

Saltar da cama num domingo era algo muito mais emocionante do que qualquer outro dia, mesmo tendo que levantar mais cedo do que em dias de aula. Os meninos, cheirosos do banho do dia anterior, vestiam a roupa de missa e estavam prontos pra sair. Os três caminhavam mais ou menos um quilômetro até a vila. A missa não era na vila, lá somente se encontravam com os primos e primas do tio Luiz e do tio Ângelo, os do seu Artur Oliveira mais algum vizinho ou parente e o grupo fazia mais um trecho de caminhada até a encruzilhada do velho João Pegoraro, perto da figueira dos crentes, onde esperavam a carona que os levaria a missa em Jaboticaba. Quando o tempo era bom vinham os do seu Pedro e os Cargnin. A carona era, na maioria das vezes, o caminhão do Maximino Rigon, que já vinha com os Santi e os Dalla Nora na carroceria.

– Nosso ônibus, um pouco adiante, fazia nova parada onde embarcavam os Turra, os Boton e os Manfio, dali pra diante o pessoal ia a pé mesmo ou a cavalo. O Pai ia quase sempre a cavalo para cantar na segunda missa com o tio Atílio e tio Aurélio que participavam das duas missas. Na época eu era um guri, mas com certeza o caminhão tem muitas histórias de amor pra contar pois, é claro, que era também um lugar de encontro de rapazes e moças que tinham oportunidade de estarem próximos e se conhecer. Na missa ficavam separados mulheres à esquerda da igreja e homens à direita, isso até o padre Paulo vir com aquelas ideias, que trouxe da Alemanha, de juntar as famílias, aí misturou tudo, ainda assim o caminhão era o lugar onde os estranhos e estranhas conseguiam a maior proximidade. E á claro que as vezes tinha que segurar a moça para não cair num solavanco maior do caminhão. E assim tudo ia correndo naturalmente. 

Domingo à tarde a gente ia pra vila. Este costume continuou por muitos anos, aqui uns 15 anos mais tarde a Leda, a Catia, a mãe, a Sirlene e o Leo com a Leia no colo indo pra vila.

A volta era outra festa, todo mundo no caminhão mais animado e fazendo planos para o domingo à tarde, os da vila ainda tinham uns bons 15 minutos de caminhada para fazerem juntos e aí alguns casais já se arriscavam a fazer o trajeto de mãos dadas. A piazada combinava uma caçada, pescaria ou ir até algum mato que tivesse frutas maduras isso incluía cerejas nos matos dos Cargnin ou do seu Pedro Dalbianco, guabirobas na beira do arroio nos fundos das terras do seu Donato Rodrigues, ingás nos matos abaixo da gruta, goiabinha do campo e araçá rasteiro nos campos do Lalo Franco, pinhão nos matos do Dalla Nora, gravatá na tapera do finado Agenor, guaimbê nos matos do Jango e muito mais coisas que só dando corda na máquina do tempo pra me lembrar. E as pescarias, mas isso é uma outra história…

– E quando não tinha nada disso pra fazer a gente ficava na vila mesmo na sombra dos timbós da igreja vendo os mais velhos jogar “prenda” ou brincando de pegar ou esconde esconde. Outro programa muito comum eram os jogos do Ipiranga, terei que escrever algumas histórias sobre isso.

Os casados se reuniam no bar do tio Vtelio Casarin ou no do Hercules Zanon para um carteado que, em geral, durava a tarde toda. Os jogos mais populares eram pife, canastra e pontinho para os mais jovens. os de meia idade jogavam bisca e trissete e os patriarcas gostavam mesmo de um cinquilho. Isso era o programa dos italianos, que eram o seu Pedro, o seu Fassini, o tio Antônio e o Vovô Bortolo, para os atentos já puderam notar que eram só quatro e o jogo exige cinco. Para isso eles precisavam de um parceiro que nem sempre era conseguido dentre os casados mais velhos. Algumas vezes o tio Gervásio completava o quinteto outras vezes eu ocupava o lugar. Não que eu fosse velho ou casado, eu jogava com eles pois sempre saia ganhando…

Nunca fui grande jogador de futebol minha posição oficial era de marrecão, claro que isso tinha lá seu “glamour”, mas participar a tarde toda de uma mesa de cinquilho tinha suas recompensas. No começo da tarde começava o jogo com dez balas cada um, o vovô comprava as minhas e a gente ia jogando a tarde toda e eu terminava o dia sempre com cinquenta balas ou mais. – Não eu não era um jogador muito bom, mas no jogo onde não tem parceiro fixo e sempre se joga dois contra três as balas iam mudando de mão a cada rodada, quando alguém terminava as balas ou pedia emprestado para um parceiro ou comprava mais algumas. No final do dia não importava quem tinha ganhado ou perdido todas as balas acabavam no meu bolso, eu era a única criança que estava por aí.

– Eu voltava pra casa faceiro e com “i dolci in scarcella”.

Isso era a melhor parte do jogo.

O Oméga ferradura do seu Domingos

Eu gosto de ouvir histórias…

“Muitas pessoas contam histórias, nem todas são ouvidas, e muitas vezes histórias passam sem ter o devido crédito, ou por sua inverossimilhança ou por falta de dados comprobatórios. Sempre que uma história contada tem algo de extraordinário logo é taxada de mentira e não se fala mais nisso. Por isso a função do contador de histórias é buscar nos fatos ocorridos o que de mais fundamental e básico dá credibilidade a uma história e depois apresentar estes dados com coerência e propriedade.”

Na vila Trentin e arredores  havia muitos contadores de histórias nem sempre acreditados, muitas vezes injustiçados e até mesmo desprezados por aqueles que se julgavam mais sérios ou mais científicos.

Uma destas vítimas era o seu Domingos Lereno, muitas vezes ouvi senhores de respeito taxando-o de mentiroso, mesmo que suas histórias tivessem fundamento lógico. Eu mesmo ouvi algumas, sempre de terceira mão bastante difíceis de crer, mas a do relógio me deixou intrigado.

O velho Rocha e seu filho, Florinal, depois de aprontar alguma coisa que nunca descobri o que foi, foram obrigados a se exilar voluntariamente na Argentina sob pena de cumprimento de uma ameaça de morte. Passados alguns anos o Florinal voltou, e para evidenciar a prosperidade no país vizinho, voltou ostentando um belo exemplar de relógio, não um destes de bolso comuns como os Tissot que alguns fazendeiros da região tinham, mas um autêntico “Omega ferradura” de pulso. Já imaginaram que maravilha, poder olhar as horas sem levar a mão no bolso. Principalmente para um campeiro que quando ia laçar ficava com as duas mão ocupadas uma nas rédeas de cavalo e a outra no laço, bastava dar uma viradinha no pulso e podia olhar as horas sem interromper o trabalho.

Negócio vai negócio vem, o dito relógio foi parar nas mãos do seu Domingos, ou melhor no pulso. Só que tinha um probleminha, ele era canhoto e o relógio ficava justamente no pulso da mão mais usada com o laço e o roçar do laço na pulseira acabava desgastando a dita, ainda bem que pertinho dali, umas duas horas a cavalo, tinha o seu Sestilio Zandoná, que além de boas botas fazia pulseiras novas, idênticas a original.

Mas como o correr dos anos é implacável, seu Domingos, já beirando os noventa anos não tinha mais como enfrentar a cavalgada para fazer nova pulseira e o relógio ficou aposentado numa gaveta, foi nesta época que eu e o Geraldinho ouvimos uma das histórias mais incríveis de nossas vidas. Foi numas férias de junho, 1977 se não me engano, quase no final do mês quando decidimos fazer uma caçada, munidos de bodoque e de uma espingarda de pressão, saímos meio sem rumo em direção dos campos para ver se caçávamos alguma perdiz. É claro que não caçamos nada, mas no caminho encontramos o feliz proprietário do Omega ferradura.

– Boa tarde seu Domingos. – disse eu.

– Boa tarde, vejo que estão tentando caçar perdiz.

– Sim! Só que ainda não vimos nenhuma…

– Vocês estão no lugar errado meus filhos, perdiz a vontade pra caçar só tem na fazenda  do Medeiros ou na do Lalo.

– Mas e como se faz pra chegar lá? – perguntou o Geraldinho.

– Podem atravessar a minha fazenda e depois daquele capão de timbó tem um banhadinho, atravessando ele já estão nos campos do Medeiros, depois da faixa fica a do Lalo, costeando por umas duas léguas o rio Fortaleza. Mas tomem cuidado com as cobras porque nestes campos tem muitas das grandes. (Um pequeno parêntesis é necessário. Preciso esclarecer, que na região, se chama fazenda uma propriedade de umas dez ou mais quadras de campo. Nem a do seu Domingos nem a do Medeiros tinham este tamanho, mas se perdoa sempre um pequeno exagero, principalmente diante de dois estudantes da cidade.)

Já íamos tomando nosso rumo quando ele chamou: – Será que não querem tomar um chimarrão lá em casa?

Em função da solicitude dele e do respeito pelos seus cabelos brancos aceitamos e lá fomos nós. Chegamos na casa e a chaleira jé estava chiando, ele encilhou o mate ¹) e arrastou mais um banco de três pernas pra frente da casa e a nossa caçada terminou por aí. Ele tinha nos identificado por alto, sabia que eu era filho do Lino, o veterinário, mas queria saber do Geraldinho, do pai dele, e muito mais… Aí ele lembrou que gostava deveras de ouvir as histórias do meu pai, do Ernesto Lorenzetti, do seu Chico Flores, do seu Osvaldo, do Jardelino… e foi contando uma infinidade de histórias, muitas  que eu já ouvira em tom jocoso de outras pessoas, mas ouvir dele com toda a pompa de linguagem e seriedade que era devida dava outro colorido. Até que finalmente ele lembrou de uma história de doma do Florinal… e por sinal ele tinha um relógio que tinha ganho do Florinal numa carreirada, ele apostou na égua do Zeriquinho do Prado e venceu. Por sinal o relógio era uma verdadeira joia, um “Oméga ferradura” ²) – fez questão de carregar bem o “é” do Oméga – e tinha uma história bem interessante:

O Omega ferradura da história, que a partir de hoje guardo com mais carinho ainda.

“Eu sempre gostei muito do relógio, acabei dando o meu de bolso pro Florinal, pois ele ficou sem. Vocês que estão acostumados com relógios de pulso não sabem o significado que ele tem pra quem lida no campo. – Disse olhando pro meu Orient de aço inoxidável e fundo azul. – Pensem comigo, você tá na lida, digamos tem que laçar uma rês, uma mão está na rédea do cavalo e a outra no laço, não tem como ver as horas num relógio de bolso. – tivemos que concordar com ele – Pois foi exatamente numa destas campereadas que me aconteceu uma cousa muito estrambólica, quando eu tava rodando o laço ele roçou na pulseira, de couro legítimo, do relógio que se desprendeu, mas eu tinha que pegar aquele novilho taurino e pensei comigo mesmo – Deixa o relógio cair depois eu volto e pego ele – mas não perdi o tiro de laço. 

Pois e não é que eu me distrai com o rebelde e olvidei o relógio. Dali um tempo quando fui conferir as horas, pra saber se tava na hora do almoço, é que me dei conta. Aí fiquei desesperado e voltei pra campear o relógio, mas não lembrava mais do lugar, tentei triangular ³) de memória a posição, mas não pude achar, olha, me acreditem! – Dizem que homem não chora mas naquele dia quase chorei, aquela joia era quase como um filho. Fiquei desconsolado, – Não é minha véia? disse se referindo a alguém que estava dentro de casa. – Éééé… – veio uma voz lá de dentro.

A estas alturas já estávamos ficando curiosos…

Pois eu voltei umas seis ou sete vezes a procurar o relógio, esquadrinhei o campo,  e nada. Até que desisti, o campo tinha sido queimado há pouco e tinha aquela camada grossa de carvão de barba-de-bode, voltei depois de uma chuva e nada. 

Pois e não é que o melhor da história ainda estava por acontecer. Eu continuei a camperear mas não lacei mais, quando erguia o braço e não sentia o relógio me dava uma gastura e eu não conseguia soltar o laço. – Você me entende? Perguntou se dirigindo ao Geraldinho que concordou com o bloqueio psicológico. Mas como eu tava dizendo eu continuei a camperear e já fazia um ano que não laçava mais. Numa manhã bem cedinho no despontar do sol eu tava saindo tranquilito no meu baio pra ver o campo que tinha recém sido queimado, pra ver se tinha queimado parelho, você me entende? Nesta vez se dirigiu a mim. Concordei é claro! Quando vi um lampejo de um reflexo do sol distante uns trezentos metros e fui ver o que era. Pasmem! Quando cheguei perto quase morri do coração era o meu relógio, quase caí do cavalo de tanta vontade que tinha de pegar ele, mas quando cheguei mais perto dei um passo atrás, não poderia ser verdade, ele tava funcionando. 

Fiquei encafifado! Já imaginaram se eu saio por aí contando uma história destas vão me chamar de mentiroso. Fiquei em estado de choque, ali parado olhando. Pra funcionar tinha que dar corda todos os dias, eu não podia acreditar que tivesse algum fantasma ou coisa parecida que dava corda. Pelo sim pelo não fiquei aí parado olhando quando tive mais uma baita surpresa, Uma baita cobra passou pelo meio de minhas pernas e foi em direção ao relógio, quando eu ia puxar o revolver pra matar a dita percebi que ela deslizava por cima do pininho de dar corda, o relógio estava no caminho dela, e ela devia sair todo dia da toca. 

Não imaginam o meu alívio, tava explicado como o relógio ficou um ano funcionando. Pena que eu não chamei o teu pai pra bater um retrato – disse voltado pra mim – pois aí eu teria como provar o que tinha visto. O Oméga tava meio desgastado e a pulseira totalmente podre, aí como eu não tinha mais como ir até o Zandoná pra fazer outra resolvi guardar numa gaveta, mas continuo dando corda todos os dias e ele continua ainda com a hora certa. “

Nisto ele se dirigiu para om interior da casa e em seguida voltou com o relógio. O Geraldinho olhou a hora e comparou com o meu e brincou: – Tá um minuto atrasado. Quase apanhamos. Não era o dele que estava atrasado era o meu que estava adiantado. Depois das devidas desculpas falei do meu relógio que não tinha a mesma precisão certamente, mas que se dava corda sozinho com o balançar do braço. Ele ficou encantado e eu já estava de olho no Omega sugeri uma troca, já que o meu tinha até pulseira de aço. Foi uma segunda ofensa o meu não chegava aos pés do omega, e ficou por isso. Mais uma vez ele nos advertiu das cobras, grandes cobras, e fomos fazer nossa caçada.

O medo das cobras e a noite se avizinhando resolvemos voltar pra casa e mais uma vez passamos na casa de seu Domingos.

Quando nos avistou a esposa dele pediu que esperássemos pois ele queria falar conosco, ele tinha ido até a fonte buscar água. Ficamos meio assustados pois ele tinha se ofendido bastante com as nossas duas últimas intervenções sobre o relógio. Mas para nossa surpresa ele veio muito sorridente, nos convidou pra sentar e se dirigiu a mim com uma expressão muito carinhosa:

– Filho! Você é que é o seminarista?

– Sim sou eu!

– Pois olha, devo confessar uma coisa. Eu vi quando tu olhou pro meu relógio e gostou dele, e eu fiquei pensando, – dos meus filhos provavelmente nenhum vai dar o valor sentimental que ele tem pra mim, tu queres ele? Eu te dou de presente. Mas é claro que não posso ficar sem relógio, por causa das horas dos remédios da Chica, aí tu me dá o teu. Mas promete que vai cuidar com carinho e dar o valor que ele merece.

Prometi por São Jorge, São Judas Tadeu e mais uma infinidade de santos que cuidaria com muito amor aquele relíquia e fui pra casa com o relógio velho em troca do meu Orient, que tinha me custado uma grana.

Usei por uns tempos e esqueci numa gaveta…

PS.: Passados quase quarenta anos, fazendo limpeza nas tralhas pra jogar fora achei o velho relógio e a história veio a tona. Fui buscar informações: pelo numero de série o relógio foi fabricado em 1937, caixa de aço inoxidável folheado a ouro, ainda apresenta uma precisão incrível, mas precisa ser alimentado com corda a cada 30 horas. Quando ele contou a história ele disse que o relógio estava com a hora certa. Resolvi fazer alguns teste deslizando uma mangueira plástica de 1,20 metros , cheia de areia,  para ficar com o tamanho peso aproximado da cobra descrita, sobre o pino da corda e ele não chega a dar corda suficiente para um dia, neste caso a cobra deveria passar mais que uma vez sobre o relógio ou foi coincidência a hora do achado ele estar com a hora certa… Eu já tinha ouvido muita troça das histórias dele, muitos não acreditavam, mas esta me deixou encafifado, para usar uma expressão dele, pela vero semelhança.

¹): Encilhar o mate é colocar mais um pouco de erva mate num mate lavado deixando cair uma porção de erva nova para o fundo da cuia e trazendo a erva lavada para cima. Podem ver no vídeo do post Guardado do seu Chico a partir de 2min e 6seg meu pai encilhando o mate.

Encilhando o mate – pode-se ver o vídeo no post citado acima.

²): Omega ferradura vem duma leitura campeira do símbolo a letra ômega, que parece uma ferradura.

³): A triangulação é um método de buscar algumas referencias, como árvores, montanhas, pedras ou qualquer outra coisa fixa para precisar um ponto. Muito usado na determinação de enterros de dinheiro, ou melhor “guardados”.

O guardado do seu Chico

A grande Palmeira das Missões, hoje dividida numa dezena ou mais municípios sempre foi uma terra muito fértil, nela se encontravam riquezas como: gado, erva mate e ouro. Inicialmente era a barba de bode, Aristida pallens, que cobria os campos e fornecia alimento ao gado, principal riqueza da região. Em segundo lugar vinha a erva mate, Ilex paraguariensis, em especial a do talo amarelo, com as nervuras das folhas mais claras, que tinha fama de mais suave e que produzia mate mais gostoso. Sem contar com o ouro, este um pouco mais raro mas que também dava em abundância na região. Na mesma ordem que foram citados também ficava a ordem de facilidade de colheita.

O gado era necessário apenas andar a cavalo pelos campos o dia todo pastoreando e na época certa tropear para o abatedouro ou carnear, convenhamos, um processo simplificado e fácil de realizar.

Já a erva mate exigia mais trabalho, bastava ficar chimarreando à sombra por uns seis ou sete meses enquanto os galhos cresciam e depois… Depois é que começava o trabalho, desgalhar as árvores, sapecar a s folhas, enfeixar e levar para o barbaquá onde ficava secando por dez ou mais dias. Depois era cancheada, quebrada em pequenos pedaços, para finalmente ir para o soque onde era transformada em erva, o pó de folhas cheio de pequenos pauzinhos, que na região se chamam de paraguais. O gado se criava naturalmente nos campos, as vacas produziam bezerrinhos que cresciam pastando barba de bode e depois eram tropeados e vendidos. A erva mate era plantada pelos pássaros que comiam os frutos e depois espalhavam as sementes pelos matos já devidamente adubadas. Como vimos, a riqueza brotava das terras da Palmeira naturalmente.

– Ah! eu ia esquecendo o ouro.

O ouro é outra história. Reza a lenda que riquíssimos Jesuítas, que perambulavam pela província na época das revoluções e guerras, vendo-se ameaçados pelos revolucionários, tanto maragatos como chimangos, iam plantando, suas riquezas – ouro é claro – em lugares estratégicos que pudessem ser encontrados mais tarde quando as guerras findassem. Em geral estes guardados eram feitos próximo a alguma árvore ou outro acidente natural relevante ou ainda, plantavam uma árvore para demarcar o lugar. Segundo alguns historiadores, aqueles que contam histórias, além do ouro também era enterrado um escravo ou índio, cuja alma ficaria cuidando o tesouro para seu dono. Ainda segundo o Seu Florinal Novaes Rocha, um historiador com quem convivi na minha infância, eles deixavam em cada “guardado” um mapa com informações dos anteriores. Logo quem achasse um teria o roteiro para encontrar outros, os que foram guardados anteriormente. Assim um mapa destes poderia valer uma fortuna.

Outra corrente, a qual pertencia o seu Francisco Flores, vulgo Chico Flores, não eram os Jesuítas, mas “fazendeiros ricos que, com medo de serem assaltados pelos revolucionários, enterravam seus pertences de maior valor como jóias, talheres de ouro e prata e peças de arreios de prata como argolas, estribos e passadores de cordas e moedas é claro!” Outros ainda como o Zeriquinho, o velho Patrocínio e o Mimoso Louco contavam histórias em que fazendeiros ricos que se desgostavam com os filhos, vagabundos,  enterravam suas riquezas para evitar que eles gastassem as riquezas amealhadas com seu trabalho suado. Independente da fonte o certo é que havia muito ouro enterrado em Palmeira, bastava descobrir o local e cavar, tomando certas precauções, é claro.

Dois locais eram bastante cotados na região da Vila Trentin: a aroeira dos fundos da Escola Roque Gonzales e os camboatãs do seu Lino. Outros, menos prováveis, eram os camboatãs do seu Chico e a aroeira do potreiro do seu  Pompílio Pereira. Tanto camboatãs como aroeiras eram arvores relativamente raras na região o que aumentava a probabilidade de serem marcas de enterros de dinheiro. O local exato dos guardados se encontrava fazendo um certo número de cálculos e triangulações a partir das marcas e acidentes naturais significativos.

Vamos ao que interessa. Nos meses de maio ou junho sempre é propício para esta tarefa pois a queda das folhas de algumas árvores permite com mais facilidade traçar as linhas imaginárias dos triângulos que dão os pontos com precisão.  Para os conhecedores da região fica fácil de visualizar algumas destas referencias destas linhas. Vamos por partes: A grande figueira na casa dos crentes que moravam na curva da estrada da Jaboticaba, a aroeira do matinho da escola, a do potreiro de seu Pompílio e o coqueiro do seu Jardelino, que deu nome a Linha do Coqueiro, formavam uma linha quase reta. Tinha tudo pra ser um indicativo duas árvores não muitos comuns na região a figueira e um coqueiro anão bem no alto, duas aroeiras quase alinhadas a primeira 15 passos a oeste e a segunda 15 passos a leste da linha imaginária. Como estava dizendo no outono ou inverno quando os timbós derrubam as folhas dá pra ver a linha tanto do coqueiro como da estrada de Jaboticaba próximo a figueira. Os camboatãs do Lino e do Chico ficam fora, mas este é outro caso, a linha deles fecha com a tapera do finado Agenor com a do velho Germano. Nem o Lino nem o Chico acreditavam muito nestas riquezas por isso não tinha como acessar estes tesouros. Os que estavam mais fáceis eram exatamente os das aroeiras.

Na aroeira da escola tinha um foguinho que aparecia quando se olhava da estrada, quase em frente a escola, mas que desaparecia assim que alguém tentasse se aproximar. No potreiro do Pompílio as vacas gostavam de saltar e correr quando próximas da dita árvore, estes indícios eram mais que evidentes que havia algo de especial no local.  Foi assim  que…

Num cair de tarde frio de maio de… deve ter sido la pelo ano de 1971 ou 72… três… vamos chamar de amigos que batalhavam para encontrar o ouro se reuniram na encruzilhada próximo ao seu Germano para uma jornada de trabalho não muito regular. Eram o seu Pompílio, dono da propriedade, o Verceli, filho do seu Antonio Graminho, conhecido como Tatão e o Dionísio, conhecido por gostar de uma pinga e que tinha a mula que se ajoelhava para montar quando estava meio passado. Munidos de cavadeira, pá, picareta e evidentemente uma purinha pra espantar o frio. Ao cair da tarde rumaram para o local. Aqui é preciso ressaltar que várias precauções devem ser tomadas quando se procura ou se cava um guardado. 1 – Ninguém além dos escavadores pode ver o trabalho. 2 – Tem que ser sempre um número ímpar de cavadores pois um deve ser o parceiro da alma penada que guarda o tesouro, este deve ficar só olhando, sempre tem um número par trabalhando e uma pessoas observando. 3 – As medidas são sempre em passos ou braças, seguindo as direções dos pontos cardeais a partir das referências. 4 – Nunca se deve levar luz artificial, archote, lanterna ou qualquer coisa que o valha quando o serviço for feito à noite. 5 – Os horários mais indicados para libertar o espírito guardião são o meio dia e a meia noite. 6 – O achado não pode ser dividido no local, a divisão deve ser feita num cemitério, de preferencia em noite de lua cheia.

De posse destas informações nossos amigos rumaram para o potreiro onde começaram a fazer os cálculos a partir da aroeira, 15 passos exatamente a oeste. Cada um mediu os quinze passos e depois foi feita uma média para ter maior precisão do local onde deveria ser cavado. Decidido o local começou a tarefa que deveria ser concluída antes da meia noite, destapar a urna do tesouro que deve ser aberta exatamente a meia-noite e depois fechada novamente até a divisão, que pode ser feita na mesma noite ou noutra, num cemitério, desde que fique ao abrigo da luz do sol.

A noite é fria e úmida, mesmo sendo noite de lua, está escura devido às nuvens. O trabalho é cansativo, mas a recompensa promete. De vez em quando uma rodada no bico da garrafa reanima os cavadores que se revezam no uso das ferramentas. O bom é que a terra está úmida e a cavadeira rende bastante, em alguns momentos até com a pá dá pra cavar, a picareta foi desnecessária pois não tem pedra. Depois de mais de hora no trabalho de escavação, no turno do Dionízio ficar de parceiro do guardador, como ele era fumante resolveu acender um pito. Isso foi a ruína da empreitada.

Seu Chico, homem de sono leve que morava a uns trezentos metros do local, acordou com um barulho pouco habitual e foi até a porta da cozinha para ver o que era. O ruido vinha do potreiro do vizinho e exatamente neste momento o fumante dava uma tragada, sendo assim seu Chico viu uma luzinha. Ficou olhando e constatou que o piscar da luzinha se repetia mais ou menos regularmente. Vestiu-se para verificar o que era, quando chegou ao passo do arroio reconheceu os vizinhos e ficou observando a tarefa. Assim foram quebradas pelo menos três regras: mesmo que muito fraco o cigarro era uma luz, uma pessoas que não participava da escavação viu o trabalho e uma quarta pessoa presente quebra a regra do ímpar.

Chegou a meia noite e nem sinal da arca do tesouro, o fumante foi acusado de ter traído o grupo, acender o cigarro quebrou uma regra e o guardador deve ter confundido eles para que não achassem o tesouro. Uma pequena discussão quase que aos cochichos pôs fim a aventura, a equipe se dispersou mas a aventura ainda teria desdobramentos.

No outro dia

Seu Chico costumava levantar bem cedo, munido de uma velha ânfora de barro quebrada se dirigiu até o escavado. Na parede oeste do buraco, que tinha mais de metro de profundidade, cavou quase na superfície, um buraco mais ou menos com a forma da ânfora quebrada. Assentou a peça no buraco e pressionou bem para que ficasse bem marcado o lugar como se ela estivesse aí por muito tempo. Bateu com o cabo da cavadeira até quebrar a cerâmica e deixou os cacos caírem no fundo do buraco. Tudo isso enquanto a chaleira aquecia a água para o chimarrão. Voltou para casa e sentou-se na cozinha para cumprir o ritual de chimarrear até o nascer do sol como costumava fazer diariamente.  não sorvera ainda o segundo chimarrão quando uma visita interrompe a cerimônia, é o Verceli.

– Bom dia seu Chico.

– Bom dia! Veio chimarrear comigo?

– Na verdade vou até o armazém do seu Germano buscar açúcar pro café, mas acho que anda não abriu, é inverno. Sabe?

De fato seu Germano não costumava levantar muito cedo e muito menos nos dias frios, foi então que seu Chico sugeriu que poderia emprestar uma xícara ou duas de açúcar, mas o Verceli insistiu que iria até seu Germano. Tinha que comprar fumo e também outras coisinhas. Falava sempre olhando em direção à estrada ou melhor ao potreiro do vizinho onde podia se ver uma mancha avermelhada da terra cavada destacando-se do verde do gramado. Seu Chico já havia percebido que o rapaz queria descobrir se ele vira alguma coisa na noite anterior, mas se fez de desentendido, até que olhando para o potreiro exclamou:

– Nossa! Olha lá Verceli, parece que o Pompílio esta lavrando o potreiro.

O Verceli, que tinha uma visão mais jovem e melhor, completou:

– Acho que não é lavrado parece um buraco. Vamos lá ver o que é!

Era a deixa que ele queria para ir até lá com o rapaz, e se foram os dois. No caminho o Verceli questionava porque alguém iria querer fazer um buraco no potreiro. Seu Chico falou que poderia ser o Pascoal, o Florinal ou o Daciano que diziam que tinha por aí um enterro de dinheiro. E nessa conversa chegaram ao buraco…

Como chegaram pelo lado oeste não viram, num primeiro momento, a “casa” da ânfora, somente o buraco, que media mais ou menos um metro e meio por um metro e meio e uns seis ou sete palmos de profundidade. Chegando mais perto viram os caos de cerâmica no fundo do buraco e seu Chico então quebrou o silêncio:

– É, pelo jeito tiraram um guardado! Mas pelo que se pode ver não era dos maiores.

O Verceli tremia, o velhote entrou no buraco e começou a revirar os cacos de cerâmica de onde discretamente tirou um patacão de ouro que levara nas mãos.

– Olha aqui! Deixaram cair uma moeda.

o rapaz estendeu a mão para pegar, mas o Chico recuou:

– Esta estava destinada para mim, veja só. Vou mandar rezar uma missa para a alma do guardador.

Reviraram mais uma vez a cacaria de cerâmica e foram cada um pro seu lado.

O Rapazola que iria buscar açúcar no Germano foi direto a casa do parceiro de escavação para relatar o ocorrido, juntos fora ter com o Dionízio para ver que atitude tomariam a partir do evento. A esta altura já tinham certeza que o velho Chico tinha encontrado o ouro, só não tinham como provar. Decidiram que ficariam atentos a todo e qualquer movimento, e não deu outra. Na visita do vigário à capela dos Três Mártires seu Chico, que não era nem um pouco religioso, foi a missa e pediu orações nas intenções de sua família.

– Era esta a prova que faltava, tinha sido ele.- 

Passado algum tempo as crianças do Lino descobriram que o velho tinha alguns documentos antigos que ele mostrava de longe para as crianças mas não deixava tocar. Ele sabia que os guris do Lino brincavam com o Verceli e o irmão dele.

Alguns anos mais tarde eu soube que ele foi sondado se queria vender os documentos históricos que guardava, mas ele desconversou.

Esta é uma das muitas histórias que ouvi do velho Chico Flores numa das tardes que passávamos com ele admirando suas invenções, como o riacho que passava por dentro de sua cozinha.

Primórdios do CTG

Já passou há muito o tempo em que a gente se reunia na casa do vô para ouvir o programa do Valter Broda e do Pinguinho no rádio.  Até pouco tempo só o domingo era o dia de congraçamento e descanso. Depois da missa ou terço dominical o restante do dia era preenchido por um carteado no bar, para os homens casados. Visitas às comadres pelas senhoras, que sempre tem um motivo para visitar alguém. As crianças? Bem! As crianças andam soltas pelas redondezas, delas vou falar outro dia. Alguns jogam um futebolzinho, outros um futebolzão. Os jovens, nas intermináveis rodas de prenda na sombra dos timbós do patio da capela,  praticam jogos que facilitam a escolha dos futuros pares de namorados. Namorados que esperam ansiosos para o novo encontro no próximo domingo.

Nem é preciso dizer que cada uma das frases acima dá um livro se for contada nos detalhes. Mas a verdade é que durante a semana não havia motivos de encontro o que ficava limitado a algum serrão por motivos de aniversário ou outro qualquer em alguma casa ou as cantorias do tio Lino, alguma roda de viola dos Oliveira ou dos Cargnin, mas nada que desse motivo para a comunidade toda se reunir mais que um dia por semana.

Foi lá nos anos 60, a Vila Trentin, acho que por invenção do tio Miro, passou a ter mais uma oportunidade de convívio social na semana, a noite de CTG. Final de expediente na oficina, a serragem precisa ser removida, a oficina varrida, hoje é quarta-feira dia de se reunir para cantar dançar declamar e muito mais. Cada um apresentando seus talentos e com uma diferença de tudo mais. Uma grande diferença das reuniões dominicais, aqui todos se reúnem desde os patriarcas até as crianças, mais parece uma festa de família.

O povo janta cedo a começa a fluir em direção a oficina agora com o status de sede de convívio social, evidentemente que está sem poeira e bem iluminada, afinal energia não é problema para quem tem usina própria. O pessoal vai se acomodando como pode, bancos improvisados, uma serra circular ou uma aplainadeira agora promovidas a mesa e o espaço central de montagem de móveis agora é a pista de dança.  Vale tudo, desde uma gaita bem tocada pelo tio Ângelo, uma moda de viola com os irmãos Oliveira, uma performance dos irmãos Arcanjo e Domingos Cargnin com sua rabeca feita em casa até as cantorias em grupo das famílias do tio Lino e tio Luis.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Padre Theodoro registrou as primeiras manifestações do CTG para mostrar na Alemanha.

Passado algum tempo o movimento social ganhou fama e começou a vir gente de outros povoados, no entanto a glória foi quando apareceu numa quarta feira o Padre Theodoro com um gravador. Uma das noitadas seria registrada em fita para mostrar na Alemanha, na próxima viagem de ferias que ele fizesse. A primeira vez não deu muito certo e na outra semana estava o vigário de novo na Vila. A noite de quarta-feira era única, era a oportunidade de ver reunidos os patriarcas, Bortolo Trentin, Antônio Trentin, Artur Oliveira, Pedro Dalbianco e Ângelo Fassini com suas senhoras. Os jovens casados com esposas e filhos e a juventude.

Tentando tornar viva esta história compus um xote, a música com dança que me encantava naqueles encontros, chamado “Baile dos Trentin” qualquer dia posto uma gravação decente do mesmo.

Rede: um local para se sentir seguro.

Uma das mais belas figuras para ilustrar a forma de nossa convivência humana é a rede, é claro que deitar numa rede à sobra no verão é uma excelente ideia, uma rede é uma estrutura que nos acolhe e nos sustenta, por isso nos sentimos seguros nela.

Rede: lugar confortável e seguro

Rede: lugar confortável e seguro

Vou continuar a pensar nela, só que queria falar de uma rede tipo rede de pesca, onde os fios ligam os nós a outros nós, e para continuar cada um de nós é um nó.

Os primeiros fios, são as relações que nos ligam a nossos pais, nossos irmãos, nossos filhos, são fios de nossa geração, eles nos ligam a nossos antepassados e a nossos descendentes, são as linhas biológicas. Estas relações são fechadas e imutáveis. Quando fazemos um encontro de família estamos buscando conhecer e estudar esta relação, a que nos liga a nossos parentes. Podemos até calcular o grau de parentesco, é muito fácil, basta contar todos os nós que nos separam do parente e diminuir dois aí temos o grau, vou usar como exemplo o meu primo Joel, isso vale para todos os outros primos do mesmo grau dele. Vejamos: Eu, minha mãe, o vô Bôrtolo, o tio Luiz, o Joel; três nós me separam dele: Bazilides, Bôrtolo e Luiz menos dois igual a um, logo somos parentes de primeiro grau. O cálculo feito para a Ana, do Toni, seria: Eu, minha mãe, o vô Bôrtolo, o bisavô Serafim, o tio-avô João, a Ana; quatro nós me separam dela, menos dois igual a dois, logo somos parentes de segundo grau, e assim por diante podemos calcular estas relações matematicamente, é uma relação exata, limitada pela relação biológica. No entanto desenvolvemos em nossas vidas outras relações.

Provavelmente o segundo nível de relações, ligações, que desenvolvemos são as amizades, começamos pelos amigos de infância, aqueles que brincavam juntos quando começávamos a nos conhecer e aprender as regras de convivência social. Alguém já tentou jogar futebol sozinho? – Não dá né! E sem regras? – Também não! Assim vamos criando laços, ligações fios que são de outro nível, não é mais biológico e nem lógico. Estas relações podem pular por cima de vários nós e nos conectar diretamente a outra pessoa que está em nossa rede biológica ou em outra rede. Pode ser um laço curto ou longo. Não é mais a matemática que decide a distância, somos nós.

Outra camada que desenvolvemos é a do conhecimento, aprendemos com os outros e ensinamos os outros, estes são laços de duas vias, ensino-aprendizagem. Nesta rede minhas primeiras ligações foram com a professora Izene e a professora, tia, Iria. Na saudosa Escola Roque Gonzales, ainda no tempo que era apenas uma salinha de aula onde de manhã tinham aulas o primeiro, terceiro e quinto anos com a professora Izene e à tarde o segundo e o quarto com a professora Iria. Estes laços são de duas vias porque é impossível que alguém apreenda alguma coisa sem influenciar quem ensina. Assim os laços de ensino-aprendizagem são de mão dupla, por isso são muito fortes.  O problema é que quando sintonizo alguma coisa me dá uma vontade louca de dar corda na minha máquina do tempo e voar pra lá, vou usar a escola como base de meus voos, nos primeiros tempos de aula eu chegava lá as oito da manhã…

A escola

Quase sempre chegávamos, o Léo e eu, em cima da hora a campainha já tinha tocado e a turma subia a escada, cada um tomando seu lugar, eu sentava na segunda fila das classes do lado direito de que entrava. Deste lado ficavam os alunos do primeiro ano, do outro ficavam as classes dos do terceiro e quinto anos, aquelas eram maiores e mais

A escola recebeu classes usadas.

A escola recebeu classes usadas.

rústicas com bancos para três ou quatro alunos. As classes do primeiro ano eram daquelas duplas, a da frente só tinha a mesa e as demais eram um banco com a mesa da fila de trás acoplada e assim por diante. Naquele ano a escola recebera classes com pernas de ferro, vindas de alguma escola que fora reformada. O quadro era feito de três tábuas aplainadas de uns trinta centímetros de largura, pintadas com tinta feita de casca de jabuticaba pelo vovô. (Um dia destes vou falar das químicas do vovô). A escada era enorme, para mim pelo menos, tinha uns três ou quatro degraus e a gente usava como palco para declamar poesias em dias comemorativos, dia das mães, dos pais, da independência entre outros. Na parede do quadro tinha duas janelas, uma de cada lado, onde a professora botava os “de castigo” quando não sabiam a lição. O Léo e a Zélia eram clientes frequentes de ficar de pé junto a janela lendo o livro. Lembro de uma vez que o Léo foi de castigo e deixou cair o livro para fora, a professora mandou ele buscar, ele saiu para buscar o livro e fugiu. Me esperou no caminho e me ameaçou caso eu contasse em casa.

A base da construção era feita de enormes, sempre na minha visão, tocos de madeira(cepos). Eu passava de pé folgado por baixo do assoalho, lembro bem que tinha muito “tatuzinho” (formiga leão)

Armadilha_Formiga-leão

Armadilha da formiga leão – tinha muito disso debaixo do assoalho da escola.

no pó em baixo da escola e a gente costumava brincar com eles derrubando alguma coisa no cone da armadilha para ver ela sair, ou assoprava o pó até descobri-la. Acho que teremos que reunir os alunos daquele tempo para escrever um livro…

Foi a escola que criou os primeiros e mais sólidos laços de conhecimento de minha vida. Foi a ligação do apreendido na escola com o vivido e experimentado em casa que me deram uma visão de mundo única e exclusiva. Isso não é nenhuma novidade, pois cada um tem sua visão única de mundo, mas a minha se constituiu num universo de informações, vivências e experiências que vou compartilhando para  que outros possam compreender como funciona o universo formativo que me acompanhou e me acompanha. Muita coisa que vi e vivi ou ouvi somente se tornou conhecimento muitos anos mais tarde quando outra informação possibilitou que ela se ligasse de forma lógica no universo de meu conhecimento. A rede do conhecimento vai se formando a medida que uma informação é compreendida e se liga a outra já dominada pelo indivíduo, por isso, plagiando Piaget, a rede do conhecimento é certamente a mais sólida porque para “cada ponto tem um ou mais nós e cada nó tem muitos pontos”. É a rede mais complexa porque não basta a informação, ela tem que estar ligada a uma vivencia anterior. Por isso a minha máquina do tempo funciona sem parar…

PS.: Alunos da Escola Roque Gonzales, uni-vos!

Ir para as pitangas (cerejas)

Esta história se passa no tempo em que o tio Miro estava a namorar e aconteceu na época de cerejas maduras, ou seja, lá pelo fim de setembro ou início de outubro. Como não tinha cerejeiras nos matos próximos da vila a gente tinha que fazer uma bela caminhada para se deliciar com as ditas frutas, de lambuja se fazia uma bela corrida de carro de lomba e bicicleta de pau. A bicicleta de pau era um artigo corrente entre os Trentin também tinha os carros de lomba que ofereciam algumas sofisticações com relação aos carros tradicionais de todos os outros meninos da época. Aqui precisa ser feito um parêntesis para deixar claro que a família tinha dois inventores que sempre achavam um jeito de sofisticar os brinquedos e acrescentar novas funcionalidades. Carro de lomba era a especialidade do tio Miro e bicicletas era com o to Anjo.

A bicicleta é um charme, esta foi feita para mim pelo tio Anjo, mas o carro do tio Miro era quase uma limousine.

A bicicleta é um charme, esta foi feita para mim pelo tio Anjo, mas o carro do tio Miro era quase uma limousine.

Na época ainda morávamos no casarão, o tio Luís acabara de se mudar para a casa própria, o tio Anjo morava um pouco adiante quase em frente o tio Antônio (meu tio-avô) Logo depois vinha a tia Santina (tia avó), mas não é pra contar isso que comecei a história e sim para falar da aventura de comer cerejas. Pois bem, era domingo e tinha cereja madura no mato do seu Pedro aí aproveitando que o tio Miro ia namorar a gente foi junto e para levar toda a criançada não dava pra ir num carrinho de lomba mixuruca, por isso e tio fez um reboque pro carro dele. O carro tinha assento com encosto e direção para dirigir com as mãos e freio de pé, observem que isso não combina nem um pouco com carro de lomba tradicional que se dirige com os pés e se freia com a alavanca de mão. Pena que não tenho foto do carro porque era algo a ser relembrado. Mas eu estava dizendo que para levar a criançada não dava pra levar num carrinho, então o tio acrescentou um reboque. Era feito com uma tábua de uns três metros e com um rodado numa ponta e apoiado com um pino no carro na outra ponta, cabia uns seis piás nele.
Não lembro quem formava o time de piás naquela vez lembro do Leo, meu guardião e do Pascoal, do tio Antônio, que era o encarregado de empurrar lomba acima o reboque. O tio Miro conduzia o carro o tempo todo. A gente ia comer cerejas e brincar de carro de lomba enquanto o tio namorava, acho que ele levava os sobrinhos para distrair os cunhados, Milvo, Minervino e Mauri, para que eles não ficassem enchendo o saco.
Logo que a gente chegava ia direto pras pitangas, digo pras cerejas, que ficavam perto do rio na várzea do potreiro. Depois que enchia a barriga de cerejas a gente voltava pra casa aí o tio ia namorara e nós ficávamos brincando na lomba que tinha na frente da casa, as vezes empurrava o carro e o reboque até perto do Otacílio, lomba acima e depois de lotar o coletivo descíamos a toda velocidade em direção à casa, as vezes a gente ia até quase o rio. Outras vezes brincávamos no potreiro, mas sempre o carro era nosso enquanto o tio namorava, depois ele se apossava de novo do carro e íamos para casa. Algumas vezes também se reuniam o Arcângelo e o Domingos Carnin, que também tinham carros sofisticados e bicicletas de pau.
Assim um domingo típico da gurizada era sempre uma aventura. Como hoje colhi minhas cerejas fiquei rememorando estas histórias, acho que a próxima vai ser dos guabijús.

A tia malvada

Desde a mais tenra infância começamos a classificar as pessoas de acordo com o que elas representam na nossa vida.

Em 1955 minha compreensão de mundo era ainda bastante limitada, há pouco tinha terminado a época de fazer açúcar, acho que era no mês de agosto porque muitas árvores ainda estavam desfolhadas, eu tinha então um ano e seis ou sete meses. A tia Mími, que não era má, estava fazendo carrinhos para as crianças, Léo, Bena, Zeca da tia Rosa, Zeca do tio Luís e outros que não lembro, todos maiores que eu evidentemente, e eu estava enchendo o saco que também queria um. Os ditos carrinhos eram confeccionados com latas de sardinha, rodinhas de carretel cortado ao meio e um eixinho mais ou menos da grossura de um lápis que atravessava a latinha e ligava as rodas. Eu já disse que eu queria um também, mas acho que a tia não estava muito afim de fazer o meu, ela estava fazendo para os maiores primeiro então como desculpa para a demora do meu foi que ela não tinha madeira para o eixinho.

Desde esta época eu já tinha disposição para resolver meus próprios problemas, e é claro, também sempre estive pronto para ajudar, ainda mais quando era para ajudar a fazer meu carrinho de lata de sardinha. Como não tinha eixo a saída era procurar o material, fui então até agaveta dos talheres da cozinha da vó e peguei uma faca de mesa, daquelas com cabo metálico de ponta redonda e bem pesada, pelo menos para meu tamanho era pesada, e fui a cata do material.

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as  tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Fotos das bodas de ouro do Vovô Bortolo e da vó Maria. Tirada nos fundos do moinho, com os filhos genros e noras. As três sentadas são as tias solteiras na época: tia Dona, tia Mími e tia Sila

Saí entre o galpão e os fundos do moinho, passei pelo galpãozinho dos tachos, pelo engenho de moer cana e encontrei uma árvore com as características desejadas atrás do engenho (serraria) perto da passagem de levar a serragem pro outro lado da valeta. A árvore que eu estava tentando cortar, não lembro muito bem só que estava sem folhas. Ao lado de uma pata de vaca que tinha folhas…

… a cena termina aqui. De agora em diante é o que me contaram…

Um dos filhos do tio Antônio que estava na serraria me ouviu gritar e foi em meu socorro, eu fora picado por um bicho venenoso. Me levaram para casa e me acudiram com as poções mágicas que o vovô Bôrtolo sabia muito bem preparar e foram procurar o animal que tinha me picado. Acharam nas imediações um escorpião que foi o acusado da tragédia. Fui medicado e graças aos cuidados com as ervas e misturas milagrosas sobrevivi, apesar de dizerem que um escorpião é capaz de matar uma criança do meu tamanho.

… passaram mais alguns dias e minha memória está de volta…

Estou no colo da nona Rosa, minha bisavó, que fazia questão de andar pra lá e pra cá comigo no colo. Eu não consigo dormir por causa da dor no polegar direito, enormemente inchado. Não bastasse a dor, meu polegar era a minha chupeta e eu até que queria chupar o dedo mas…

A tia malvada, a tia Dona, com a cara mais séria do mundo me alertava.

  • Se tu chupar este dedo envenenado vai morrer.

Eu não tinha nem ideia do que significava morrer, mas certamente seria algo bem pior do que a picada do escorpião. Só sei que foi o meu grande trauma de infância, o medo de morrer e assim cumprir a profecia da tia malvada.

O tempo passou, a tia foi pro Castelinho para ser professora e só deixou de ser malvada quando emprestou o livro manuscrito “Pavão misterioso” uma de minhas primeiras leituras de infância. Depois ela casou e ficou definitivamente morando por lá, vantagem pra tia Mími que continuou sendo a babá da criançada.

Oba nheiro!

Oba nheiro! (Isso mesmo, finalmente um lugar reservado para o banho)

Já falei anteriormente do canal (valeta) que trazia água do lajeado do Moinho desde a Olaria do tio Atílio Zanon, depois do João Roberval, depois do tio Gervásio… e foi passando de mãos, até a Caixa d’água de onde descia em duto de alta pressão (cano) até a usina. Também falei que ela cercava o arvoredo e a horta, dos quais falarei qualquer dia, e tinha umas passagens para pedestres, mas tinha também uma ponte por onde podia se passar de carroça, ficava exatamente onde agora passa o caminho que leva à gruta.

Voltemos atrás na Rua Ipiranga, naquela época rua principal, a única da vila. Partiremos da curva à direita. Onde agora tem a carpintaria tinha a cancha de toras, local onde ficavam as toras de madeira para serrar, à esquerda onde tem a jabuticabeira (conheci ela pequeninha), era o pomar do vô. Um pouco mais a frente ficavam, a esquerda o moinho e a direita a serraria, no inicio tinha duas: a dos Manfio e a dos Trentin, mais tarde ficou só a dos Trentin. Alguns anos depois no lugar da dos Manfio foi construída a oficina que queimou. Descendo à esquerda antes do moinho chegava-se ao terreiro das casas, a primeira da esquerda era a do nono Serafim e da nona Rosa, depois vinha o casarão que tinha a grande sala e os quartos de diversas famílias, a nossa também, e as tias dormiam no sótão, finalmente tinha a casa da vovó com biblioteca, o quarto deles, a sala e a cozinha comunitárias. Aí tinha um caminho que atravessava a valeta até o chiqueiro dos porcos. A direita do caminho atrás do moinho e a esquerda da “estrada da gruta”, como chamávamos, ficava o galpão. Do outro lado da estrada da gruta ainda antes da valeta ficava o coberto, apenas um telhado, dos tachos de fazer açúcar. Um pouco mais adiante, já atrás do “engenho” – serraria – tinha o “torchio” de ferro que servia a quase toda a comunidade. Acho que terei que fazer um mapa disso, pois vai voltar muitas vezes.
Passando a valeta em direção à gruta tinha à esquerda o chiqueiro dos porcos, depois os pés de araticum, à direita, num nível bem mais abaixo, ficava a casa do tanque de lavar roupa e o banheiro. Uma canaleta de madeira a bica, saia da valeta e jogava água no tanque, um caixotão de madeira com tábuas enormes dos dois lados onde podiam lavar roupas umas seis pessoas, três de cada lado. Como o tanque era alto podia-se lavar roupa de pé, posição ergonomicamente muito mais confortável do que de joelhos no lavador do rio. Voltarei mais tarde a falar deste local que também protagonizou muitas histórias.
O assunto de hoje é o banheiro, um quartinho fechado que tinha passando o tanque, fazendo parte do mesmo edifício, eu disse edifício, mas deveria dizer é difícil. Quando alguém queria tomar banho era só encaixar um prolongamento na bica do tanque e a água passava a jorrar dentro do banheiro, água fria é claro, mas com o conforto de ser um edifício fechado. O que mais me arrepiava era ter que tomar banho frio, o que acontecia seguidamente, pois éramos um tanto ativos e isso incluía brincar na serragem, na água do rio, no ladrão (comporta de nivelamento e alívio de excesso de água), nos matos, na cancha de toras e no potreiro. Hoje quase não tenho folego para narrar tudo isso, imaginem na época fazer.
O tanque era o lugar das tias, filhas do vô Bortolo, e das primas delas, filhas do tio Antônio, se reunirem para lavar roupas e contar histórias, alguns maldosos diriam fofocar. De uma forma ou de outra era um lugar de socializar conhecimentos e descobertas. Segunda-feira era o dia de lavar roupa por excelência, pois após o domingo de festa, jogo de prenda, futebol ou outra atividade sempre tinha o que falar, digo sempre tinha roupa para lavar. Mas não era só roupa que se lavava no tanque, antes do almoço lavávamos as mãos na bica do tanque.
Depois a criançada toda ia para a casa da vó onde o almoço esperava. Almoçávamos sempre separados dos adultos e quem nos cuidava era a nona Rosa. Dos almoços não tenho muitas lembranças, mas lembro do café da manhã muito bem, chá-de-mate com leite, pão e chimia, e a nona como um general a comandar “- bevi matto” (tomem o chá-de-mate). Às vezes o vô Bortolo passava e se alguém derrubasse o pão ele logo fazia uma previsão, se o pão caísse com a chimia para baixo o derrubador ia ser pobre, pois “o pão do pobre sempre cai com a manteiga para baixo.”
O vô Bortolo tomava o seu chá-de-mate numa baita xícara, até parecia uma sopeira, com pão torrado, eu achava aquilo o máximo, mas nós nunca ganhávamos pão torrado.
Depois do café o nosso trabalho era brincar o dia inteiro, exceto quando tinha algum trabalho especial para fazer como juntar feijões, esta será a próxima história, eu acho…

Banho de rio

Lá pelos idos de 1957, na Vila Trentin, já tinha energia elétrica, mas ter água encanada ainda não era uma realidade. Há pouco fora cavado o poço que aliviou o trabalho de transporte da água desde a fonte, as caminhadas com baldes foram substituídas pelo girar da manivela do poço. A água para consumo e limpeza estava muito mais fácil, no entanto o banho ainda continuava complicado, era banho de bacia. Para lavar a roupa tinha o rio, com abundância de água, era só procurar um bom lugar para o lavador e pronto. O lugar, no lajeado do Moinho, era acima do passo do seu Facin (Fassini).

O caminho que saía entre a casa da nona e o casarão tinha uma ponte sobre a valeta que levava até o passo (lugar onde o arroio do Moinho podia se atravessado a pé) para ir até o seu Facin. Um pouco acima no arroio tinha um lajeado onde o arroio corria numa camada de água quase laminar que funcionava como um escorregador (hoje chamam isso de toboágua) só que este era proibido para as crianças porque terminava no poço do lavador de roupas, que diziam não ter fundo e ser muito perigoso. Lá sempre tinha um lavador de roupas que servia à comunidade antes de ser feito o tanque comunitário.

Era neste lugar que brincávamos enquanto a mãe ou alguma tia lavavam roupas. Passávamos muito tempo brincando lá, quando vinha a tia Rosa, vinham a Quida, a Zeca e a Meri e “nós” fazíamos companhia. Nós, aqui se refere à tia Mími, às vezes o Catarino, o Leo e eu. Quando vinha a tia Irene as companhias mudavam eram a Bena, a Zeca do tio Luís e o Selito. Às vezes vinha também o Narciso, a Maria Terezinha e a Erotildes, mas as presenças constantes eram a tia Mími, o Leo e eu. Como a gente brincava com a roupa, terminávamos o dia imundos, não raro no final da lavagem de roupa a mãe aproveitava para lavar a roupa molhada e dar banho na gurizada, arrematando o trabalho do dia. Quando não tinha roupa seca tocava os peladinhos pra casa onde eram vestidos.

Eu era um minguadinho curioso que estava sempre enchendo o saco de todo mundo, minha parceira preferida de artes era a Mariazinha, pois tínhamos praticamente a mesma idade e sempre dependíamos de algum dos maiores para participar das brincadeiras.

Cachoeira do moinho

Esta é a Cachoeira do Moinho, enumerada como a primeira da série, cai diretamente dentro de um poço circular de aproximadamente 2 metros de diâmetro e uns 70 cm de profundidade, observem a esquerda da cachoeira a pedra molhada com pouca água, com rio cheio era nosso toboagua.

Se tivesse algum dos maiores para fazer companhia, íamos escorregar na corredeira abaixo do poço do lavador, que descia ao lado da cachoeira do moinho. Lembro que tinha uma enorme madeira (enorme para meus padrões da época), encravada no barranco do rio, fazia parte da estrutura de suporte da roda d’água do antigo moinho, onde o vovô morou nos primeiros anos quando chegou. Quando tinha mais água era uma maravilha escorregar por aquela corredeira. E não tinha perigo de cair em nenhum poço sem fundo, pois ela terminava numa parte plana e rasa do rio.

Quando tinha menos água somente corria pela cachoeira e caia diretamente dentro do poço redondo que nestes casos era incrivelmente divertido brincar nele, pois não era fundo e tinha acachoeira que caia como um chuveiro. Os tios e o pai gostavam de tomar banho neste poço porque era bem prático. Uma banheira com um chuveiro natural, todo esculpido em rocha basáltica, limpinho, sem depósito de terra e sem limo. Já as tias e a mãe não usavam esta facilidade porque ficava muito exposto, era perto do passo e num lugar aberto. Como convinha na época elas usavam o poço e a cachoeira do perau.

É exatamente disso que falarei hoje, concordo que deveria ser muito chato passar a vida toda tomando banho de bacia e por isso, às vezes, a mãe e as tias iam banhar-se no rio, muito bem escondidas, é claro. No entanto um curioso – o bichinho carpinteiro – eu, quando tinha uns três ou quatro anos resolvi ir atrás do grupo que ia para o rio.
Eu não ficava sem companhia feminina, ou ficava com a tia Mími, com a nona ou com a mãe, naquele dia saíram todas e eu não encontrei a nona então resolvi segui-las. Apesar dos protestos, e de elas terem me corrido umas duas ou três vezes, esperei um pouco e fui atrás, elas tinham descido em direção ao seu Facin, fui naquela mesma direção e logo ouvi a algazarra, vindo da direção do poço do perau, era bastante perigoso chegar até lá, como a mãe havia dito – Vamos para um lugar perigoso demais para ti. Eu adorava brincar na água, mas já sabia o significado da palavra “perigoso”.

Cachoeira do perau

Cachoeira e poço do perau, vista de baixo. Esta é a segunda cachoeira do lajeado.

O caminho era bem conhecido, como descer rio abaixo, a partir do passo até chegar ao trecho plano que antecedia a dita cachoeira, lá não brincávamos porque era muito alta. Não lembro como cheguei até a parte de cima da cachoeira do perau, quando me aproximei o suficiente para ver as cabeças delas a mãe me viu e já gritou:
– Para! Não chegue mais perto que é perigoso.
Não me aproximei muito porque a tia Dona me alertou que se eu chegasse mais perto poderia cair e morrer, como morrer para mim significava algo pior do que picada de escorpião e eu nem queria pensar nisso, fiquei chorando lá em cima. Esperei o tempo todo do banho delas até que elas começaram subir a cachoeira e voltar para casa. Então a tia Mími me pegou pela mão e me levou para casa.

poço do perau

Poço do perau, visto de cima da cachoeira. Fotomontagem a partir de várias fotos em computador. Ao fundo onde parece que termina o rio começa a cachoeira dos degraus. Estas três cachoeiras, ficam acima do poço das corvetas e são desconhecidas da maioria dos visitantes da gruta.

Para mim o rio e a água sempre representaram um lugar de brincadeira, embora tenha passado episódios de minha vida onde ela significou perigo, que narrarei qualquer dia. Depois desse episódio, por muitos anos ainda, o banho de rio para se lavar era uma DSC05825abrincadeira de adultos que iam para o rio com sabão e toalha. Somente muitos anos depois, passei a compreender a facilidade que o rio representava, e suas vantagens com relação ao banho de bacia. Muita água vai rolar por estas páginas até antes de esgotar as minhas histórias.

Taquara furada

Muito antes de começarem as importações de bambus lisos, do Oriente, aqui no Rio Grande só tinha os da família das taquaras. Muito comum nos capões e matos do Alto Uruguai eram as Merostachys clausseni – Taquara-mansa, que era ótima para fazer flautas e cestaria por ter a parede dos tubos fina e uniforme, com pouca conicidade no tronco e a Guadua Trinii ou Guadua Tagoara – Taquara-brava, Taquaruçu ou Taquara de espinhos, esta última com as paredes dos tubos mais grossa e apresentando uma maior conicidade no tronco. Ambas têm as paredes bastante ásperas que obriga o artesão a raspar a superfície para fazer trabalhos com melhor acabamento. Outras taquaras nativas também usadas para cestaria eram as criciúmas ou taquaris que apresentam caules bem finos e praticamente maciços.
Apesar de o assunto ser taquaras não é especificamente delas que quero falar hoje, e sim da tecnologia moderna. Atualmente se encontram no mercado inúmeras opções de canos e mangueiras para condução de água, voltemos algum tempo na história e descobriremos os mais primitivos e estranhos objetos usados com a mesma finalidade, folhas de inhames e taiobas, porongos ou cabaças, sacos de couro e balde de madeira dentre algumas das tecnologias usadas desde a época das cavernas, instrumentos para carregar água de um lugar para outro em pequenas quantidades. Já na época do império Romano se destacaram os canais que desviavam verdadeiros rios seguindo curvas de nível e os aquedutos para ligar os canais em nível acima do solo. Estes sistemas permitiam disponibilizar água corrente em lugares mais altos, naturalmente sempre que estivesse disponível uma fonte mais alta. Alguns mecanismos foram desenvolvidos na China e por outros povos orientais para elevar água, em quantidades razoáveis que depois seguiam por canais e aquedutos até seus destinos. Leonardo da Vincci foi grande arquiteto de represas, túneis, canais e aquedutos para irrigação e para disponibilizar água em cidades italianas. Tudo isto eu só descobri muitos anos mais tarde.
Até meus sete anos o que eu conhecia de sistemas hídricos eram os canais (valetas) que conduziam água dos lajeados do Moinho e do Papagaio até a caixa d’água da usina, daí a água descia 40 metros num cano, quase vertical, chegando à usina com altíssima pressão gerando a força para o dínamo. Até aí tudo se comportava logicamente, a água descia pela gravidade ou era conduzida onde fosse necessário sempre seguindo um caminho, do mais alto para o mais baixo, seguido curvas de nível levemente descendentes, no entanto uma coisa me intrigava lá na casa do tio Osvaldo.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão.

Numa foto do Google com relevo, adicionei legendas para melhor compreensão. Em primeiro plano as casas da vila. No meio do mato a churrasqueira da gruta.

A casa ficava uns cinquenta metros abaixo da fonte, que fica atrás da casa atual. Devido à permeabilidade do solo a água da fonte não corria muito e entrava na terra de novo, o que obrigava a buscar água de balde na fonte, como acontecia lá na casa do vovô. Mas lá tinha uma vantagem, a fonte ficava num nível acima da casa, o que possibilitava o transporte por dutos impermeáveis como o cano da usina em menores proporções, é claro. O cano da usina era feito em sua maior parte de sarrafos de madeira, como são feitas as pipas e barris, amarrados por arcos de ferro aparafusados a cada metro no início, e a cada 30 centímetros no final onde a pressão era maior, finalmente um trecho era de ferro para suportar a pressão de 568 libras por polegada ou 40 Kgf por centímetro. Lá no tio Osvaldo não precisava tanta sofisticação, a solução estava nos matos que precisavam ser roçados.
Como os matos eram cheios de taquara, em especial a taquara de espinho ou taquaruçu e estes eram ocos, ficava muito fácil transformá-los em canos para a água, bastava furar os nós. Foi assim que o tio Osvaldo com um trado grande de uns três ou quatro metros de comprimento foi furando os nós das taquaras, uma a uma, para transportar o líquido precioso da fonte até o tanque de lavar roupas ao lado da casa. Funcionava que é uma beleza até a conicidade das taquaras ajudava facilitando o encaixe de uma ponta na outra.

A água e seus comportamentos não me eram estranhos, pois crescemos brincando nos canais, nas comportas de escape e nivelamento, os ladrões, onde montávamos nossos moinhos e na bica do tanque de lavar roupas. Outras vezes estávamos dentro do rio subindo cascatas ou mergulhando nos poços. Nada me era estranho a não ser quando a tia Cacildes pegava um cano, taquara furada, e encostava a ponta naquela que despejava água no tanque, e a água subia do tanque até o secchiaro¹, onde ela lavava a louça com água corrente. O que mais me impressionava não era o fato de lavar louça com água corrente e sim o fato da água subir do tanque até o secchiaro. Confesso que levei muitos anos para entender o que se passava… Acho que terei que fazer um capítulo especial sobre como construí meus conhecimentos.

Secchiaro – Nome em italiano do lugar onde se colocam os baldes, secchios. Espécie de gamela de madeira onde se lavava os pratos, em geral tinha um furo num dos cantos com um canudo de taquara que saia para fora para escoar a água usada, para fechar esta saída de água se usava um torno de madeira, um paninho ou um sabugo de milho.