{"id":257,"date":"2014-05-27T21:14:54","date_gmt":"2014-05-27T21:14:54","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=257"},"modified":"2014-05-28T00:17:43","modified_gmt":"2014-05-28T00:17:43","slug":"o-anjo-da-guarda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=257","title":{"rendered":"O anjo da guarda."},"content":{"rendered":"<p>Existe uma teoria que tudo se resolve em tr\u00eas etapas. Deus tem tr\u00eas pessoas.\u00a0O banquinho de tr\u00eas pernas \u00e9 sempre est\u00e1vel e por a\u00ed vai&#8230; o n\u00famero tr\u00eas \u00e9 um numero m\u00e1gico. E por falar em pernas a mentira tem pernas curtas.<\/p>\n<p>Um.<br \/>\nO caminho para o Bom Retiro j\u00e1 era bem conhecido o Carlinhos, vulgo Mano, que trilhava todos os domingos, sempre aproveitando o atalho pela rua Zero\u00a0Hora, que naquela \u00e9poca era mais ou menos uma trilha. Mesmo sem saber exatamente porque o pai o recomendara para fazer a catequese com o tio Abel, na capela de Nossa Senhora Aparecida, no Bom Retiro, e n\u00e3o com os outros meninos de sua idade que eram catequizados em Nova Palma, na matriz da Sant\u00edssima Trindade. De qualquer forma tratava-se da catequese, mas n\u00e3o era qualquer catequese, era a do tio Abel.<br \/>\n&#8211; Ah! Que belas caminhadas&#8230; sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde d\u00e1 pra se balan\u00e7ar um pouco. Depois, se juntar aos primos e amigos e ir at\u00e9 a capela.<br \/>\nO tio Abel, ou melhor a catequese dele, era disputad\u00edssima na redondeza, tinha gente que at\u00e9 mudava de resid\u00eancia para poder participar do grupo de catequese dele. Para o Carlos isso n\u00e3o foi problema pois o pai tinha grande influ\u00eancia na par\u00f3quia e por isso matricular o filho na \u201ccatequese do Abel\u201d n\u00e3o foi problema. Al\u00e9m disso, tem outras hist\u00f3rias que indicam que a fam\u00edlia prezava muito a educa\u00e7\u00e3o dada pelos tios, mas n\u00e3o importa a raz\u00e3o, a verdade \u00e9 que o Mano ia todos os domingos para a catequese l\u00e1 na capela Nossa senhora Aparecida.<br \/>\nBem, exatamente n\u00e3o todos os domingos, porque num domingo ele encontrou amigos pelo caminho e resolveu mudar um pouco de rumo. Esta \u00e9 outra caracter\u00edstica desta fam\u00edlia, a facilidade de improviso. Um convite para jogar um futebolzinho at\u00e9 que caia bem naquele domingo \u00e0 tarde, e o que \u00e9 um dia sem catequese, uma \u00fanica faltinha, com certeza o tio vai perdoar, ele tem um cora\u00e7\u00e3o de ouro, \u00e9 s\u00f3 inventar uma desculpazinha qualquer.<br \/>\nE foi assim que o nosso catequizando mudou de rumo, afinal estaria reunido com amigos e na B\u00edblia est\u00e1 escrito: &#8220;Onde dois ou mais estiverem reunidos&#8230;&#8221; eles eram mais de vinte. Estavam ainda seguindo a B\u00edblia mesmo que o encontro fosse no campo de futebol em vez de ser na capela. Al\u00e9m disso estaria completando o time dos amigos que n\u00e3o poderiam jogar sem ele. Sob v\u00e1rios aspectos a troca da catequese pelo futebol n\u00e3o representava nenhum pecado imperdo\u00e1vel, pelo contr\u00e1rio, tinha l\u00e1 seus m\u00e9ritos. Futebol com os amigos at\u00e9 a hora do fim da catequese pra que n\u00e3o ficasse muito evidente para o pai a troca de atividade daquele dia.<\/p>\n<p>Dois.<br \/>\nDepois de cantar duas missas no domingo o regente do coro, o Pio Piovesan, chega em casa com a garganta cansada, almo\u00e7a e precisa dar um descanso \u00e0s cordas vocais. O dia ameno de in\u00edcio de outono sugere uma atividade prazerosa e tranquila, onde se possa cultivar a medita\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio. Com certeza uma pescaria no Soturno \u00e9, sem d\u00favida, uma bela op\u00e7\u00e3o. Munido de vara de pesca, uma latinha de minhocas, uma sacola para p\u00f4r os peixes e muita vontade de pescar l\u00e1 vai o Pio. Bela caminhada, sobe morro, desce morro, caminha um pouco, passa a pinguela do Soturno, onde d\u00e1 pra se balan\u00e7ar um pouco como no tempo de crian\u00e7a, e caminha um pouco pela barranca do rio at\u00e9 achar um bom lugar para pescar. Tarde agradabil\u00edssima, n\u00e3o deu muito peixe, mas em compensa\u00e7\u00e3o o sil\u00eancio, o ru\u00eddo da \u00e1gua, que mais parece m\u00fasica e a paz da beira do rio s\u00e3o ingredientes capazes de restabelecer qualquer um.<\/p>\n<div id=\"attachment_258\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-258\" class=\"size-medium wp-image-258\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca-300x168.jpg\" alt=\"Um lugar paradis\u00edaco para pescar e meditar, um peda\u00e7o do c\u00e9u na terra.\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca-300x168.jpg 300w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca-150x84.jpg 150w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca-600x337.jpg 600w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/local-da-pesca.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-258\" class=\"wp-caption-text\">Um lugar paradis\u00edaco para pescar e meditar, um peda\u00e7o do c\u00e9u na terra.<\/p><\/div>\n<p>Em se tratando do Pio isto representa um peda\u00e7o do para\u00edso, com exce\u00e7\u00e3o da paisagem at\u00e9 d\u00e1 pra se sentir como Cristo jejuando no deserto.<br \/>\nPor falar em jejuar, j\u00e1 passam das quatro da tarde e come\u00e7a a bater uma fominha, \u00e9 claro que ele n\u00e3o levou lanche, pois perto da casa do mano Abel era s\u00f3 dar um pulinho l\u00e1 para o &#8220;ch\u00e1 das quatro&#8221;. Era a hora que ele voltava da catequese, deveria estar chegando em casa, ent\u00e3o vamos l\u00e1.<br \/>\nSempre \u00e9 muito gratificante visitar os irm\u00e3os em especial quando \u00e9 para tomar um chimarr\u00e3o, comer uma cuca ou bolachas e jogar conversa fora&#8230;<br \/>\nParecia j\u00e1 combinado, o Pio subindo do rio pela estrada e o Abel vindo da capela se encontraram na entrada do caminho para a casa. Como a gurizada ficava para tr\u00e1s brincando o Pio nem notou que o Mano n\u00e3o vinha com ele. Como tinham in\u00fameros assuntos para tratar o assunto Mano s\u00f3 veio \u00e0 tona quando o Abel perguntou:<br \/>\n&#8211; Porque o Carlos n\u00e3o veio para a catequese hoje?<br \/>\nO Pio co\u00e7ou a cabe\u00e7a, pensou um pouco e respondeu:<br \/>\n&#8211; Ele saiu para a catequese um pouco antes de mim e veio pra c\u00e1&#8230; A resposta ficou meio no ar, tinha algo estranho acontecendo, certamente ele deveria ouvir uma bela explica\u00e7\u00e3o ao chegar em casa.<br \/>\nO Catequista ainda falou que ele n\u00e3o costumava faltar, principalmente porque depois da catequese costumava jogar bola com a piazada dele.<\/p>\n<p>Tr\u00eas.<br \/>\nO Carlos chega em casa suado, at\u00e9 meio sujo, e a m\u00e3e&#8230;<br \/>\nAqui cabe um par\u00eantesis a m\u00e3e neste caso \u00e9 a tia Clementina, que corresponde exatamente a descri\u00e7\u00e3o do conceito de m\u00e3e, \u00e9 paciente, atenciosa, amorosa e sobretudo, neste caso sem mal\u00edcia. Mesmo estranhando a sujeira do filho cr\u00ea que ele vem da catequese, deve ter sido alguma atividade pr\u00e1tica que o Abel mandou fazer.<br \/>\nCom a maior inoc\u00eancia do mundo\u00a0ela indaga:<br \/>\n&#8211; Porque n\u00e3o esperou o teu pai que foi pescar l\u00e1 no Abel?<br \/>\n&#8211; \u00c9 que eu fui jogar um futebol.<br \/>\nFoi a resposta meio lac\u00f4nica, meio gaguejada, de quem acaba de ser pego numa mentira. A m\u00e3e pensando que se tratava do futebolzinho de ap\u00f3s catequese deixou por isso mesmo, mas o Carlos&#8230; estava frito. Faltar \u00e0 catequese do tio Abel, logo num dia que o pai vai l\u00e1, s\u00f3 podei ser castigo por ter transgredido as sagradas regras da fam\u00edlia, a esta hora o pai j\u00e1 sabia de tudo. E agora? Com certeza a cinta ou a bainha do fac\u00e3o iriam pegar quando ele chegasse da pescaria, ainda mais que apesar de divina e relaxante n\u00e3o tinha rendido muito.<br \/>\nMas como toda a crian\u00e7a, vamos dar um desconto ele ainda era crian\u00e7a, tem um anjo da guarda para salvar dos perigos, o Carlos tamb\u00e9m tinha o seu. S\u00f3 que eu duvido um pouco que se tratava do \u201canjo\u201d da guarda. Soprou uma ideia para aliviar o castigo. &#8220;Se ele tivesse meio adoentado e fosse dormir mais cedo o pai n\u00e3o daria o castigo naquele dia e depois, certamente, esqueceria.&#8221; E foi feito. Naquele dia o Mano foi dormir mais cedo, ficou sem janta, sem polenta com peixe frito, mas escapou da cinta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma teoria que tudo se resolve em tr\u00eas etapas. 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