{"id":15,"date":"2013-10-29T23:37:19","date_gmt":"2013-10-29T23:37:19","guid":{"rendered":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=15"},"modified":"2015-08-04T13:24:10","modified_gmt":"2015-08-04T16:24:10","slug":"angelus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/liceobr.com\/historia\/?p=15","title":{"rendered":"\u00c2ngelus"},"content":{"rendered":"<p>Numa fam\u00edlia religiosa, e curiosamente uma fam\u00edlia onde os homens eram bons praticantes, uma coisa que n\u00e3o podei faltar no fim do dia era um momento para agradecer a Deus pelas gra\u00e7as alcan\u00e7adas naquele dia. Gra\u00e7a \u00e9 tudo aquilo que ganhamos numa propor\u00e7\u00e3o maior que nosso esfor\u00e7o, numa fam\u00edlia como esta as gra\u00e7as caem aos milhares de todos os lados, imagine uma brincadeira das crian\u00e7as, as crian\u00e7as crescendo, o milho nascendo, a uva amadurecendo, uma vaca que d\u00e1 leite, imposs\u00edvel enumerar tudo o que acontece em um s\u00f3 dia que n\u00e3o seja gratificante, ou seja, cheio de gra\u00e7a. Logo nenhum s\u00f3 dia podia findar sem dar gra\u00e7as a Deus, \u00e9 claro que tamb\u00e9m tinha que pedir perd\u00e3o por aquilo que n\u00e3o estava muito bem dentro da regra, isto tudo fazia parte da cerim\u00f4nia de encerramento do dia que tinha que ser gloriosa. Infelizmente n\u00e3o vivi estas tardes com o nono e os tios, mas acredito que n\u00e3o poderiam ser muito diferentes das que vivi na minha inf\u00e2ncia com minha fam\u00edlia.<\/p>\n<div id=\"attachment_17\" style=\"width: 268px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/rancho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17\" class=\"size-medium wp-image-17\" src=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/rancho-258x300.jpg\" alt=\"O autor \u00e9 o do meio - ao fundo o ranchinho mencionado no texto e na m\u00fasica.\" width=\"258\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/rancho-258x300.jpg 258w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/rancho-883x1024.jpg 883w, http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/rancho.jpg 1248w\" sizes=\"(max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17\" class=\"wp-caption-text\">O autor \u00e9 o do meio &#8211; ao fundo o ranchinho mencionado no texto e na m\u00fasica.<\/p><\/div>\n<p>\u201cA luz do sol logo depois do ocaso come\u00e7a a escassear, \u00e9 o crep\u00fasculo, o dia recheado de atividade cede lugar ao recolhimento da noite que devagarinho cobre com seu manto toda a terra. Os p\u00e1ssaros nas \u00e1rvores come\u00e7am o burburinho da busca pelo abrigo, as galinhas se recolhem e os porcos&#8230; ah! Os porcos come\u00e7am a gritar por comida, l\u00e1 vai a gurizada com um balde de milho ou uma abobora picada, e eles se acalmam, a <em>mama<\/em> clama pela lenha para fazer a polenta enquanto acende o <i>chiaro<\/i> (lamparina), a gurizada termina rapidamente as brincadeira e faz as lidas do fim do dia. Como borboletas v\u00e3o buscar a luz ou o calor do fog\u00e3o de chapa. Enquanto a \u00e1gua da polenta esquenta, esquenta tamb\u00e9m a chaleira para fazer o mate, a gurizada lava os p\u00e9s para dormir e p\u00f5e os chinelos ou tamancos.<\/p>\n<p>Os cachorros anunciam a aproxima\u00e7\u00e3o do pai que volta da lavoura, o pi\u00e1 que est\u00e1 sentado na caixa de lenha j\u00e1 se co\u00e7a, pois vai perder seu lugar perto do fogo, \u00e9 o lugar do pai, que chega e resume rapidamente o trabalho do dia. A m\u00e3e j\u00e1 est\u00e1 com o chimarr\u00e3o pronto que come\u00e7a a ser servido. A partir de agora come\u00e7a uma das mais emocionantes celebra\u00e7\u00f5es de que j\u00e1 participei.<\/p>\n<p>O templo: uma casa muito simples sala e cozinha, a sala de assoalho r\u00fastico e a cozinha de ch\u00e3o batido. O altar do sacrif\u00edcio: um fog\u00e3o r\u00fastico com grandes toros de lenha alimentando um fogo crepitante, sobre o altar a chaleira do chimarr\u00e3o e a panela da polenta aquecendo a \u00e1gua, talvez uma frigideira aquecendo a banha para uma <i>fortaia<\/i>. A luz do fogo e das lamparinas ilumina o ambiente. Sem distin\u00e7\u00e3o de ministros ou celebrantes, cada um tem consci\u00eancia de sua fun\u00e7\u00e3o. \u00a0A m\u00e3e p\u00f5e a farinha na panela da polenta enquanto o pai serve o chimarr\u00e3o, os dois se revezam entre a cuia e a <i>mescola<\/i>, enquanto um toma seu chimarr\u00e3o o outro mexe a polenta. As crian\u00e7as menores encolhidas ao redor do fog\u00e3o ouvem atentamente a liturgia da palavra a primeira parte da cerim\u00f4nia: tempo reservado para a leitura de algum livro ou jornal, feita por um dos maiorzinhos sentado no banco com o texto sobre a mesa. L\u00e1 est\u00e1 a melhor lamparina uma que tem a chama fixa e grande. O leitor \u00e9 quem preside esta parte da celebra\u00e7\u00e3o, depois de uma ou duas p\u00e1ginas passa para outro, isto continua at\u00e9 a polenta e a <i>fortaia<\/i> ficarem prontas, ou um assunto lido exigir algum coment\u00e1rio ou discuss\u00e3o, onde o pai ou a m\u00e3e assumem o papel de ministro da palavra.<\/p>\n<p>Pronta a ceia, interrompe-se a leitura e se prepara a mesa da comunh\u00e3o. \u00c0s vezes o banquete \u00e9 de apenas polenta, radicci, e um <i>\u201ctoquetto de salado ou formaggio\u201d<\/i>, outras tem carne ou outros complementos. O pai agradece a Deus\u00a0em nome da fam\u00edlia os dons recebidos, ou se canta um agradecimento. \u00c9 na hora da comunh\u00e3o que os pais aproveitam para fazer uma revis\u00e3o do dia dos filhos, o que fizeram? Como foi na escola? Aprontaram alguma arte? E assim por diante. Corpo e alma s\u00e3o alimentados nesta cerim\u00f4nia simples e ao mesmo tempo completa.<\/p>\n<p>Finda a comunh\u00e3o os participantes se dispersam cada um segue um ritual espec\u00edfico: A m\u00e3e vai at\u00e9 o sechiaro para lavar os utens\u00edlios do culto, um dos filhos vai secar e guardar, os menores se ajoelham sobre o banco debru\u00e7ando-se sobre a mesa o pai se ajoelha no ch\u00e3o e apoia os bra\u00e7os sobre a guarda duma cadeira, agora \u00e9 ele quem preside. \u00c9 hora de rezar o ter\u00e7o e a ora\u00e7\u00e3o da noite. Normalmente as vozes das crian\u00e7as come\u00e7a vigorosa no in\u00edcio e finda, no final do ter\u00e7o, quase num murm\u00fario. Alguns at\u00e9 adormecidos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa como foi o dia agora j\u00e1 se pode dormir tranquilo, estivemos em dois ou mais reunidos em nome do Todo Poderoso, quem poder\u00e1 nos impor medo?\u201d<\/p>\n<p>Mas o dia de gra\u00e7a muitas vezes ainda n\u00e3o findava a\u00ed, quando um dos menores terminava o ter\u00e7o dormindo n\u00f3s d\u00e1vamos uma cutucada para ver ele come\u00e7ar a responder: \u201cSanta Maria ah ah nham nhmam aaa&#8230; e nos r\u00edamos.<\/p>\n<p>Nas noites de luar no ver\u00e3o a cerim\u00f4nia era outra: a cantoria da qual falaremos oportunamente. Na tentativa de recordar e recontar esta cerim\u00f4nia do \u00c2ngelus compus uma cantiga de ninar para minha sobrinha Isabela, filha da Leda, bisneta do Toni Torccio cuja letra est\u00e1 a seguir \u00a0e \u00a0a m\u00fasica num arranjo do Ernesto Piovesan, tamb\u00e9m bisneto do Toni numa grava\u00e7\u00e3o dele. Vale a pena ouvir.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/liceobr.com\/historia\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Dorme-Isabela.wma\" target=\"_blank\">Dorme Isabela<\/a> baixar<\/p>\n<h1>Dorme Isabela<\/h1>\n<p>\/: O sol se vai. A noite vem<br \/>\nDorme Isabela, dorme meu bem. :\/<\/p>\n<p>1 &#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Devagarinho a bicharada silencia.<br \/>\nA passarada se recolhe pros seus ninhos.<br \/>\nA crian\u00e7ada vai cessando a gritaria.<br \/>\nE pouco a pouco se achegando pro ranchinho.<\/p>\n<p>\/: O sol se vai. A noite vem<br \/>\nDorme Isabela, dorme meu bem. :\/<\/p>\n<p>2 &#8211; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Chaleira chia enquanto a m\u00e3e prepara o mate<br \/>\nO fogo arde no braseiro do fog\u00e3o<br \/>\nUm pi\u00e1 resmunga e l\u00e1 fora o cusco late<br \/>\n\u00c9 o pai que chega com os bois no carret\u00e3o.<\/p>\n<p>\/: O sol se vai. A noite vem<br \/>\nDorme Isabela, dorme meu bem. :\/<\/p>\n<p>3 &#8211;\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois a cuia vai passando m\u00e3o em m\u00e3o<br \/>\nUm livro conta hist\u00f3ria que nos encanta<br \/>\nNo lusco fusco duma luz de lampi\u00e3o<br \/>\nEnquanto a m\u00e3e l\u00e1 no fog\u00e3o prepara a janta.<\/p>\n<p>O sol se vai. A noite vem<br \/>\nDorme Isabela, dorme meu bem.<br \/>\nO sol se foi. E \u00e9 noite j\u00e1<br \/>\nDorme Isabela, pra descansar.<\/p>\n<p>4 &#8211;\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois da janta a crian\u00e7ada se acomoda<br \/>\nPra cerimonia de encerrar aquele dia<br \/>\nAjoelhados, debru\u00e7ados sobre os bancos.<br \/>\nRezando o ter\u00e7o na hora da Ave Maria.<\/p>\n<p>\/: O sol se foi. E \u00e9 noite j\u00e1<br \/>\nDorme Isabela, pra descansar. :\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa fam\u00edlia religiosa, e curiosamente uma fam\u00edlia onde os homens eram bons praticantes, uma coisa que n\u00e3o podei faltar no fim do dia era um momento para agradecer a Deus pelas gra\u00e7as alcan\u00e7adas naquele dia. 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