{"id":174,"date":"2014-02-22T20:55:10","date_gmt":"2014-02-22T20:55:10","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=174"},"modified":"2014-05-28T00:52:05","modified_gmt":"2014-05-28T00:52:05","slug":"corrida-sem-obstaculos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=174","title":{"rendered":"Corrida sem obst\u00e1culos"},"content":{"rendered":"<p>Os primeiros tempos (este \u00e9 um trecho da hist\u00f3ria da fam\u00edlia do Lino)<\/p>\n<p>O primeiro ano, depois da mudan\u00e7a foi bastante duro, busc\u00e1vamos \u00e1gua numa fonte que ficava mais de trezentos metros da casa, para lavar a roupa a m\u00e3e precisava ir at\u00e9 a sanga (arroio) um pouco abaixo da fonte. Nos primeiros meses t\u00ednhamos dois baldes de madeira para buscar \u00e1gua na fonte, umas duas ou tr\u00eas vezes no dia.<br \/>\nNa \u00e9poca o Leo tinha uns nove anos e eu sete, para carregar o balde de \u00e1gua us\u00e1vamos uma vara, pouco maior que um cabo de enxada, que enfi\u00e1vamos na al\u00e7a do balde para facilitar o trabalho, como era subida, eu ia \u00e0 frente, porque era mais baixinho, e o Leo atr\u00e1s. Muitas vezes com o sacolejar das passadas cheg\u00e1vamos em casa com pouco mais de meio balde de \u00e1gua. Por isso faz\u00edamos muitas viagens por dia. Mais tarde o pai fez uma zorra com uma forquilha e encaixou nela um barril que cabia uns dez baldes a\u00ed facilitou um pouco a nossa vida, ele buscava \u00e1gua no barril no final da tarde e n\u00f3s apenas precis\u00e1vamos buscar \u00e1gua fresca para beber durante o dia.<br \/>\nEsta rotina se estendeu por bastante tempo, quase um ano, neste meio tempo a m\u00e3e foi picada por uma bicho venenoso, que nunca soubemos o que foi, e com isso quase tudo o que t\u00ednhamos foi gasto com m\u00e9dicos e rem\u00e9dios, ela estava gr\u00e1vida da Luiza, com movimentos limitados por causa da perna enormemente inchada&#8230;<br \/>\nCorrida sem obst\u00e1culos. (esta \u00e9 uma das mutas hist\u00f3rias que permeiam nossas vidas)<br \/>\nAqui \u00e9 preciso fazer um par\u00eantesis na hist\u00f3ria. Os personagens s\u00e3o a m\u00e3e, o Leo, o Leonildo e eu. A m\u00e3e gr\u00e1vida e com um problema numa perna, rec\u00e9m estava sarando da picada do bicho. Neste dia o Pai estava fora arrastando toras para a serraria do tio Luiz Trentin, o Leo e eu ficamos cuidando da casa e a m\u00e3e foi lavar roupa na sanga, o Leonildo n\u00e3o quis ficar conosco e foi com a m\u00e3e, ficou brincando no banhadinho a tarde toda.<br \/>\nUm pouco antes do p\u00f4r do sol, quando as sombras come\u00e7am a ficar compridas, o matinho da fonte come\u00e7ava a fazer sombra no po\u00e7o onde estava o lavador a m\u00e3e terminou de torcer as \u00faltimas pe\u00e7as de roupa e colocou na bacia para voltar para casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_175\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/lavador1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-175\" class=\"size-medium wp-image-175\" alt=\"Lavador - Este dispositivo pr\u00e1tico era usado para lavar roupas de joelhos no lado do arroio que o barranco terminava em zero, em geral do lado de dentro das curvas do rio ou arroio.\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/lavador1-300x210.jpg\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/lavador1-300x210.jpg 300w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/lavador1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-175\" class=\"wp-caption-text\">Lavador &#8211; Este dispositivo pr\u00e1tico era usado para lavar roupas de joelhos no lado do arroio que o barranco terminava em zero, em geral do lado de dentro das curvas do rio ou arroio.<\/p><\/div>\n<p>O lavador era um dispositivo, muito usado na \u00e9poca para facilitar o trabalho de lavar no arroio, como \u00e9 muito dif\u00edcil de descrever terei que desenhar. O lavador ficava do outro lado da sanga, tinha uma pinguela feita com tr\u00eas paus roli\u00e7os para atravessar o arroio. O po\u00e7o do lavador ficava numa curva do arroio de forma que ao norte e leste ficava a nossa terra, no quadrante sudoeste ficavam as terras do Seu Tat\u00e3o, o lavador estava daquele lado porque n\u00e3o tinha barranco no lado de dentro da curva do rio. No quadrante sudeste ficava o banhadinho que era um espa\u00e7o bastante \u00famido, mas gramado, no nordeste ficava o potreiro, um espa\u00e7o gramado com aclive ao norte razoavelmente acentuado, no noroeste ficava o matinho da fonte, hoje \u00e9 a fonte que abastece a Vila Trentin, indo ao norte costeando o matinho ficava a trilha que ia para a nossa casa, uns trezentos metros de dist\u00e2ncia. A uns cinquenta metros lomba acima tinha a trilha que entrava no mato e ia para a fonte. Do po\u00e7o do lavador at\u00e9 a fonte dava uns trinta metros, formando um triangulo de trilha, mas a trilha n\u00e3o era muito usada.<br \/>\nA m\u00e3e terminara de lavar as roupas, o Leonildo brincava no banhadinho, enquanto o sol se punha. Era preciso apressar o passo para fazer a janta e as lidas do fim do dia antes que o Lino chegasse do trabalho.<br \/>\n&#8211; Leonildo! Vamos para casa! \u2013 chamou a m\u00e3e j\u00e1 com as roupas torcidas na bacia e pronta para atravessar a pinguela em dire\u00e7\u00e3o ao rancho.<br \/>\nO guri veio correndo atravessou a pinguela e se postou do lado da m\u00e3e. A m\u00e3e pegou a bacia de roupa e se dirigiu para a pinguela quando o pequeno infante de ent\u00e3o tr\u00eas anos e pouco anunciou categ\u00f3rico:<br \/>\n&#8211; Eu quero colo.<br \/>\nA m\u00e3e tentou argumentar que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de levar a bacia e ele no colo, nem falou de sua condi\u00e7\u00e3o de gr\u00e1vida, porque ele n\u00e3o iria entender mesmo. O impasse estava criado o guri queria colo e a m\u00e3e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de dar. Nenhuma argumenta\u00e7\u00e3o foi capaz de demover o garoto, enquanto isso o sol se punha e come\u00e7ava a escurecer&#8230; A m\u00e3e foi para casa com a bacia de roupas e o pirralho ficou chorando do outro lado do arroio.<br \/>\nChagando em casa preocupada com o ca\u00e7ula, tomou uma daquelas decis\u00f5es que as m\u00e3es sabem tomar muito bem, o Leo tinha condi\u00e7\u00f5es de trazer o Leonildo nas costas se ele n\u00e3o quisesse caminhar, o Liceo, eu, levaria o balde para buscar \u00e1gua na fonte assim n\u00e3o ficava perigoso, pois escurecia rapidamente.<br \/>\nO Leo, consciente de sua responsabilidade foi reto ao po\u00e7o do lavador para buscar o irm\u00e3o ca\u00e7ula, eu tomei a trilha da fonte para encher o balde, depois o Leo me ajudaria como de costume a levar para casa. Para encher o balde tinha uma caneca, a gente pegava \u00e1gua na fonte, subia o barranco e depositava no balde, isso tinha que ser feito umas oito vezes para encher.<br \/>\nO lusco fusco do entardecer dava um arrepio, ainda mais dentro do mato, qualquer vulto ou som parecia maior e mais assustador. Os outros dois estavam fora do mato onde ainda estava bastante claro.<br \/>\n&#8211; Leonildo! Eu te levo de macaquinho. J\u00e1 esta ficando noite&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3a\u00e3\u00e3\u00f5! Eu quero o colo da m\u00e3e&#8230;<br \/>\n&#8211; Eu te levo no colo!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Eu vou te deixar aqui.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o!<br \/>\nN\u00e3o importava a pergunta ou proposi\u00e7\u00e3o, a resposta era sempre n\u00e3o, sonoro e chorado&#8230;<br \/>\nNeste meio tempo eu j\u00e1 enchera o balde e esperava o Leo para me ajudar a lev\u00e1-lo para casa, mas s\u00f3 ouvia aquele di\u00e1logo infrut\u00edfero. J\u00e1 com muito medo, e sem for\u00e7as para levar o balde sozinho, resolvi ir em dire\u00e7\u00e3o aos dois para chamar o meu ajudante. Como a trilha da fonte ao lavador era pouco usada tinha galhos e taquaras secas que come\u00e7aram a quebrar na medida em que eu avan\u00e7ava. O barulho das taquaras quebradas deve ter despertado algum temor nos dois que o Leo pediu para o Leonildo parar de chorar e ele parou, fez-se um sil\u00eancio assustador. Nisso dei mais alguns passos para chamar o Leo para me ajudar. Foi ent\u00e3o que ouvi o seguinte:<br \/>\n&#8211; Leonildo escuta! Falou o Leo, e ao ouvir o estalar das taquaras quebradas e continuou&#8230; ssss&#8230; Nisso eu gritei por eles, e o Leo arrematou:<br \/>\n&#8211; Leonildo escuta! Eu acho que \u00e9 o diabinho&#8230;<br \/>\nEm seguida vi o vulto dos dois a toda a velocidade lomba acima como se disputassem uma corrida de cem metros rasos. N\u00e3o tive outra escolha, alguns minutos depois cheguei, de l\u00edngua de fora, arrastando o balde sozinho. Os dois ainda resfolegavam de l\u00edngua de fora em fun\u00e7\u00e3o da corrida.<br \/>\nOutras hist\u00f3rias envolvendo o tal diabinho, \u00a0acho que \u00e9 o Leonildo que deve conta-las.<br \/>\nAlgum tempo depois a tia Eul\u00e1lia ficou uns meses l\u00e1 em casa para ajudar, mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os primeiros tempos (este \u00e9 um trecho da hist\u00f3ria da fam\u00edlia do Lino) O primeiro ano, depois da mudan\u00e7a foi bastante duro, busc\u00e1vamos \u00e1gua numa fonte que ficava mais de trezentos metros da casa, para lavar a roupa a m\u00e3e precisava ir at\u00e9 a sanga (arroio) um pouco abaixo da fonte. Nos primeiros meses t\u00ednhamos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-174","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-tio-lino"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/174"}],"collection":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=174"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":176,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/174\/revisions\/176"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}