{"id":437,"date":"2017-12-15T12:42:16","date_gmt":"2017-12-15T15:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=437"},"modified":"2020-05-20T16:19:15","modified_gmt":"2020-05-20T19:19:15","slug":"uno-e-altro-tanto-um-conto-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=437","title":{"rendered":"Uno e altro tanto &#8211; Um conto de Natal"},"content":{"rendered":"<p>Muitas das tradi\u00e7\u00f5es que cultivamos tem suas ra\u00edzes perdidas na hist\u00f3ria e nem sabemos mais de onde vieram, assim acontece com a maioria das tradi\u00e7\u00f5es natalinas, tem at\u00e9 quem diga que a data do nascimento de Jesus foi adaptada de uma tradi\u00e7\u00e3o pag\u00e3. Algumas delas s\u00e3o tradi\u00e7\u00f5es criadas pelo com\u00e9rcio, originadas nas tentativas de imitar outros estados em especial aqueles que tem muito poder por serem unidos. N\u00e3o que aqui n\u00e3o sejamos unidos, a uni\u00e3o \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o e em especial na fam\u00edlia Piovesan dizem que nos casamentos deveria se dizer &#8220;na sa\u00fade e na doen\u00e7a, na paz e na desaven\u00e7a, na f\u00e9 e na descren\u00e7a e por ai vai&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Hoje tentarei resgatar um pouco da origem da tradi\u00e7\u00e3o de decorar a casa com anjinhos sobre o telhado. Eu sei que meus leitores devem estar pensando que me enganei e deveria ser o papai Noel, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o papai Noel, este \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio de brinquedos. Anjinhos, bem, pelo menos um est\u00e1 citado na b\u00edblia em Lucas 2:9, no entanto logo depois fala-se de uma multid\u00e3o do ex\u00e9rcito celeste que cantava, mas n\u00e3o diz que eram anjos e nem quantos. Pelo sim pelo n\u00e3o, um temos certeza, est\u00e1 na B\u00edblia. Ent\u00e3o porque na nossa tradi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia s\u00e3o cinco anjos? Teremos que voltar uns anos na nossa hist\u00f3ria, mais precisamente para 1964, o ano das grandes mudan\u00e7as e revela\u00e7\u00f5es de nossa hist\u00f3ria. Por exemplo neste ano \u00e9 que foi abolido o ensino da l\u00edngua francesa nas escolas p\u00fablicas, n\u00e3o tinha interesse comercial. Mas, voltemos ao que interessa.<\/p>\n<div id=\"attachment_440\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Catia-no-Tio-Pio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-440\" class=\"wp-image-440\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Catia-no-Tio-Pio.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"292\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-440\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f3 para provar que n\u00e3o gostamos de seguir regras: Esta foto \u00e9 de 1979 da direita para a esquerda: (-Viu como vou come\u00e7ar virado) Tio Pio, o marceneiro; Tia Clementina, a m\u00e3e; Tarc\u00edsio, com a Janine no colo; na segunda fila a Cec\u00edlia; a Catia; e a Mercedes.<\/p><\/div>\n<p>Se aproximava a data de comemorar o Natal, tradi\u00e7\u00e3o j\u00e1 arraigada na cultura crist\u00e3 ocidental, as fam\u00edlias se organizam como podem para tornar a data festiva mais doce e alegre. Lembremos que as tradi\u00e7\u00f5es comerciais ainda n\u00e3o est\u00e3o presentes nas nossa fam\u00edlias nesta \u00e9poca, at\u00e9 mesmo porque n\u00e3o tem dinheiro para comprar bugigangas mesmo.\u00a0 Numa casinha humilde pr\u00f3xima a um barranco ao lado do rio Portela a santa M\u00e3e cuida o beb\u00ea e com os poucos recursos procura fazer o m\u00e1ximo para festejar o Natal com a dignidade que a data merece, o pai, marceneiro, sim marceneiro n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e3o pensando, carpinteiro era o pai de Jesus esta \u00e9 outra tradi\u00e7\u00e3o. Bem, em resumo: o pai estava trabalhando fora e a m\u00e3e se ocupava em preparar a festa de Natal. Naquele tempo ainda n\u00e3o tinha a tradi\u00e7\u00e3o de peru, champanhe e outras. O Natal se celebrava da seguinte forma: A fam\u00edlia toda ia para a missa do galo, aquela que \u00e9 rezada a meia noite, a parte culminante da celebra\u00e7\u00e3o, depois voltavam para casa, tomavam um ch\u00e1 com bolachas e iam para a cama. Como viram ainda n\u00e3o tinha sido institucionalizada comercialmente a ceia com fogos de artif\u00edcio, peru, champanhe e outros quitutes que se usam atualmente. A prepara\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca, consistia em fazer as bolachas para o Natal com decora\u00e7\u00e3o especial, eram cobertas de clara de ovo batida em neve e salpicadas de a\u00e7\u00facar colorido. Atualmente chamam de biscoitos de Natal, mas n\u00e3o s\u00e3o apreciados na ceia, deve ser porque \u00e9 coisa de pobre. Vamos ent\u00e3o ao que interessa:<\/p>\n<p>A m\u00e3e preparava (os biscoitos) as bolachinhas de Natal, o beb\u00ea dormia no seu bercinho r\u00fastico, (na \u00e9poca r\u00fastico era necessidade e n\u00e3o moda) e os irm\u00e3ozinhos brincavam na rua fazendo uma algazarra digna da fam\u00edlia que n\u00e3o consegue ficar calada. Se algu\u00e9m j\u00e1 bateu clara em neve a m\u00e3o sabe o quanto demora e o tec tec repetido do garfo no prato chamou a aten\u00e7\u00e3o dos cinco, que pararam com a correria e se dirigiram ao interior da casa, mais ou menos como os reis magos, n\u00e3o em adora\u00e7\u00e3o ao beb\u00ea mas ao redor do prato do merengue. Por mais que a m\u00e3e se esmerasse para raspar tudo o que podia sempre restava um restinho que podia ser limpado com os dedos que seriam depois lambidos. Por algum tempo o sil\u00eancio reinou na casa e todos faziam o poss\u00edvel para serem notados como querendo ajudar a m\u00e3e, um embalava o beb\u00ea, outro organizava as bolachas em fileira nas formas,\u00a0 outro ajudava passar o merengue, um espalhava o a\u00e7\u00facar colorido e sempre sobrava um que tentava fazer uma das quatro tarefas. At\u00e9 houve empurra empurra para tentar ajudar, as crian\u00e7as dos sonhos de cada m\u00e3e, todos empenhados em aliviar seu trabalho, a m\u00e3e meio sem ter o que fazer pensava consigo: &#8211; Realmente criamos uns anjinhos.<\/p>\n<p>No entanto, sempre tem um no entanto, as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es dos &#8220;anjinhos&#8221; era lamber o prato do merengue e quando terminasse a tarefa. Prontas as bolachas come\u00e7ou a disputa e imediatamente cinco dedinhos indicadores come\u00e7aram a limpeza do prato. Bem, n\u00e3o era exatamente limpeza, cada um queria era uma parte do merengue sobrado pala lamber. N\u00e3o tardou muito e a disputa se transformou em briga, na briga o beb\u00ea foi esquecido e com a gritaria come\u00e7ou a chorar. No desespero a m\u00e3e foi atender ao beb\u00ea, se n\u00e3o me engano com dois meses e pouco na \u00e9poca, o \u00fanico consolo para a Martinha foi oferecer o peito e pelo menos ela parou de gritar. Quanto aos outros a disputa continuava e o \u00fanico argumento da m\u00e3e foi: &#8211; Esperem eu terminar de dar mam\u00e1 pra Marta que voc\u00eas v\u00e3o ver a varinha. Todos largaram o prato, como que por magia, que quase caiu no ch\u00e3o, e a desaven\u00e7a terminou tamb\u00e9m como que por magia. Uma t\u00e1bua do barranco ajudou e todos foram voando para cima do telhado, l\u00e1 como n\u00e3o tinha muito o que fazer e n\u00e3o dava pra correr, a sa\u00edda foi aproveitar o tempo para cantar. Descer, nem pensar enquanto a promessa da m\u00e3e estivesse de p\u00e9.<\/p>\n<p>J\u00e1 findava a tarde, as sombras se espichavam e o sol tomava um colorido avermelhado&#8230; Ah! Eu ia me esquecendo. Na \u00e9poca n\u00e3o tinha hor\u00e1rio de ver\u00e3o. Se aproximava a hora do pai chegar do trabalho mas os cinco n\u00e3o se deram conta disso. A promessa da m\u00e3e n\u00e3o durava muito ela era como que um anjo de perd\u00e3o, conseguia perdoar at\u00e9 as maiores traquinagens de seus pupilos, mas o pai&#8230; Bem, o pai era outra coisa. Ele chegou do trabalho, n\u00e3o estranhou a aus\u00eancia da crian\u00e7ada, pois estava acostumado que ficavam brincando na rua at\u00e9 tarde, mas perguntou por elas assim mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e3o as crian\u00e7as?<\/p>\n<p>&#8211; Subiram no telhado para n\u00e3o apanhar. Eu prometi dar umas varadas para pararem a bagun\u00e7a ai eles fugiram.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>Assim ficou sabendo da hist\u00f3ria contada pela m\u00e3e que ainda se atarefava com a lida de tirar as bolachas do forno e cuidar da beb\u00ea. A tarefa de dar as varadas foi assumida por ele que pegou a vara de rabo-de-bugiu e saiu da casa,\u00a0 a cantoria cessara.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que agora nem vale a pena dar as varadas&#8230; &#8211; Disse a m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Se prometeu tem que dar para eles saberem que estamos de acordo com a educa\u00e7\u00e3o deles. &#8211; Olhou pra cima e disse:<\/p>\n<p><em>&#8211; Z\u00f4 tutti quanti, uno par uno!<\/em><\/p>\n<p>Os cinco n\u00e3o tiveram op\u00e7\u00e3o, descer um por um a terra, encarrar a realidade&#8230; e come\u00e7ou a sequ\u00eancia:<\/p>\n<p><em>&#8211; Uno e un tanto&#8230; Due e un altro tanto&#8230; Tr\u00e9 e altro tanto&#8230; Quatro e altro tanto&#8230; Cinque e altro tanto&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Assim a fila chegou ao fim sendo que o <em>altro tanto<\/em> era uma quantidade de varadas que cada um merecia.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui ficou claro que colocar os cinco anjinhos cantando sobre o telhado da casa no Natal \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o que surgiu na nossa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Um colega meu, tamb\u00e9m estudioso das tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, chegou a aventar a ideia que o cajado do carpinteiro do pres\u00e9pio \u00e9 uma alus\u00e3o ao rabo-de-bugiu, mas infelizmente n\u00e3o conseguiu provar. Ele partia da cena da m\u00e3e com o beb\u00ea e o pai com a vara na m\u00e3o numa casa pobre com cinco anjinhos sobre o telhado cantando. De fato \u00e9 muito parecida a cena mas n\u00e3o conseguimos elementos probat\u00f3rios para afirmar que o pres\u00e9pio foi baseado nela.<\/p>\n<p>De qualquer forma n\u00e3o temos d\u00favidas que a Elena, a Lucila, a Cec\u00edlia, o Tarc\u00edsio e o Or\u00e1cio costumavam subir no telhado, cantavam e faziam fila para apanhar. E segundo a tia Clementina eram uns anjinhos.<\/p>\n<p>Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se fala mais nisso. Feliz Natal!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas das tradi\u00e7\u00f5es que cultivamos tem suas ra\u00edzes perdidas na hist\u00f3ria e nem sabemos mais de onde vieram, assim acontece com a maioria das tradi\u00e7\u00f5es natalinas, tem at\u00e9 quem diga que a data do nascimento de Jesus foi adaptada de uma tradi\u00e7\u00e3o pag\u00e3. 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